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Malhação de Judas na Cremação denuncia feminicídio, racismo e violência contra os animais em Belém

Tradição de 76 anos mobilizou moradores com críticas sociais contra a falta de água e violência infantil neste sábado (4)

Gabriel da Mota e Gabriel Monteiro

A tradicional Malhação de Judas no bairro da Cremação, em Belém, reuniu centenas de moradores e associações locais na manhã deste sábado (4) com um forte apelo social. A programação foi realizada na rua Fernando Guilhon, entre as avenidas Alcindo Cacela e Quintino Bocaiúva. Em 2026, a manifestação escolheu o combate ao feminicídio como tema central, unindo a cultura popular à denúncia da violência contra as mulheres.

Realizada pela Associação dos Judas da Cremação, a festividade celebra 76 anos de história, tendo sido iniciada em 1950. Além do feminicídio, os bonecos confeccionados pela comunidade representaram o repúdio ao racismo e à violência contra os animais. A pornografia infantil e a irregularidade no abastecimento de água pela concessionária Águas do Pará também foram alvos das críticas, expondo o contraste entre as faturas recebidas e a falta de água nas torneiras.

Como a manifestação cresceu e se tornou tradição no bairro

A expansão do evento ao longo das décadas é acompanhada de perto pelos moradores mais antigos. Para a professora aposentada Odirene Botelho, 71 anos, o cenário atual reflete uma organização muito maior do que no início. "A manifestação era só nesse pedaço, próximo à esquina da Alcindo Cacela. Tudo era elaborado pelo Sargento Quincas, que morou muitos anos aqui no bairro e foi o pioneiro. Com a divulgação, entraram as agremiações e o apoio institucional, tornando-se essa tradição que vemos hoje", relembrou a moradora.

Odirene destaca que os temas também evoluíram de questões vizinhas para problemas estruturais da sociedade.

"Antes as críticas eram mais ‘ocultas’, ou ficavam em fofocas de vizinhos. Depois, vieram as críticas políticas e, agora, focamos no que vivemos hoje, como a crise horrível de falta de água na Cremação. É excelente para alertar a população e incentivar o questionamento sobre os nossos direitos", avaliou a septuagenária.

Moradores destacam importância de temas sociais na malhação

A diversão começa ainda na noite de sexta-feira, com festas que chegam a reunir 20 mil pessoas antes do dia oficial da malhação. O autônomo Sérgio Macedo, 47 anos, frequenta o evento desde a infância e ressalta que o momento une lazer e seriedade. "A gente começa a se reunir com os amigos desde cedo. Os temas dos bonecos são muito bons porque tratam do que é atual. Cada Judas tem uma intenção e uma mensagem para passar", afirmou o morador.

Para Sérgio, a denúncia contra crimes sexuais é o ponto mais relevante da edição deste ano.

"O tema mais sério de todos é a pedofilia. Para mim, quem comete isso contra uma criança deveria pagar com pena de morte. Acho que dá perfeitamente para a gente brincar, ter o pula-pula para as crianças e as outras brincadeiras, mas também falar de coisas sérias que precisam mudar no país", defendeu o autônomo.

Projeto busca manter viva a cultura popular da periferia

Para garantir a continuidade da celebração, a organização planeja novas frentes de atuação com os jovens da área. "Anunciamos um projeto dentro da periferia para tirar nossas crianças da rua. A ideia é que elas aprendam a confeccionar os bonecos e mantenham essa cultura viva no bairro. O Brasil inteiro conhece nossa tradição e precisamos garantir que ela não morra", observou Ana Paula Holles, 50 anos, integrante da organização do evento.