Pesquisas da UFPA apostam em plantas da Amazônia para desenvolver medicamentos acessíveis ao SUS
Estudos do INCT Probiam utilizam frutos amazônicos, como uxi e barbatimão, no desenvolvimento de compostos que são potenciais para tratar infecções, lesões e outras doenças
Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Pará (UFPA) apontam para a criação de medicamentos e produtos com baixo custo e potencial de acesso pela rede pública de saúde, caso sejam aprovados e regulamentados pelos órgãos de vigilância sanitária. Os estudos são conduzidos pelos laboratórios INCT Probiam – Pharmaceuticals Amazônia, sob a coordenação da professora Marta Chagas, e utilizam como base frutos e vegetais da Amazônia, como uxi e barbatimão, por exemplo, na formulação de compostos com aplicações em diferentes tratamentos, como lesões de pacientes diabéticos, infecções e outras doenças.
Com o barbatimão como objeto de estudo, o farmacêutico Sávio Monteiro, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (PNBC) da UFPA, desenvolve há cerca de dois anos uma pesquisa voltada à análise de diferentes atividades farmacológicas a partir da espécie. Segundo ele, os estudos avaliam potenciais antioxidante, antimicrobiano, anti-inflamatório e imunomodulador de seus extratos. Com resultados preliminares já obtidos em estudos anteriores, o material segue como foco de continuidade nas pesquisas desenvolvidas pelo farmacêutico.
O material, segundo Sávio, apresenta alto potencial farmacológico, o que motivou o avanço das investigações em diferentes etapas, com o objetivo de, futuramente, viabilizar produtos com aplicações como cicatrizante ou antimicrobiano, entre outras linhas de pesquisa. “O meu projeto é mais voltado para lesões de pressão, que são lesões em pacientes, geralmente que estão acamados, pacientes hospitalizados ou mesmo que estão sem mobilidade em casa, e aí acabam gerando lesões de pele. E que geralmente são muito difíceis de ser tratadas. São lesões bem complicadas e com um custo alto”, comenta.
“A ideia dessa pesquisa é justamente desenvolver um produto que a gente pudesse aplicar nessa problemática, para ter melhores resultados em relação ao que já se tem hoje em dia no mercado, que, além de limitado, tem custo elevado. A pesquisa está nessa fase inicial de testar essas atividades da planta e já se encontra na fase de modelo animal. A gente vai iniciar agora esse modelo, ou seja, aplicar nos animais um modelo de lesões. E que é um modelo de feridas, para testar esse potencial da planta, comparando com o que já tem no mercado e com outros controles”, acrescenta o doutorando.
Abordagem promissora
Para Sávio, trabalhar com produtos naturais é uma abordagem promissora, especialmente pela ampla oferta de recursos disponíveis na Amazônia, pela rica biodiversidade da região. Segundo o pesquisador, o bioma reúne uma ampla disponibilidade de plantas e vegetais já utilizados na medicina tradicional, especialmente por povos indígenas, saberes que foram incorporados ao cotidiano da população. Em meio a isso, a proposta das pesquisas é ampliar esse conhecimento, não apenas para uso regional, mas também com potencial de aplicação mais ampla à população.
“Trabalhar com plantas, em detrimento dos medicamentos industrializados, acaba sendo uma alternativa que a gente espera que tenha menor custo e apresente melhores atividades, com efeitos colaterais reduzidos. Então, a gente sabe que os medicamentos alopáticos, que a gente chama, que são os industrializados, têm uma série de efeitos adversos e uma série de questões por trás de como são produzidos. Ou seja, há também a questão da sustentabilidade, que a gente tem visado bastante, que é justamente utilizar resíduos de produtos que a gente já tem na Amazônia”, observa Sávio.
Uxi também é projeto de pesquisa
O uxi, fruto da Amazônia, também é alvo de investigação nas pesquisas desenvolvidas no laboratório e é o foco da pesquisa da mestranda Giovanna Quintero, do Laboratório de Ensaios in vitro, Imunologia e Microbiologia (Labeim), que pertence ao INCT. Tanto a polpa quanto a casca vêm sendo analisadas, e resultados preliminares apontam um bom potencial de proliferação celular. Com base nesses dados, o insumo passou a ser aplicado em modelos de cicatrização de lesões por pressão, que, segundo ela, são feridas causadas por longos períodos de isquemia e reperfusão e comuns em pacientes que permanecem acamados por muito tempo.
“Uma das principais problemáticas da lesão por pressão é que os pacientes não conseguem aderir ao tratamento, pois estes tratamentos são muito custosos, tanto para o paciente quanto para o serviço de saúde. Por isso, a nossa proposta é desenvolver, com os nossos próprios recursos, uma alternativa que traga adesão para esse paciente com um custo menor. Boa parte dos nossos óleos e frutas da Amazônia, na realidade, possui uma etnofarmacologia, que já é uma história ancestral de todos os óleos, de todas as frutas que já foram utilizadas. Então, a gente pega toda essa história e começa a investigar”, pontua.
Com propriedades antioxidantes, antimicrobianas e cicatrizantes, o barbatimão também é foco da pesquisa de doutorado desenvolvida pela farmacêutica Thaiana Pamplona, do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (PNBC), da UFPA. Sobre as etapas da pesquisa dela, o insumo de origem vegetal já passou por ensaios biológicos, com resultados positivos, e atualmente está na fase de experimentação animal. A pesquisadora destaca que o estudo busca contribuir para o tratamento de feridas que podem evoluir com infecções e cronificação, gerando impactos e custos para a saúde pública.
“Atualmente a gente trabalha com hidrogel e halogel. E também já estamos em fase de continuidade para passar para comprimidos e tratar doenças negligenciadas, como é o caso da tuberculose, leishmaniose, doença de Chagas. A gente vai fazer essa investigação também. Dentro do INCT, nós temos vários laboratórios, vários parceiros e universidades que estão vinculadas ao instituto. Então, essa matéria-prima passa pelo controle de qualidade microbiológico, para verificar se não há contaminação”, explica a doutoranda.
Thaiana afirma que, se for possível conseguir resultados que comprovem a eficácia e a segurança, já é viável começar a planejar testes em humanos. “Em seguida, ela segue para os demais fluxos, para os outros setores, por exemplo, para a gente verificar a atividade antioxidante, se existe algum tipo de modulação e se há potencial antimicrobiano”. E todas as pesquisas são realizadas de forma integrada com os laboratórios do INCT, como lembra a pesquisadora.
Futuro
Para o futuro, caso haja bons resultados nessas etapas - tanto na pesquisa dela quanto nas outras -, o produto será encaminhado para a fase de regulamentação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e poderá, então, ser disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS), como uma alternativa de tratamento. Ela lembra que essa solução torna a rede pública independente de medicamentos importados, mas com soluções locais. “Com isso, a Universidade Federal do Pará se torna protagonista nesse cenário, já que não se limita ao acesso à matéria-prima ou ao extrato, mas desenvolve uma solução completa, um produto final, por exemplo, para o tratamento de feridas. Isso agrega valor, inclusive, para as comunidades locais”, diz Thaiana.
E, no caso de Giovanna, o uxi está sendo investigado desde antes do mestrado dela, há cerca de três anos de pesquisa desde o início do INCT. A mestranda observa que, após a consolidação dos estudos de segurança, com a testagem in vitro e em animais, é possível avançar para as etapas clínicas, que envolvem seres humanos, e que isso pode até mesmo ser estendido ao serviço público. “Se um medicamento não está na lista do SUS, ele não é distribuído para a população. Os nossos princípios ativos, contudo, são riquíssimos, já ajudando toda a nossa população, e podem continuar contribuindo com o restante, espalhando a nossa diversidade e o nosso potencial”, relata a pesquisadora.
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