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Nascente do Rio Tucunduba resiste ao avanço urbano e é preservada dentro de residência em Belém

Há quase cinco décadas, uma família optou por manter o local de grande importância para o meio ambiente.

Maiza Santos

Pouca gente imagina que uma das principais bacias hidrográficas de Belém tem sua origem preservada dentro de uma residência localizada no bairro do Marco, na área urbana da capital paraense. Cercada por ruas movimentadas, prédios e o crescimento da cidade, a nascente do Rio Tucunduba segue viva há quase cinco décadas graças à decisão tomada por uma família que optou por manter o local de grande importância para o meio ambiente.

A história começou em 1978, quando o professor e agrimensor Paraguassú Éleres adquiriu os quatro terrenos que dariam origem à residência da família. Antes de iniciar qualquer obra, ele percebeu que uma parte da área permanecia constantemente alagada. Em vez de aterrar o local, decidiu investigar a origem daquela água. Segundo a professora Gisele Éleres, filha de Paraguassú, a descoberta mudou completamente o projeto da casa.

“Meu pai já tinha uma planta hídrica de Belém e resolveu pesquisar antes de fazer qualquer intervenção. Quando consultou os mapas e os estudos da região, descobriu que aquela água era justamente a nascente do Rio Tucunduba. A partir daí veio ainda mais a vontade de preservar”, relata.

Preservação

A decisão exigiu mudanças significativas na construção. O imóvel foi reposicionado para manter intacta a área onde a água brota naturalmente.

“O projeto inicial da casa precisou ser alterado. Meu pai afastou a construção cerca de 20 metros da área da nascente. Era para termos um quintal muito maior, mas ele preferiu preservar a água. Hoje temos cerca de 110 metros quadrados de lago e aproximadamente 80 metros cúbicos de água corrente dentro da propriedade”, explica Gisele Éleres.

A preservação ocorreu muito antes de conceitos como sustentabilidade e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ganharem destaque internacional.

“Isso aconteceu em 1978. Muito antes de se falar nas ODS ou em políticas globais de preservação ambiental da ONU. Meu pai já tinha uma consciência ecológica muito forte e entendia a importância de conservar aquele espaço”, afirma Gisele Éleres.

Vida

Ao longo dos anos, o lago se transformou em parte da rotina da família. O espaço abriga peixes, quelônios devidamente registrados junto aos órgãos ambientais e recebe visitas frequentes de aves, incluindo garças que já se tornaram personagens conhecidas pelos moradores da casa.

“Quando éramos crianças, brincávamos no lago sem compreender a dimensão daquilo. Depois fomos entendendo que aquela água fazia parte de algo muito maior. Hoje temos plena consciência da importância ambiental dessa nascente e de tudo o que ela representa para a cidade”, diz Gisele.

Ela lembra que a convivência diária com a nascente ajudou a formar uma cultura de preservação dentro da família.

“Meu pai sempre nos ensinou que meio ambiente não é apenas a floresta distante. Meio ambiente é tudo aquilo que está ao nosso redor. Ele mostrava que uma simples embalagem jogada no chão poderia entupir bueiros e contribuir para alagamentos. Essa consciência esteve presente em todas as nossas escolhas”, relata.

Conscientização

Mesmo diante da valorização imobiliária da região, a família afirma que nunca cogitou abrir mão da preservação da nascente. Segundo Gisele, ao longo dos anos surgiram propostas para aquisição do terreno com o objetivo de construir empreendimentos no local.

“Já recebemos propostas para aterrar o lago e construir prédios aqui. Mas meu pai sempre teve uma posição muito firme. Ele entendia que aquele espaço tinha uma importância muito maior do que qualquer interesse econômico”, revela.

Além de preservar a nascente, Paraguassú também fez questão de permitir que a população continuasse observando o espaço.

“Uma das coisas que mais surpreende as pessoas é que a casa não tem muros altos. Meu pai acreditava que o lago não deveria ficar escondido. Ele dizia que, mesmo sendo uma propriedade particular, as pessoas precisavam continuar vendo aquele ambiente preservado”, relembra a professora.

A singularidade da área desperta interesse de pesquisadores, estudantes e grupos voltados à educação ambiental. Todos os anos, o local recebe visitas de escolas, universitários, mestrandos e doutorandos que buscam conhecer de perto a nascente do Tucunduba.

“Recentemente recebemos pesquisadores de várias partes do Brasil. Muitos ficam impressionados ao encontrar uma nascente preservada no meio da cidade. É algo raro e que mostra que a convivência entre urbanização e preservação é possível”, explica.

Símbolo de resistência ambiental

Com cerca de 10 quilômetros quadrados de extensão, a bacia do Rio Tucunduba é considerada a segunda maior bacia de drenagem urbana de Belém. O rio atravessa bairros populosos como Marco, Canudos, Terra Firme e Guamá, exercendo influência direta na dinâmica ambiental, social e urbana dessas regiões.

Para a pesquisadora do Observatório da Costa Amazônica e mestranda em Oceanografia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Ramili Costa, a preservação da nascente dentro de uma residência em plena área urbana representa um exemplo raro de resistência ambiental diante do avanço da urbanização.

“A nascente do Rio Tucunduba é muito importante por ser o ponto de origem de um dos maiores rios urbanos de Belém. Ela contribui para a manutenção da rede hídrica da cidade e sua preservação é fundamental por múltiplos fatores socioambientais. O Tucunduba é um elemento vivo que faz parte do cotidiano da população, representando história, cultura, economia, lazer, ciência, educação e também a manutenção da biodiversidade associada ao rio”, destaca.

Segundo a pesquisadora, a conservação da nascente demonstra que a relação entre cidade e natureza é muito mais próxima do que muitas pessoas imaginam.

"A preservação da nascente do Tucunduba nos ensina que a cidade e a natureza não são elementos separados. A qualidade de vida da população depende diretamente da conservação dos ecossistemas que sustentam o ambiente urbano. Quando protegemos uma nascente, estamos protegendo a água, a biodiversidade, a memória ambiental da cidade, os serviços ecossistêmicos, a cultura, o lazer, a pesquisa científica e a educação. Tudo isso ajuda a reduzir impactos como enchentes e a degradação ambiental", afirma.

Ramili ressalta ainda que a existência da nascente preservada em meio ao ambiente urbano ajuda a quebrar conceitos equivocados sobre os rios da cidade.

"Quando falamos em nascente, muitas pessoas imaginam um lugar distante, cercado por floresta e sem interferência humana. A nascente do Tucunduba quebra esse imaginário porque está localizada em uma área completamente urbanizada. Ela mostra que os rios continuam presentes na cidade e precisam ser reconhecidos como parte fundamental da vida urbana", explica.

A pesquisadora alerta que um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas bacias urbanas está relacionado à poluição e à ocupação desordenada.

"Os principais problemas estão ligados ao descarte inadequado de resíduos sólidos, ao lançamento de esgoto nos cursos d’água, à ocupação irregular e à remoção da vegetação das margens dos rios. Esses impactos comprometem a qualidade da água, afetam a biodiversidade, aumentam os alagamentos e trazem riscos à saúde pública", observa.

Ela destaca que, ao longo dos anos, muitos rios urbanos passaram a ser vistos apenas como canais de drenagem.

"Em muitos casos, esses ambientes são compreendidos apenas como canais ou até mesmo como esgotos a céu aberto. Mas eles são ecossistemas vivos, que prestam importantes serviços ambientais para a população. O próprio Rio Tucunduba continua exercendo influência econômica e social em bairros como Terra Firme e Guamá", ressalta.

Outro aspecto apontado por Ramili é o papel da educação ambiental na reconstrução da relação entre a população e os rios urbanos.

"A educação ambiental desempenha um papel fundamental na conexão e no reconhecimento das redes hídricas da cidade. Belém foi construída a partir dos rios, mas o processo de urbanização acabou afastando parte da população dessa compreensão. Precisamos fortalecer novamente esse vínculo", afirma.

Nesse contexto, ela destaca iniciativas de monitoramento participativo desenvolvidas pelo Observatório da Costa Amazônica.

"No monitoramento ambiental participativo, estudantes e moradores são convidados a olhar para o rio como pesquisadores. Eles registram problemas ambientais, observam mudanças e ajudam a construir conhecimento sobre o território onde vivem. Isso fortalece o sentimento de pertencimento e mostra que a conservação dos rios urbanos também depende do envolvimento da sociedade", explica.

Para a pesquisadora, experiências como a preservação da nascente do Tucunduba demonstram que a proteção dos recursos hídricos urbanos depende tanto de políticas públicas quanto do engajamento da população.

"Ela também nos mostra que o planejamento urbano precisa reconhecer e valorizar os rios como parte fundamental e viva da nossa cidade. Preservar esses ambientes é preservar a qualidade de vida, a memória ambiental e o futuro de Belém", conclui.

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