MENU

BUSCA

‘Mães acreditam em milagres’: veja como a fé ajudou mulheres durante gestações de risco em Belém

Neste Dia das Mães, as histórias de Nataly Lopes, Amanda Oliveira Portal e Terezinha Castro revelam como a esperança, a rede de apoio e a fé em Deus ajudaram a enfrentar momentos em que, muitas vezes, a medicina apontava poucas chances

Dilson Pimentel

Entre diagnósticos graves, internações, ameaça de aborto e o medo constante da perda, três mães paraenses transformaram dor em testemunhos de fé e superação. Em comum, elas viveram gestações marcadas por riscos, incertezas e sofrimento emocional, mas encontraram na espiritualidade forças para seguir lutando pela vida dos filhos. Neste Dia das Mães, as histórias de Nataly Lopes, Amanda Oliveira Portal e Terezinha Castro revelam como a esperança, a rede de apoio e a fé em Deus ajudaram a enfrentar momentos em que, muitas vezes, a medicina apontava poucas chances.

Morando em Icoaraci, distrito administrativo de Belém, a jovem Nataly Lopes, de 23 anos, é uma dessas mães que acreditam em milagres. Ela enfrentou uma gestação de alto risco, marcada por dores, internações e pelo medo constante de perder o primeiro filho. Hoje, vive a maternidade ao lado de Ravy Lucas, que, saudável, completará 2 anos em agosto.

Nataly contou que descobriu a gravidez aos 21 anos e, naquele momento, esperava viver um período de tranquilidade. No entanto, a realidade foi diferente. “Muitas coisas me fizeram mal, e foi justamente nesse período que fiquei mais sensível e comecei a ter mais complicações”, disse. Ela passou a frequentar hospitais com frequência, enfrentando dores, febre e enjoos, acreditando, inicialmente, que eram sintomas comuns da gestação.

A situação se agravou no dia 17 de abril de 2024. Após dias sentindo dores na região abdominal, Nataly acordou já sem se sentir bem. À noite, por volta das 20h, a dor se tornou intensa. “Era uma dor muito forte, que eu mal conseguia andar”, lembra. Sozinha em casa, já que o marido trabalhava no turno da noite, ela pediu ajuda à irmã, que acionou a mãe. As duas a levaram ao hospital. Enquanto aguardava atendimento, Nataly passou mal no banheiro, com crises de vômito, e precisou de ajuda para ser atendida com urgência. Durante os procedimentos, veio a primeira notícia preocupante: ela estava perdendo líquido amniótico e precisaria ser internada imediatamente.

“Naquele momento, eu entrei em desespero. Comecei a chorar e só perguntava: ‘o que está acontecendo?’, ‘meu filho está bem?’”, conta. Com cerca de quatro meses de gestação, entrando no quinto, ela foi internada com ameaça de aborto. No dia seguinte, o diagnóstico confirmou a gravidade do quadro: bolsa rota, placenta descolada e perda de líquido amniótico - condições que colocavam em risco a vida do bebê e também a saúde da mãe, que poderia até perder o útero. A orientação médica foi clara: repouso absoluto e internação, já que qualquer esforço poderia resultar na perda do filho.

Isolada em uma sala para evitar infecções e dependente de ajuda até para tarefas simples, como ir ao banheiro, Nataly enfrentou dias de angústia e incerteza. Um novo médico que assumiu o caso reforçou a gravidade da situação. Segundo ele, o bebê ainda estava em formação e sem peso suficiente, e a gestação precisaria ser mantida até que houvesse condições mínimas para o nascimento, possivelmente no oitavo mês, por meio de uma cesárea antecipada.

VEJA MAIS:

Perda, ausência e saúde comprometida: veja como lidar com dores emocionais na semana do Dia das Mães
Psicóloga Rafaela Guedes explica por que o período pode ser mais difícil para quem enfrenta perdas e orienta como lidar com os sentimentos

Pará recebe semana de incentivo às mães empreendedoras até domingo (08)
Programação reúne atividades de autocuidado, capacitação e incentivo ao empreendedorismo feminino em Belém e no interior, com acesso aberto ao público até o fim de semana

“Só se fosse um milagre”

Mas foi uma frase que marcou profundamente a jovem mãe: diante das condições clínicas, a sobrevivência do bebê seria muito difícil - “só se fosse um milagre”. “Isso me destruiu. Eu só chorava, entrei em desespero e não aceitava aquelas palavras”, relata. Foi nesse momento que a fé se tornou seu principal apoio. Mesmo com limitações, pediu ajuda para ir ao banheiro, onde, ajoelhada, fez uma oração. “Eu pedi a Deus que salvasse a vida do meu filho. Disse que seria forte para suportar tudo aquilo, que ficaria internada o tempo que fosse preciso, mas que eu não queria voltar para casa sem ele”, lembra.

Entre o medo, a angústia e a incerteza, Nataly diz que se culpou por momentos de fraqueza, mas decidiu entregar tudo à fé. “Mesmo naquela dor, entreguei tudo nas mãos de Deus e continuei lutando”. Com o passar dos dias, o quadro começou a apresentar melhora. A perda de líquido diminuiu e as dores ficaram menos intensas. A evolução surpreendeu a equipe médica. “O médico disse que estava surpreso com a minha recuperação e que, se continuasse assim, eu poderia ter alta em poucos dias”, conta. No dia 28 de abril de 2024, veio a notícia que ela descreve como um milagre: a alta hospitalar. “O que era para durar meses, ou talvez nem tivesse continuidade, durou apenas dias. Para Deus, nada é impossível”, afirma.

A gestação seguiu em casa, ainda com desafios, mas com esperança. Meses depois, em 24 de agosto de 2024, já com 39 semanas e cinco dias, Nataly voltou a passar mal. Com inchaço, falta de ar e dores, foi novamente ao hospital. Durante o monitoramento, os médicos identificaram sofrimento fetal agudo, indicando a necessidade de uma cesárea de urgência. “Mais uma vez, o medo tentou me vencer… mas Deus já tinha escrito a nossa história”, diz.

Ravy Lucas nasceu com 2,874 quilos e 49 centímetros, saudável, sem sequelas. Para Nataly, a experiência é a prova de um milagre. “Hoje eu tenho a certeza de que Deus nunca soltou a minha mão. Ele me sustentou em cada momento e me fez forte quando eu achei que não conseguiria mais”, afirma.

Ela define a trajetória como seu maior testemunho de fé. “Quando tudo dizia que não, Deus disse sim. Hoje tenho meu filho nos braços. Ele não sabe o quanto foi forte, mas eu sei. Desde antes de nascer, ele já lutava como um verdadeiro guerreiro. É o meu milagre vivo”.


Empreendedora perdeu 7 bebês

Depois de enfrentar a perda de sete bebês, a empreendedora e advogada Terezinha Castro, 42 anos, disse que encontrou forças em Deus para continuar acreditando na maternidade e seguir em frente durante cada nova gestação. “Deus foi e é meu sustento de vida e família”, disse. “Ser mãe é dom de Deus. Então, toda nossa maternidade passa primeiro pela vontade de Cristo e produz frutos aqui na Terra. Cada filho meu que hoje está no céu, intercedendo por mim e por minha família, sei que foi gerado por muito amor, e cada um teve sua missão comigo no pouco tempo que passamos juntos”, afirmou.

Seu primeiro filho tem 19 anos. Na gravidez da última filha, Sofia, de 1 ano e 8 meses, ela teve uma gravidez gemelar de alto risco. Terezinha é devota de São Geraldo Magela, invocado por grávidas para conseguirem um parto seguro. Muitas histórias contam que, em vida, ele realizou curas milagrosas e intercedeu em favor das mulheres que passavam por dificuldades ao dar à luz. “É muito gratificante ter o amor da Virgem Maria na nossa vida e o quanto ela já fez por nós”, conclui.

Ainda segundo ela, cada dor e perda a ensinaram muito sobre uma dor invisível. “Um luto sobre o qual não falamos, mas que me ensinou ainda mais sobre resiliência e paciência. Sobre esperar que os planos de Deus também sejam os meus. Minha família foi fundamental nesse apoio, junto com meu marido e nosso primeiro filho, para continuar seguindo em frente com a vida e todos os nossos sonhos, pois jamais desistimos de aumentar nossa família”, contou.

Ela disse que os momentos mais difíceis começaram desde a descoberta da gestação, pois o medo de perder novamente a assombrava diariamente. “Então, eu e meu esposo decidimos não contar para ninguém, incluindo nosso filho, até passar o primeiro trimestre gestacional. Tive um sangramento forte com cinco semanas e fiquei desesperada, achando que tinha perdido o bebê novamente”, contou. “Foi nesse dia que descobrimos serem gêmeos. Aí vieram a alegria e a aflição. Fiquei de repouso, mas, no outro ultrassom, descobri que havia somente um bebê em desenvolvimento. Continuamos seguindo, confiando em Deus, um dia de cada vez, e na vida do nosso bebê, acreditando que estava tudo bem”, disse.

“Com 16 semanas, outro susto em um exame de imagem de rotina: o colo do útero estava ‘aberto’. Saí de lá direto para casa, com repouso absoluto e indicação de cirurgia para fazer na mesma semana, a fim de ‘fechar’ o colo do útero, chamada cerclagem. Isso aconteceu por causa das perdas gestacionais anteriores, que exigiram curetagens. O procedimento foi realizado com sucesso, graças a Deus. Segui com a gestação até o final, com os cuidados necessários que eu precisava ter. E sem qualquer dúvida de que, dessa vez, o Senhor permitiria que fosse até o nascimento com muita saúde e vida”, afirmou.

Terezinha Castro contou que a fé em Deus a acompanhou sempre, em cada momento de alegria ou dor na maternidade. “Mas a intercessão de São Geraldo Magela, nesta última gestação, foi a minha fortaleza de que tudo ficaria bem até o final, com o nascimento da Sofia. A PAV (Pastoral de Acolhimento à Vida) da Paróquia São Geraldo Magela faz um acompanhamento espiritual das grávidas e suas famílias, como se fosse um pré-natal espiritual que reza e intercede por nós”, disse. “Eles foram meu sustento e apoio durante toda a gravidez. Tive a honra de ser a primeira gestante pós-pandemia que eles acompanharam e pude crescer no amor e confiança em Deus e neste santo protetor das mães. Tanto que, quando precisei escolher a data de nascimento da Sofia, não tive dúvidas: dia 16, em honra e gratidão a este santo, por me dar a certeza de ser mãe aqui na Terra novamente”, contou.

Terezinha Castro também falou sobre seu sentimento ao olhar para Sofia, que, saudável, está com 1 ano e 8 meses. “Gratidão”, disse. “A Deus, por me permitir a graça da maternidade novamente. Ao meu esposo, Glauber, e ao meu filho, Caio, que me amaram ainda mais. Aos anjos que Deus enviou à Terra para me guardarem e guiarem durante esta gestação: minha médica, Dra. Verena Butzke, minha fisioterapeuta, Sarah Felix, e todos que rezaram por nós - familiares, amigos e a PAV”, afirmou.

Mãe fala de seu ‘bebê arco-íris’

A fé, a maternidade e a superação marcam a história de Amanda Oliveira Portal, 36 anos, confeiteira e dona de casa, mãe de três filhos, que enfrentou uma gestação de risco, um aborto espontâneo e desafios relacionados à saúde dos filhos. Integrante ativa da igreja católica e coordenadora do movimento “Mães que Oram pelos Filhos” em sua paróquia, ela define a filha caçula, Rebeca Maria, de três anos, como seu “bebê arco-íris” - termo usado para crianças que nascem após uma perda gestacional. A que veio depois da tempestade

Amanda conta que as duas primeiras gestações transcorreram de forma saudável. O filho mais velho, Davi Tarcísio, hoje com 12 anos, precisou nascer de cesárea após o cordão umbilical dar duas voltas em seu pescoço na reta final da gravidez. “Mas nada que interferisse na vida dele ou na minha”, disse.

Já Samuel Lucca, de 10 anos, também nasceu de cesárea, após Amanda chegar às 41 semanas de gestação sem dilatação, mesmo depois do rompimento da bolsa. Segundo ela, os problemas começaram na terceira gestação, após um aborto espontâneo. Rebeca veio em meio a um período delicado da vida da família. “Com cinco para seis meses eu tive um problema sério na perna, de inchaço, não consegui andar. Foi muito difícil e a partir daí desencadeou muitas dificuldades para mim”, relembra.

Durante a gravidez, Amanda enfrentou uma forte infecção urinária, internações frequentes e risco de parto prematuro. Por causa da gestação, os medicamentos precisavam ser controlados para não prejudicar a bebê. “Eu enfrentei essa batalha com muitas dores, dores intensas, mas com muita fé e segurando na mão da Virgem Maria. Foi ela que me sustentou”, afirma. Além das dificuldades enfrentadas durante a gestação da filha, Amanda relata outros desafios vividos como mãe. O filho mais velho realiza terapias por dificuldades de aprendizagem e ainda passa por investigação para diagnóstico de autismo ou TDAH. Já o filho do meio enfrentou recentemente um grave problema de saúde - há 4 meses.

“Meu filho adoeceu seriamente, emagreceu quase dez quilos e nós passamos um momento de deserto muito grande com ele”, conta. “E que nos sustentou realmente foi a intercessão da Virgem Maria”, disse. Ela afirma que precisou lutar junto ao plano de saúde para garantir consultas e exames necessários ao tratamento do menino.

“Foi uma luta muito grande, uma batalha que eu enfrentei, que eu fui à frente como uma leoa pelo meu filho”, diz. “O meu calvário foi da Rebeca”, contou. Teve o primeiro filho aos 23 anos. Amanda afirma que a fé sempre esteve presente em sua trajetória pessoal e familiar. O esposo dela, Paulo Portal, é diácono da Paróquia São João Batista e Nossa Senhora das Grças, frequentada pela família, onde ela também coordena o movimento “Mães que Oram pelos Filhos”, implantado há dois anos na comunidade.

“Eu vejo isso como uma voz de Deus dizendo para mim o quanto eu sou uma mãe com imperfeições, mas também com perfeições”, afirma, emocionada ao recordar as experiências vividas ao longo da maternidade. Consagrada à Virgem Maria, assim como o marido e os filhos, Amanda acredita que a espiritualidade foi essencial para enfrentar os momentos mais difíceis.

Psicóloga fala dos impactos nas mães

A psicóloga Rafaela Guedes disse que uma gestação de alto risco deixa a mãe, a família, em estado de constante alerta. “Desde a gravidez, desenvolve-se um comportamento de superproteção para aquele bebê ‘vingar’ e vir à vida. É um período de muita tensão, de extremo cuidado. Um período que exige emocionalmente e fisicamente muito dessa mãe”, afirmou.

Segundo ela, a rede de apoio familiar, amigos e, certamente, a fé são os pilares que contribuem para o atravessamento tranquilo, ou mais tranquilo possível, desse período tão delicado na vida dessas gestantes. “São justamente as palavras de apoio, a ajuda efetiva, a presença, a atenção no dia a dia que contribuem para o fortalecimento dessa mãe e para o enfrentamento deste período delicado de forma efetiva, que culmine no nascimento do bebê”, disse.

A psicóloga Rafaela Guedes afirmou que as mães que vivem essa experiência tendem, e com razão, a permanecer nesse estado de alerta e de superproteção desses bebês. “E é somente ao longo do tempo, de forma gradativa, que essa situação pode ser revertida, à medida que elas percebem que a criança está se desenvolvendo bem”, disse. “Que a vida está funcionando como elas desejam que ela esteja, como ela precisa estar, que a mãe pode ir gradativamente voltando para o estado dela normal, tranquilo, de cuidado natural dessa criança”, afirmou.

E acrescentou: “Mas, se a mãe se perceber nesse constante estado de vigilância, medo, angústia, estresse, com receio de que o filho possa perecer em algum momento, depois que ele já está bem, depois que o período turbulento já passou, é importante procurar ajuda psicológica, para curar essa ferida, esse medo. A delicadeza e o esforço hercúleo que foi atravessar essa situação e a vida poder fluir de forma mais tranquila”.