Pedestres de Belém reforçam que gentileza no trânsito é necessária para salvar vidas
Em meio ao fluxo intenso de veículos, atitudes simples de cuidado podem fazer a diferença na segurança no trânsito, mas belenenses dizem que são momentos raros
Atitudes simples de gentileza no trânsito, como reduzir a velocidade ao se aproximar da faixa de pedestres, respeitar o tempo de travessia, evitar buzinas desnecessárias e até ajudar idosos ou pessoas com dificuldade de locomoção, podem salvar vidas. Na prática, porém, essas ações ainda são exceção em meio à pressa e à imprudência do dia a dia.
Em Belém, especialmente em vias de grande circulação, a falta de empatia e o desrespeito às regras de trânsito colocam pedestres em risco constante, transformando a travessia de uma rua em um desafio diário.
O assunto ganhou repercussão nacional após um vídeo viralizar nas redes sociais há algumas semanas. As imagens mostram um motociclista ajudando um idoso a atravessar a rua na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, no Rio de Janeiro. O conteúdo já ultrapassou 110 mil visualizações e chamou atenção pela simplicidade do gesto: respeitar o tempo do outro no trânsito.
Travessia de pedestres vira disputa nas ruas da capital
Parar o carro por alguns segundos ou reduzir a velocidade para garantir a passagem segura parecem atitudes básicas, mas ainda pouco comuns. Em Belém, atravessar a rua costuma ser um exercício diário de atenção, paciência e, muitas vezes, medo.
Nas faixas de pedestres, o que deveria ser um direito garantido pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) acaba se transformando em disputa. De acordo com a legislação, a travessia é um dever compartilhado entre pedestres e condutores, mas a prioridade é sempre de quem está a pé. Motoristas devem reduzir a velocidade e garantir a passagem segura, com ou sem semáforo, conforme orienta a Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade (Segbel).
Na prática, essa regra nem sempre é respeitada. Em vias movimentadas da capital, como a Avenida Padre Eutíquio, nas proximidades de um shopping center, o fluxo intenso de carros, motocicletas de aplicativos, taxistas e ambulantes torna a travessia um momento de tensão constante. O desrespeito à faixa de pedestres é uma realidade observada ao longo do dia.
Falta de respeito atinge pedestres e motoristas
Para o professor José Evanildo Araújo da Silva, de Oeiras (PA), a educação no trânsito precisa partir de todos. “A vida é única. A gente precisa atravessar na faixa com cuidado e responsabilidade, mesmo sabendo que o trânsito de Belém é um caos. Falta respeito por parte dos condutores, mas também dos próprios pedestres”, avalia. Segundo ele, o pedestre é sempre a parte mais vulnerável dessa relação.
Essa vulnerabilidade é sentida por quem atravessa a cidade a pé diariamente. Na Avenida Augusto Montenegro, a autônoma e cabeleireira Luci Lêdo relata que a travessia exige atenção redobrada. “Não tem respeito. Onde é faixa de pedestre passa moto, ciclista, carro. Ninguém para”, afirma. Para ela, a pressa se sobrepõe ao cuidado. “Falta educação. Todo mundo quer chegar rápido e esquece que ali tem alguém atravessando.”
Do outro lado, quem passa horas ao volante também percebe um trânsito cada vez mais tenso. Taxista há 25 anos, Fred Mesquita, que trabalha na Avenida Duque de Caxias, afirma que o aumento do fluxo de veículos e da concorrência contribuiu para a perda da gentileza. “O trânsito está pesado, com aplicativo, mototáxi, carro demais. Isso aumenta a irritação”, observa.
Pressa e imprudência aumentam riscos
O aposentado Alberto Alexandre dos Santos, de 83 anos, morador do bairro Batista Campos, afirma que a pressa é comum tanto entre pedestres quanto motoristas. “As pessoas não ligam para a faixa. Às vezes o sinal está fechado, não tem temporizador, atravessam mesmo assim. Passa moto que não respeita. Todo mundo prefere arriscar a vida a esperar com segurança”, relata. Por isso, diz que só atravessa quando tem certeza de que os veículos pararam.
O estudante universitário Thiago Figueiredo conta que adotou seus próprios mecanismos de proteção. “Eu espero de cinco a dez segundos depois que o sinal fecha para os carros. É um hábito. O motorista paraense é, infelizmente, muito imprudente”, afirma.
Especialista explica por que o trânsito gera estresse
Para o psicólogo Luiz Derick Monteiro Neto, o trânsito é um ambiente que favorece o estresse e a irritabilidade. Ruídos, velocidade, pressão do tempo e decisões constantes ativam o sistema de alerta do cérebro, reduzindo a empatia. “Vivemos sob a lógica da urgência, de querer tudo para ontem, e isso se reflete diretamente no comportamento no trânsito”, explica.
Segundo o especialista em neuropsicologia, atitudes simples de cuidado têm impacto coletivo. “Existe o contágio emocional. Um gesto de gentileza pode reduzir a hostilidade, fazer com que outros diminuam a velocidade e respeitem mais as regras. O respeito gera respeito”, conclui.