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Relatório aponta colapso no PSM Mário Pinotti com falta de neurocirurgião e mortes de pacientes

Fiscalização do CRM-PA, feita com a Defensoria Pública, revela falhas graves na estrutura, ausência de especialistas e irregularidades administrativas no principal pronto-socorro de Belém

O Liberal

Uma fiscalização realizada pelo Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA) no Hospital de Pronto Socorro Municipal Mário Pinotti (PSM), em Belém, revelou um cenário crítico na unidade, com falhas estruturais, ausência de profissionais essenciais e relatos de pacientes que morreram sem atendimento especializado. O relatório foi produzido após vistoria presencial no dia 17 de abril de 2026, em ação conjunta com a Defensoria Pública do Estado (DPE-PA).

Entre os problemas mais graves está a ausência de neurocirurgião de plantão desde 13 de março de 2026, o que compromete diretamente o atendimento de casos de alta complexidade, como traumatismo cranioencefálico e AVC hemorrágico. De acordo com o documento, pacientes nessas condições deixam de receber avaliação especializada e, em alguns casos, evoluem para óbito enquanto aguardam atendimento ou transferência.

O relatório aponta que, mesmo quando há necessidade de atendimento especializado, os pacientes dependem da regulação para serem encaminhados a outras unidades, como o Hospital Ordem Terceira e a Beneficente Portuguesa. No entanto, a transferência nem sempre ocorre em tempo hábil, agravando o quadro clínico dos pacientes. Em situações críticas, médicos relatam dificuldade para garantir vagas em UTI, o que impede o atendimento adequado.

A vistoria também identificou superlotação e permanência prolongada de pacientes em áreas inadequadas, como as salas vermelha e amarela. Há casos de pacientes que permanecem dias ou semanas internados nesses espaços sem avaliação de especialistas, inclusive pacientes entubados. Na pediatria, o cenário inclui falta de leitos adequados, ausência de equipamentos e demora na transferência para unidades de referência.

Além das falhas assistenciais, o hospital apresenta condições estruturais precárias. Foram encontrados equipamentos enferrujados, macas inadequadas, colchões incompatíveis, infiltrações e falta de materiais básicos. Há também relatos de ausência de medicamentos e insumos, obrigando equipes a improvisar ou até adquirir materiais por conta própria.

No setor de ortopedia, o material cirúrgico foi considerado praticamente inutilizável, e equipamentos como raio-x portátil estão inoperantes há meses. Já na sala vermelha, exames de imagem deixaram de ser realizados temporariamente por falta de pagamento do sistema responsável.

O documento ainda destaca irregularidades administrativas e legais, como a ausência de diretor técnico formalizado junto ao CRM, falta de comissões obrigatórias, incluindo comissão de ética médica e revisão de óbitos, e situação cadastral irregular da unidade. Também foi constatado que a responsabilidade técnica não é exercida de forma presencial, em desacordo com normas do Conselho Federal de Medicina.

Outro ponto ressaltado é que os problemas não são recentes. Segundo o relatório, não houve melhorias em relação às fiscalizações realizadas em 2025, indicando a persistência de falhas estruturais e de gestão no hospital.

Diante do cenário, o CRM-PA recomenda medidas urgentes, como a contratação imediata de neurocirurgião em regime de plantão, reforma da estrutura física, aquisição de equipamentos e regularização da unidade junto ao conselho profissional. O hospital realiza, em média, entre 100 e 150 solicitações diárias de avaliação em neurocirurgia, o que evidencia a alta demanda reprimida.

As imagens anexadas ao relatório reforçam a gravidade da situação, mostrando corredores lotados, pacientes em macas improvisadas e equipamentos deteriorados, evidenciando riscos à segurança e à dignidade dos usuários do sistema público de saúde.