Promessa de Igor Normando em 2024, macrodrenagem do ‘Mata Fome’ não saiu do papel
Moradores da Pratinha interditaram a Arthur Bernardes após novos alagamentos; prefeitura anunciou início da primeira etapa após pressão popular
O anúncio feito em 2024 pelo então prefeito eleito de Belém, Igor Normando, de que 2025 seria um “marco” para a cidade, com a garantia de recursos para obras estruturantes como a macrodrenagem da avenida Bernardo Sayão e do canal do Mata Fome, parece ainda não ter saído do papel. Nesta semana, após protestos das comunidades afetadas pelas fortes chuvas, a Prefeitura anunciou, na segunda-feira (20), o início da primeira etapa do canal do Mata Fome, o mesmo anúncio que já havia sido feito anteriormente. Da promessa feita por Igor Normando em 2024 até o novo anúncio sobre o mesmo projeto ocorrido neste mês já são 17 meses sem obras iniciadas.
Ao longo dos primeiros meses de gestão, a capital paraense continuou enfrentando problemas históricos de alagamentos, agravados pelo período chuvoso intenso, sem que a obra anunciada tivesse iniciado. Na prática, o cenário observado pela população é de repetição dos transtornos. A cada chuva, bairros inteiros ficam debaixo d’água, como ocorreu no último fim de semana, quando Belém registrou mais de 150 milímetros de chuva em menos de 24 horas. Entre as áreas mais afetadas está justamente a bacia do canal do Mata Fome, apontada como uma das prioridades no anúncio feito ainda em 2024.
A dona de casa Maria Rodrigues dos Santos, de 47 anos, relata a indignação dos moradores da Pratinha com a falta de avanço nas obras do canal do Mata Fome, consideradas essenciais para conter os alagamentos na região. Ela mora no bairro desde 2010. “Esse projeto (do canal do Mata Fome) nunca saiu do papel. Chega de sofrer. Entra político e sai político, falam que esse projeto está pronto, mas nunca foi pronto”, afirmou.
O próprio prefeito informou que aproximadamente 44 mil pessoas tiveram prejuízos com os alagamentos ocorridos na capital no último fim de semana. O número foi divulgado por ele em coletiva de imprensa na tarde de segunda-feira (20), na Aldeia Cabana Amazônica David Miguel, no bairro da Pedreira.
E a insatisfação dos moradores levou a protestos consecutivos. No bairro da Pratinha 2, residentes interditaram a rodovia Arthur Bernardes em dois momentos, na noite de domingo (19) e na manhã de segunda-feira (20), denunciando os alagamentos constantes e cobrando o início das obras prometidas. Eles relataram prejuízos materiais, casas invadidas pela água, perda de eletrodomésticos e dificuldades de locomoção, além do agravamento de problemas estruturais antigos, como pontes danificadas e canais assoreados.
Promessa feita em 2024
Em novembro de 2024, Igor Normando, ainda deputado estadual e prefeito eleito de Belém, postou um vídeo em suas redes sociais anunciando que 2025 seria um marco para Belém. Ele anunciou recursos para importantes obras, entre as quais macrodrenagem da avenida Bernardo Sayão e macrodrenagem do canal do Mata Fome. Em seguida, afirmou que, em Brasília, garantiu recursos para essas obras.
“Pessoal, está destravado. Hoje eu tive uma reunião muito importante com o presidente da República, o ministro das Cidades, Jader Filho, o governador Helder Barbalho, e nessa reunião a gente garantiu os recursos necessários para acabar e iniciar algumas obras muito importantes para toda a nossa cidade”, anunciou Normando, na época, ao citar algumas prioridades, como: o esgotamento do Ver-o-Peso, macrodrenagem da avenida Bernardo Sayão, macrodrenagem do canal do Mata Fome, loteamento Canarinho, canal Ariri Bolonha.
“Tudo isso vai beneficiar muito a nossa população. Vai ser um legado grande para toda a nossa cidade”, concluiu.
“SOS Pratinha”
A moto uber Eliane Cristina Araújo Lima, 37, mora há 10 anos na rua Imperador, ao lado do canal do Mata Fome. Na última segunda (20), ela mostrou que a água invadiu sua casa, obrigando-a levantar os móveis. “Perdi a minha geladeira e a minha máquina de lavar”, disse.
A empregada doméstica Ana Cláudia Ferreira da Silva, 37 anos, também levantou a geladeira para não perder o eletrodoméstico. “Encheu tudo. A gente mora aqui na beira do igarapé e precisa de ajuda da prefeitura”, disse ela, que mora na área há 28 anos. “Eles precisam solucionar esse problema, que é o ‘Mata Fome’. Isso é assim todos os anos e só vai se agravando. A chuva de domingo foi demais e as casas ficaram debaixo de água”, afirmou. Ela também precisou proteger seu dois gatinhos, Branco e Tom.
A dona de casa Gisele Amaral, 47 anos, Ela mora na passagem Liberdade, cuja via principal é a rua Imperador. “Graças a Deus, a gente não perdeu bens materiais. Mas inundou a casa, que está toda suja de lama. Não escapou nada”, disse. “Até uma cobra foi tirada aqui de dentro de casa. A água foi tão grande e tão forte que, pela primeira vez, encheu a minha casa”, contou ela, que reside com o marido e as duas filhas. Morando há 25 anos naquele endereço, Gisele afirmou que o “único jeito” de resolver essa situação é o poder público “ajeitar o canal do Mata Fome”.
Em outro trecho do bairro, na travessa Piedade com a rua Nova, caiu uma ponte, cuja estrutura já estava danificada. “Essa ponte estava quebrada há mais de dois anos. Só tinha dois paus por onde o pessoal passava”, contou Iranilde Tavares, 43 anos. “A chuva de domingo levou tudo. Agora as duas pontes estão quebradas. Não tem como a gente passar”, disse. A ponte dava acesso à rodovia Arthur Bernardes, à feira do Tapanã e aos conjuntos Cordeiro de Farias e Parque União.
Sem avanços concretos
Moradores também afirmaram que o projeto de macrodrenagem do canal do Mata Fome é prometido há anos, sem avanços concretos, enquanto os impactos das chuvas se intensificam a cada inverno amazônico. Foi somente após a repercussão dos protestos que a Prefeitura anunciou, na segunda-feira (20), o início da primeira etapa das obras de macrodrenagem do canal do Mata Fome, além da pavimentação de 40 vias no bairro do Tapanã. A gestão municipal também informou que a segunda etapa, que inclui dragagem e urbanização do canal, deve começar até o final do ano.
O anúncio ocorreu em meio a um cenário crítico: cerca de 44 mil pessoas foram afetadas pelos alagamentos recentes na capital. Embora a prefeitura tenha iniciado ações emergenciais, como desobstrução do canal, distribuição de cestas básicas e atendimento social, moradores seguem cobrando soluções estruturais definitivas. Assim, o que foi apresentado como prioridade ainda em 2024 só começou a avançar após pressão direta da população atingida, evidenciando a demora na execução de uma obra considerada essencial para minimizar os impactos das chuvas em Belém. Mas a população teme que, como das vezes anteriores, as obras só fiquem na promessa e, portanto, no papel.
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