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Volta às aulas: iniciativa estimula a leitura e promove a literatura infantil no bairro da Marambaia

A Biblioteca Comunitária Itinerante Bombomler transforma praças, escolas e ruas em territórios de leitura, por meio de projetos como o “Toda a vez que eu leio um livro, o mundo sai do lugar”

Fernando Assunção (Especial para O Liberal)

No carrinho que antes vendia bombons, hoje cabem histórias capazes de “mudar o mundo de lugar”. Desde 2017, a Biblioteca Comunitária Itinerante Bombomler transforma praças, escolas e ruas do bairro da Marambaia em territórios de leitura, por meio de projetos como o “Toda a vez que eu leio um livro, o mundo sai do lugar”, especialmente neste período de início do ano letivo, quando o desafio é estimular o interesse das crianças pelos livros.

Criada pelas professoras Rita Melém e Cris Rodrigues, a iniciativa nasceu do sonho de duas educadoras comprometidas com a formação leitora. O antigo carrinho de bombom foi grafitado, abastecido com livros e, hoje, conta com um ponto de apoio na Avenida Maracanã, no Conjunto Médici, além de integrar a Rede de Bibliotecas Amazônia Literária e a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias. Desde 2023, é reconhecida como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, dentro do programa Cultura Viva.

O objetivo do projeto é democratizar o acesso ao livro e contribuir para a formação de leitores. Mas não se trata apenas de ensinar a decodificar palavras. “Nós trabalhamos na perspectiva da alfabetização com letramento literário. Esse encontro com a leitura não pode ser só instrumental”, explica Rita. 

Inspirada nas reflexões de Paulo Freire, ela defende que a literatura promove a leitura da palavra e a leitura de mundo, desenvolvendo imaginação, valores e senso crítico. Para isso, o início do ano letivo é considerado estratégico. 

Novas turmas se formam, professores reorganizam planejamentos e as crianças chegam cheias de expectativas. É nesse momento que a Bombomler intensifica as ações de sensibilização. As atividades incluem formação de mediadores de leitura, encontros com professores, curadoria de obras, além das dinâmicas diretas com os estudantes.

As ações vão além da circulação de livros. Há contação de histórias, música, teatro, dança, educação ambiental, cineclubes e encontros com autores. O carro-chefe é a literatura infantil, além de títulos que valorizam a cultura negra, afro-brasileira, indígena e a produção literária paraense.

Um dos diferenciais é o contato direto com escritores, que Rita chama de “livro vivo”. “O autor sai de dentro do livro e se materializa na frente das crianças. Porque as crianças têm tendência a achar que os escritores e as escritoras estão todos mortos. Então, eles têm a oportunidade desse encontro, do livro vivo dos autores, presentes na sua frente nesse grande diálogo literário”, destaca.

Parceria que fortalece a alfabetização

Na Escola Estadual de Ensino Infantil Leonor Nogueira, parceira do projeto desde 2019, a leitura já faz parte da rotina. A diretora Thelma Maciel conta que o trabalho começa desde o primeiro ano, com a chamada “leitura deleite”. “A gente aprende a ler lendo”, resume.

Segundo ela, a presença da Bombomler com seu carrinho da leitura amplia o que a escola já desenvolve. “Coloca as crianças no universo da leitura, traz poemas, narrativas e autores paraenses. As aulas ficam mais envolventes e alegres. Os estudantes levam livros para casa e compartilham a experiência com a família, um movimento que fortalece o vínculo entre escola e comunidade”, diz.

A vice-diretora Maria Lopes destaca que, no ciclo de alfabetização, é fundamental que o domínio da leitura e da escrita esteja ancorado na ludicidade. “Nossos projetos são pensados estrategicamente para fazer acontecer a alfabetização, mas em contextos diversos, com temáticas variadas. Isso faz todo o diferencial”.

O impacto pode ser visto nos próprios alunos. João Pedro, de oito anos, estudante do quarto ano, já tem suas preferências definidas: livros de futebol e poemas. Conta que aprendeu a ler aos cinco anos e revelou seu livro preferido, que tem ligação com seu time do coração. “Meu livro preferido é ‘Como o futebol explica o mundo’. Ele fala sobre um jogador antigo que explica como o futebol era diferente e que mudou muito. Para mim, o futebol hoje está muito bom, gosto do Remo”.

Para Rita, esse é o ponto central do projeto, permitir que cada criança encontre o livro e estilo de acordo com seu interesse. “Acreditamos que esse encontro com a literatura precisa ser um deslumbramento, um encantamento. A partir da leitura da palavra, a gente trabalha a leitura de mundo, desenvolvendo a imaginação”. 

Leitura como direito

A Bombomler atua prioritariamente na Marambaia, com itinerâncias pelas praças, parcerias com escolas públicas e ações na comunidade. Conta com uma equipe de voluntários, composta por professoras, educadores sociais, contadores de histórias e escritores, e está aberta a novos colaboradores.

A biblioteca comunitária defende a literatura como direito humano e universal. “Essa leitura literária faz toda a diferença na formação humana da pessoa, porque desenvolve valores e imaginação. A literatura contribui com a formação humana e extrapola apenas os objetivos pedagógicos, ela trabalha com objetivos de formação humana”, finaliza Rita.