Uma professora da rede particular de ensino de Belém está desde a última quinta-feira (22) no corredor do Pronto-Socorro do Guamá, aguardando por um leito e uma definição sobre o seu quadro de saúde. O marido dela, Lauro Araújo, conta que a esposa, Simone da Costa Araújo, de 48 anos, está em uma crise de pancreatite aguda, com pedras na vesícula e no rim, sentindo fortes dores, mas sem os encaminhamentos devidos. Segundo ele, antes de chegar ao PS, ela foi atendida três vezes na UPA, apenas tomava remédio para dor e enjoo e era mandada de volta para casa.
“Ela grita de dor, não consegue dormir, porque não tem posição. O pâncreas está inchado, que, só de olhar a barriga, dá pra ver o formato do órgão, uma parte bem alta. Ela não chegou assim aqui. A gente suspeita que seja um caso cirúrgico, mas nem o pedido de internação foi feito até agora, e é isso que estamos preocupados. O médico que falamos diz que não é com ele, que precisa esperar outro chegar, mas essa pessoa nunca chega, e o quadro só está se agravando”, diz Lauro.
De acordo com os relatos feitos pelo marido, na segunda (26/10), a família recebeu um laudo confirmando o quadro delicado de Simone: pancreatite aguda, pedras na vesícula e no rim. “Recebemos o laudo, mas sem nenhum encaminhamento, ou seja, parece que querem que a gente siga aqui. O que uma família faz com um laudo? Nada! Ontem (domingo, 25), mesmo depois de tomar remédio pra dor, precisou tomar morfina tamanha era o desconforto que estava sentindo. Só depois disso, conseguiu descansar um pouco”, informa Lauro.
O marido relata que, por conta do quadro de saúde, desde quinta, Simone não consegue se alimentar nem beber líquido algum, está com a pele e olhos amarelados, exames muito alterados e o quadro se agravando com dor e enjoos. “Ela ficou dois dias na cadeira de rodas, depois colocaram ela numa maca no corredor e assim estamos até agora. A cadeira que eu sento quebrou, precisei buscar uma em casa pra ficar perto dela. Mas essa é a realidade aqui, vários pacientes estão no mesmo corredor que a gente, com o mesmo tratamento”, diz.
Lauro busca informações e encaminhamentos para o caso grave de saúde da esposa. “Não dá pra ficar esperando o pior acontecer aqui, preciso saber o que será feito, quais as providências a serem tomadas. Aqui tudo você precisa ficar cobrando, desde o soro, que ela não pode ficar sem, porque está sem comer e beber desde quinta, até remédio pra dor”, critica o esposo.
A Redação Integrada de O Liberal solicitou um posicionamento da Prefeitura de Belém sobre a situação e aguarda retorno.
Crise na saúde
O problema envolvendo a saúde municipal que Simone enfrenta não é um caso isolado. O Hospital Pronto-Socorro Mário Pinotti, da travessa 14 de Março, piorou o atendimento aos pacientes com a precarização na contratação das equipes médicas. A denúncia feita por médicos e pela Associação de Servidores de Saúde do Município de Belém (Assesmub) lista vários problemas após a contratação de uma empresa terceirizada em setembro deste ano por mais de R$ 66 milhões por ano.
Inclusive, o Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) informou que recebeu novas denúncias de médicos que trabalham no PSM da 14, sobre atraso no pagamento dos profissionais, falta de previsão para a regularização dos salários e condições inadequadas de descanso durante os plantões.
No Hospital Pio XII, no bairro da Campina, em Belém, foi emitido um alerta para o risco de comprometimento da continuidade da assistência pediátrica prestada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A unidade, que atende exclusivamente crianças de Belém, informou que enfrenta dificuldades financeiras e contratuais que estariam prejudicando a manutenção dos atendimentos.
A falta de pagamentos da Prefeitura Municipal de Belém (PMB) pelos atendimentos feitos na unidade levou à redução do atendimento de crianças pela unidade hospitalar. Os atrasos, que pioraram em abril deste ano, geraram a diminuição de 70 para 20 leitos de internação. O Pio XII, que realizava mensalmente 1.200 atendimentos na urgência, reduziu para quase 400 atendimentos. Os valores devidos ao hospital já somam aproximadamente R$ 1,4 milhão.

