Morte em Ananindeua levanta alerta sobre a doença de Chagas
A prefeitura de Ananindeua, em sua nota, destacou a importância de ações de conscientização e medidas preventivas, como o branqueamento do açaí
A morte de Ronald Maia, de 26 anos, após complicações de saúde, trouxe à tona a realidade da doença de Chagas, uma infecção causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, que continua sendo uma ameaça à saúde pública, especialmente em regiões da Amazônia. O caso ocorreu no município de Ananindeua, na região metropolitana de Belém, e está gerando preocupação devido à possível relação com o consumo de açaí contaminado. Uma mulher que seria do mesmo local de trabalho de Ronald está no aguardo do resultado de exames, pois vem apresentando sintomas semelhantes.
De acordo com o relato do pai da vítima, Ronaldo Souza da Silva, o filho começou a apresentar os primeiros sintomas no início de dezembro, com febre intermitente e dores no corpo. No dia 6 de dezembro, o jovem procurou a UPA do Icuí, onde recebeu antitérmicos como dipirona, mas os sintomas persistiram. Após nova visita à UPA, Ronaldo foi orientado a continuar o tratamento em casa, mas a situação não melhorou.
Com a febre voltando e surgindo novos sintomas, como fortes dores abdominais e dificuldades para defecar, Ronaldo foi encaminhado ao PSM Augusto Montenegro no dia 21 de dezembro. O quadro piorou, com falta de ar e uma tosse seca. Os médicos inicialmente suspeitaram de tuberculose, mas o quadro de pneumonia bacteriana foi diagnosticado logo depois.
Mesmo com o tratamento iniciado, Ronald piorou cada vez mais. No dia 27 de dezembro, foi internado no Hospital de Referência Augusto Montenegro, onde exames revelaram sinais de doença de Chagas, com complicações como águas na pleura (acúmulo de líquido nos pulmões) e um coração dilatado. No entanto, o diagnóstico tardio foi um dos fatores que comprometeram a recuperação do paciente, que faleceu no dia 3 de janeiro.
O pai da vítima, inconformado, desabafou: "Nada vai trazer meu filho de volta. Fiquei sabendo que há outro caso na empresa dele, mas não sei se realmente é verdade. Falaram que a pessoa está no aguardo do resultado do exame”, disse o pai de Ronald.
Após a morte de Ronald, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) de Ananindeua informou que iniciou investigações sobre a possível origem do caso e interditou pontos de venda de açaí na cidade. A Vigilância Sanitária da cidade visitou diversos estabelecimentos e segue monitorando a situação. A prefeitura afirmou estar prestando total assistência aos envolvidos.
A doença de Chagas é tradicionalmente transmitida pelo barbeiro, um inseto que se alimenta de sangue, mas uma das formas mais preocupantes de transmissão, nos dias de hoje, é via oral, com o consumo de alimentos contaminados, como o açaí. Segundo o infectologista Alessandre Guimarães, o problema ocorre quando o inseto cai no processo de preparo do açaí. Durante a moagem dos caroços, o barbeiro pode ser triturado junto com o fruto, contaminando-o com o protozoário. O consumo desse açaí sem os cuidados de higiene necessários pode levar à infecção.
"A transmissão oral do Trypanosoma cruzi por meio do açaí é uma realidade, especialmente em regiões como a Amazônia, onde o barbeiro está presente em maior número. A ingestão do açaí contaminado pode resultar em infecção por doença de Chagas", alerta o médico.
Guimarães explica que, após a infecção, a doença de Chagas se manifesta inicialmente de forma aguda, com sintomas como febre, dor de cabeça, dores no corpo e fadiga. No entanto, esses sinais são muitas vezes leves e podem ser confundidos com outras doenças comuns da região. Isso dificulta o diagnóstico e o tratamento precoce, o que pode levar à progressão da doença para sua fase crônica.
A fase crônica pode se manifestar anos depois da infecção, com complicações graves, como cardiopatia chagásica, megaesôfago (dilatação do esôfago) e megacólon (dilatação do intestino), além de insuficiência cardíaca e até morte.
"É essencial que as pessoas busquem atendimento médico o quanto antes, ao apresentarem sintomas suspeitos, para que o diagnóstico e o tratamento ocorram o mais rápido possível", enfatiza o infectologista.
A prefeitura de Ananindeua, em sua nota, destacou a importância de ações de conscientização e medidas preventivas, como o branqueamento do açaí, processo que elimina o protozoário antes do consumo. A Vigilância Sanitária também está realizando capacitações e orientações sobre os cuidados na manipulação e venda do açaí, a fim de evitar novos casos da doença.
O município de Ananindeua, em 2025, mapeou 522 pontos de venda de açaí, como parte de um projeto de vigilância e capacitação, com o objetivo de garantir a qualidade do produto e minimizar os riscos à saúde.
O que fazer?
Prevenção: O branqueamento do açaí é uma das medidas mais importantes para garantir a eliminação do Trypanosoma cruzi.
Sintomas: Fique atento à febre, dor de cabeça, dores no corpo e fadiga.
Procure atendimento médico: Caso apresente sintomas, busque imediatamente um serviço de saúde.
O combate à doença de Chagas depende de informação, conscientização e da colaboração entre poder público, comerciantes e consumidores.
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