CONTINUE EM OLIBERAL.COM
X

Artesão paraense produz berlinda com elementos da cultura indígena Krikati para o Maranhão

O município possui uma forte devoção a Nossa Senhora de Nazaré, além da presença dos povos originários Krikati, que serão homenageados

Ayla Ferreira* e Lívia Ximenes

No Pará, artesãos mantêm viva a cultura do Círio de Nazaré, com trabalhos que são produzidos especialmente para a festividade e chegam até mesmo em outros estados. É o caso do artesão Ronaldo Santos, que confecciona e restaura berlindas e criou uma berlinda exclusiva, que seguirá de Belém para Montes Altos, no Maranhão. O município possui uma forte devoção a Nossa Senhora de Nazaré, além da presença dos povos originários Krikati, que serão homenageados com palavras da língua Krikati presentes na peça.

VEJA MAIS

image Auto do Círio está na rua para alertar pela preservação do patrimônio amazônico
Programa de Extensão da UFPA chega a sua 32ª edição e será oficialmente lançado em 13 de setembro

image Círio de Nazaré 2026 movimenta produção de 120 mil peças de cera em Belém
Fábricas do centro histórico de Belém intensificam a produção de objetos usados no pagamento de promessas; encomendas incluem partes do corpo, casas, veículos e até peças personalizadas

image Círio 2026: programação de preparação reúne oração e peregrinações a partir deste sábado (22)
A tradicional recitação das Mil Ave-Marias, no sábado, vai ocorrer na Cripta da Basílica Santuário de Nazaré

Os dizeres “Aquēhn Cateh” (amor); “A'carēhc” (paz); “Pa'cohneh'cym” (união); e “Pajacryyh” (felicidade) foram entalhados na madeira das colunas da berlinda. Eles foram escolhidos como forma de fazer com que a sociedade tenha um olhar de comunhão, valorização e preservação dos povos originários, nas palavras do padre Luzimar Moura, de 55 anos, pároco da Paróquia Santa Ana, onde será realizada a 6ª edição do Círio de Nazaré e a primeira com a berlinda Krikati.

Padre Luzimar explica que a representação de características próprias dos povos indígenas na berlinda, com referências à cultura Krikati, se dá pela vontade da paróquia de incluir a todos. “É uma referência e homenagem aos primeiros habitantes de Montes Altos. Foi uma percepção de fazer uma inclusão, não só valorização da cultura, mas de proteção espiritual e proximidade com os povos indígenas. Fizemos uma visita ao cacique da Aldeia São José, que achou muito boa a ideia e autorizou”, conta.

A conexão de fé entre o Pará e o Maranhão, que resultou na criação da berlinda exclusiva, surgiu por meio de um vídeo publicado na rede social YouTube. “Tenho um canal de vídeos, e foi lá que o Maurício Moura, embaixador do Círio no Maranhão, viu uma berlinda que eu tinha feito. Ele me ligou e perguntou se eu seria capaz de fazer essa berlinda no tamanho já praticamente original. Eu aceitei o desafio”, diz o artesão Ronaldo Santos.

Processo

Na construção da primeira berlinda, em 2022, Ronaldo contou com o apoio dos irmãos, da esposa e do cunhado. O primeiro modelo acabou ficando muito grande, sendo doado para o estado do Tocantins posteriormente. Já a construção da segunda berlinda é um trabalho conjunto entre Ronaldo, a esposa e o irmão, além de dois alunos do projeto “Do lixo ao luxo”, idealizado pelo artesão, que ensina sobre o trabalho manual. Ela será utilizada pela primeira vez na procissão do Círio, além de ser utilizada como Glória para a Imagem Peregrina.

image O trabalho é feito de forma manual e dedicada, com atenção aos mínimos detalhes (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Por ser um elemento religioso, o artesão optou por utilizar o cedro, uma madeira considerada bíblica. Ronaldo detalha que, segundo a tradição religiosa, a cruz carregada por Jesus era feita de cedro, considerada a madeira mais pesada do mundo e que se tornou leve. Após a escolha do material, vem o processo de criação dos moldes, que inicia com a caixa e a escolha dos desenhos. Ao todo, são necessários cerca de 45 dias de trabalho com entalhamento, montagem e pintura. “Quando se arma a berlinda, aplicamos o ouro e ela vai para a parte de envelhecimento, para ficar com a pintura original”, diz.

Por meio do projeto “Do Lixo ao Luxo”, Ronaldo ensina pessoas a restaurarem móveis antigos. Durante a produção da berlinda, alguns alunos participam dos processos e são ensinados a fazer cortes, desenhos e detalhes inspirados em fotos e demais artigos.

Em 2025, Ronaldo viajou para retocar a pintura da primeira berlinda e encontrou-se com o padre Luzimar Moura. Enquanto conversavam, o artesão sugeriu que, para este ano, palavras indígenas fossem colocadas na peça. “Nós fomos à aldeia falar com o cacique, para autorizar. Aí ele autorizou, pegou as palavras e mandou para a gente colocar”, explica.

BERLINDA - CÍRIO DE MONTES ALTOS, MARANHÃO

A berlinda de 2026 já está na fase final de produção. Nessa quinta-feira (20), Ronaldo finalizou a colocação das fitas de LED, alimentadas por uma bateria de carro. Posteriormente, o artesão deve incluir os vidros laterais e a porta para entrada e saída da Imagem Peregrina.

Círio de Montes Altos

Em Montes Altos, no Maranhão, o Círio é realizado sempre no segundo domingo de setembro. Este ano, a programação religiosa inicia no dia 5 com a missa de apresentação do manto e segue no dia 12, com a procissão luminosa do traslado, encerrando no dia 13, com a procissão do Círio e Santa Missa.

Natural de Bragança, o paraense João Maurício Martins vive em Imperatriz há 46 anos e é o embaixador do festejo no Maranhão. Ele lembra que, há seis anos, o padre Luzimar solicitou um projeto de evangelização e, por ser do Pará, João Maurício apresentou o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

“Em 24 de julho de 2021, em plena pandemia do covid, a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré veio visitar Montes Altos. Uma comitiva de um casal diretor e dois Guardas de Nazaré estiveram conosco. Nessa visita, foi instituído o Círio, que aconteceu no segundo domingo de setembro de 2021”, conta.

Neste ano, o Círio de Montes Altos está na sexta edição. Assim como na festividade na capital paraense, os devotos utilizam a mesma corda produzida para Belém e adornam a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré com o manto – que, em 2026, é criado por mulheres de Montes Altos.

João Maurício detalha que a presença de povos originários no festejo é, acima de tudo, para manter a cultura indígena viva e evidenciar a mensagem de inclusão do evangelho. “Trazer os indígenas para o nosso Círio embeleza e dá autenticidade”, aponta.

A realização da festividade em Montes Altos é uma forma de proporcionar aos devotos de Nossa Senhora de Nazaré a chance de pagar as promessas, de acordo com o embaixador. “Muitos que não têm condições de ir a Belém pagam as duas promessas aqui em Montes Altos, no nosso Círio. Esse é o maior legado que nós podemos implementar na igreja aqui”, ressalta.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de João Thiago Dias, coordenador do Núcleo de Atualidades

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Belém
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

ÚLTIMAS EM BELÉM

MAIS LIDAS EM BELÉM