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Inverno amazônico: formação urbana e chuvas intensas explicam alagamentos recorrentes em Belém

A geóloga Aline Meiguins explica que fatores históricos da formação e expansão urbana da capital contribuem para a vulnerabilidade da cidade às inundações no período chuvoso.

Gabriel Pires

Todos os anos, Belém enfrenta alagamentos intensos durante o inverno amazônico, período caracterizado por chuvas fortes e persistentes, geralmente entre os meses de dezembro e maio. As ocorrências de inundação registradas na cidade nesse período estão relacionadas a caraterísticas histórias, entre outros fatores, ao próprio processo de formação e expansão urbana de Belém, como explica a geóloga Aline Meiguins, de Belém.

A combinação de chuvas intensas, maré cheia e rios elevados também contribuem para agravar os alagamentos em Belém, o entrevistado afirmou que esses fatores funcionam, de fato, como processos agravantes. A localização geográfica de Belém, situada na foz do rio Guamá e integrada ao sistema delta-estuarino amazônico, além das características climáticas da região também são características determinantes para os alagamentos de forma tão recorrente, segundo reforça a especialista.

A pesquisadora afirma que a construção da capital paraense foi realizada sobre áreas de várzea, rios e igarapés. Ela aponta que esse processo histórico de ocupação tem sido um fator crucial e determinante para os atuais problemas de drenagem. “A vulnerabilidade está no processo de urbanização que ocorreu nas áreas de várzea e de planície e marginais aos cursos d'água que drenam a região e na intensa alteração da topografia original pelo processo de aterro e modificação da paisagem natural da região”, explica a geóloga.

Canais 

Entre as demais intervenções, rios e igarapés foram canalizados, o que gera impacto, também, com relação a hidrografia da cidade. “Ele altera a forma como o escoamento das águas superficiais drena a cidade. E favorecem que ocorram problemas de acumulação de água em locais que antes drenavam corretamente. Outro processo é o formato destas estruturas sem a associação à recuperação paisagística das bacias hidrográficas envolvidas”, diz.

Aline destaca que a manutenção da rede de drenagem, como a limpeza de canais, galerias e bueiros, é um processo essencial para reduzir os impactos dos alagamentos. Segundo ela, a falta de manutenção adequada, somada ao descarte irregular de lixo, pode agravar os efeitos provocados pela combinação entre chuvas intensas e marés, além de aumentar o potencial de disseminação de doenças de veiculação hídrica.

Planejamento urbano

E ainda, a especialista também aponta que soluções de engenharia e planejamento urbano podem contribuir para a redução de alagamentos, mencionando especificamente a manutenção de áreas verdes. “O correto seria que o processo de canalização não fosse o preferencial, e ao invés disso a revitalização priorizasse a manutenção de áreas verdes e que o sistema de escoamento do esgotamento sanitário e das águas pluviais não tivesse conexão alguma com estes canais”, analisa . 

“A cidade se adensou em torno destas áreas; logo, o processo de mobilização necessário à sua reabilitação para ambientes de melhor qualidade ambiental é muito caro ao poder público. Assim, se forem tomadas medidas que melhorem as condições de saneamento e consigam tornar estes ambientes mais "verdes" e menos "cinza", a cidade terá uma melhor resposta em termos da paisagem”, acrescenta.

Diante do avanço das mudanças climáticas e da tendência de ocorrência de chuvas cada vez mais intensas, entre algumas medidas urgentes, a geóloga destaca: “Investimento em saneamento incluindo resíduos sólidos e o sistema de captação de águas pluviais. E tornar executável o plano diretor municipal, com revisão, prevendo o atendimento a esta meta”, reforça Aline.

Ações itensificadas

Em nota, a Prefeitura de Belém informou que tem intensificado ações para reduzir os impactos dos alagamentos, especialmente durante o período do inverno amazônico. Entre as medidas estão a manutenção e limpeza da rede de drenagem, o monitoramento permanente das áreas de risco, ações de educação ambiental para combater o descarte irregular de lixo e iniciativas baseadas em soluções naturais, como a implantação de espaços verdes capazes de absorver a água da chuva e diminuir o escoamento nas vias da cidade.

“A Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel) tem intensificado as ações de manutenção da drenagem urbana para prevenir alagamentos, especialmente durante o período de chuvas. A secretaria também realiza estudos técnicos e elabora projetos específicos para enfrentar esse problema histórico na cidade. Atualmente, a Sezel executa a Operação Inverno, com mais de 100 trabalhadores diariamente atuando dentro dos canais, apoio de maquinário pesado e mais de 12 caminhões hidrojatos, garantindo a manutenção contínua da rede de drenagem”, detalha a nota.

E ainda, a secretaria pontuou que “as equipes da Sezel também intensificaram o combate ao descarte irregular com foco em educação ambiental e orientação direta à população”. “O trabalho diário das equipes de educadores ambientais nas ruas já resultou na redução de diversos pontos críticos de lixo na capital, prevenindo a obstrução de canais e sistemas de drenagem. A gestão também aposta na economia circular por meio de parcerias com cooperativas e infraestruturas como o Ecoponto para descarte de  resíduos e entulhos. Outro destaque é o Hub do Pix, que incentiva o descarte correto ao permitir que o cidadão troque resíduos recicláveis por créditos via Pix, unindo sustentabilidade e benefício financeiro", completa a Sezel.

Monitoramento de áreas

A Defesa Civil de Belém informou ainda que “atua de forma intensificada no período chuvoso". “As equipes monitoram a cidade 24 horas por dia, organizando e mobilizando efetivo a qualquer horário para atender prontamente aos chamados de ocorrências e sinistros relacionados às chuvas. O Comitê de Gestão de Riscos, da Defesa Civil Municipal, está em alerta e trabalha para acelerar os processos de ajuda humanitária municipal, garantindo assistência às famílias afetadas. Além disso, as equipes articulam com a Defesa Civil Nacional para agilizar os trâmites necessários, ampliar o apoio e fortalecer as ações de resposta no município”. 

“A Defesa Civil também orienta que a população esteja com seu número de contato cadastrado no "40199", o sistema Defesa Civil Alerta, com envio de mensagens sobre iminência de riscos de acidentes ou desastres. A ferramenta foi criada pela Defesa Civil Nacional e está em funcionamento desde setembro de 2025, ampliando a comunicação preventiva em situações de risco. Por fim, a Defesa Civil orienta que a população não descarte lixo nas ruas para não obstruir bueiros e canais, esteja atenta aos sinais de risco como rachaduras em paredes, inclinação de árvores ou postes. Em áreas de alagamento, não atravesse ruas inundadas e mantenha distância de áreas com risco de deslizamento”, acrescenta o órgão.

Espaços verdes

Para contribuir no combate aos alagamentos, especialmente durante o período do inverno amazônico, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente detalhou que lidera o projeto Jardins de Chuva, como parte das soluções baseadas na natureza (SbN). A iniciativa consiste em instalar pequenos espaços verdes e usá-los como aliados estratégicos no controle da água, absorvendo a chuva de forma inteligente e sustentável. 

“Os jardins de chuva seguem o conceito de “cidade-esponja”, realizando intervenções em pontos estratégicos da cidade para conter alagamentos, absorvendo, retendo e infiltrando a água da chuva. Os benefícios são ambientais, sociais e estéticos.  Os jardins de chuva são áreas verdes construídas em locais antes impermeabilizados, como calçadas e ruas. Eles recebem a água da chuva e permitem que ela seja absorvida gradualmente pelo solo, reduzindo o escoamento superficial, principal causa de alagamentos, e filtrando sedimentos e poluentes antes que a água alcance aos canais urbanos”, frisa a nota.