Ilha do Diabo em Belém? Conheça o presídio de Cotijuba marcado por torturas e violência
Muito antes das praias e do turismo, a ilha abrigou uma prisão que recebeu presos políticos, internos e detentos comuns durante décadas no Pará
Hoje conhecida pelas praias de água doce e pela tranquilidade que atrai milhares de visitantes todos os anos, Cotijuba guarda um passado que contrasta com a imagem turística da ilha. Durante décadas, o local ficou associado ao confinamento, à repressão e à violência, a ponto de ganhar um apelido que atravessou gerações de paraenses: Ilha do Diabo.
Localizada a cerca de 22 quilômetros do centro de Belém, a ilha abrigou diferentes instituições destinadas à internação de jovens e adultos ao longo do século XX. Entre colônias reformatórias, educandários e presídios, o local recebeu menores considerados infratores, presos comuns e até opositores do regime militar instaurado em 1964.
Pesquisadores apontam que, apesar das mudanças de nome e de administração, a lógica de isolamento e punição permaneceu presente em diferentes períodos da história de Cotijuba, contribuindo para a construção da reputação que marcou a ilha por décadas.
O início da história de confinamento em Cotijuba
A utilização da ilha como espaço de internação começou em 1930, com a criação da Colônia Reformatória de Cotijuba. O projeto foi idealizado durante a gestão do interventor federal Magalhães Barata e teve participação do juiz Raymundo Nogueira de Faria, responsável pela Vara de Menores.
Na época, a iniciativa era apresentada como uma resposta aos problemas relacionados à delinquência juvenil, ao abandono e à pobreza. O objetivo oficial era promover a recuperação de adolescentes encaminhados pelo sistema de Justiça.
Segundo o pesquisador Sid Quaresma, autor de uma dissertação de mestrado sobre a história da ilha, a proposta era vista pela sociedade como uma alternativa para corrigir jovens considerados problemáticos. No entanto, o isolamento geográfico de Cotijuba acabou criando outra percepção.
“A Colônia Reformatória de Cotijuba aparece para a sociedade da época como uma alternativa ao problema da delinquência, abandono e pobreza. Mas, a partir desse momento, a ilha já começa a ser vista como um local de exílio, sofrimento e distância”, afirma o pesquisador.
Nas décadas seguintes, a instituição passou a ser chamada de Educandário Nogueira de Faria e continuou recebendo jovens do sexo masculino com idades entre 12 e 21 anos.
A criação da colônia penal
Em 1945, Cotijuba recebeu uma nova unidade voltada para adultos. Tratava-se do Instituto de Reeducação Social, uma colônia penal destinada a presos considerados de menor periculosidade. A implantação da estrutura ampliou ainda mais o caráter prisional da ilha.
Segundo Sid Quaresma, a ideia das autoridades era integrar os projetos voltados para menores e adultos em uma grande iniciativa de recuperação social. “A ideia era transformar a Ilha de Cotijuba, integrando os projetos das colônias Reformatória e Penal, numa espécie de ‘Ilha da Redenção’ da juventude desvalida e de adultos de terrível destino”, explica.
Na prática, porém, o isolamento da ilha e os relatos envolvendo castigos e violência ajudaram a construir uma imagem muito diferente daquela imaginada pelas autoridades.
Como surgiu a fama da 'Ilha do Diabo'
Ao longo das décadas de 1940, 1950 e 1960, denúncias envolvendo maus-tratos, castigos físicos, rebeliões, fugas e mortes passaram a circular entre moradores e ganhar espaço na imprensa paraense.
Foi nesse contexto que Cotijuba passou a ser conhecida como “Ilha do Diabo” ou “Ilha do Inferno”, apelidos que refletiam a reputação construída em torno das instituições instaladas no local.
Segundo o professor e pesquisador Odimar Melo, nascido na própria ilha e autor de estudos sobre sua história, a associação surgiu em razão dos episódios de violência registrados ao longo dos anos.
“Cotijuba recebeu esse adjetivo ruim, negativo, o que acabou prejudicando e depreciando a imagem do local. ‘Ilha do Inferno’ ou ‘Ilha do Diabo’ remetia ao sofrimento, porque havia castigos, mutilações e até mortes”, afirma.
Publicações da imprensa paraense da época, incluindo reportagens de O Liberal, registraram episódios relacionados ao cotidiano das instituições instaladas na ilha e ajudaram a consolidar essa imagem perante a sociedade.
O presídio durante a ditadura militar
Além de jovens internados e presos comuns, Cotijuba também recebeu presos políticos durante a ditadura militar.
Entre eles estava o economista Orlando dos Anjos Silva, preso em abril de 1964 sob acusação de subversão. Ele permaneceu mais de 30 dias encarcerado na ilha e relatou, décadas depois, o medo e a pressão psicológica vividos naquele período.
Historiadores apontam que o isolamento geográfico fazia parte da lógica repressiva do regime, dificultando o contato dos presos com familiares e ampliando a sensação de vulnerabilidade.
Para o historiador Jaime Cuéllar, integrante da Comissão Estadual da Verdade do Pará, Cotijuba funcionava como uma extensão da ideia de confinamento utilizada como forma de castigo e disciplina.
A violência aumentou com a transformação em presídio
Segundo Odimar Melo, a situação se agravou quando a estrutura passou a funcionar como presídio para receber detentos considerados de alta periculosidade.
“Quando o espaço ganha o status de presídio para receber presos de alta periculosidade, as torturas e violações de direitos continuam acontecendo, mas de uma forma muito mais violenta”, afirma.
O pesquisador destaca que diferentes instituições ocuparam a área ao longo das décadas — Colônia Reformatória, Educandário e Presídio —, todas ligadas a práticas de correção e repressão.
A fama negativa ultrapassou os limites da ilha e fez com que até mesmo presos de outras unidades temessem ser transferidos para Cotijuba.
O fechamento do presídio
Entre 1977 e 1978, após episódios de revolta entre internos e sucessivas críticas às condições da unidade, o governo decidiu encerrar as atividades do presídio.
Os detentos remanescentes foram transferidos para o Complexo Penitenciário de Americano, em Santa Izabel do Pará.
O encerramento das atividades marcou o fim de quase meio século de utilização da ilha como espaço de confinamento institucional.
Da Ilha do Diabo ao destino turístico de Belém
Nas décadas seguintes, moradores e lideranças locais passaram a trabalhar para transformar a imagem de Cotijuba.
O turismo ganhou espaço, novas atividades econômicas surgiram e a ilha passou a ser reconhecida pelas praias, pela natureza preservada e pelo estilo de vida tranquilo.
Atualmente, o trajeto de barco que leva visitantes até Cotijuba dura cerca de uma hora e se tornou parte da experiência de quem busca um refúgio próximo à capital paraense.
A nova realidade contrasta com o passado que marcou gerações e que ainda é lembrado por pesquisadores e moradores mais antigos.
As ruínas que preservam a memória da ilha
Apesar das transformações, parte da história permanece visível. As ruínas das antigas instituições ainda resistem ao tempo e são apontadas por estudiosos como importantes marcos da memória histórica do Pará.
Para o historiador Jaime Cuéllar, existe um processo de apagamento relacionado aos espaços de repressão utilizados na Amazônia durante a ditadura militar. Preservar esses locais, segundo ele, é uma forma de manter viva a lembrança das violações de direitos ocorridas ao longo da história.
Hoje, entre praias, trilhas e áreas de lazer, Cotijuba reúne duas narrativas distintas. A do destino turístico que atrai visitantes todos os anos e a da antiga Ilha do Diabo, um capítulo da história paraense que permanece vivo na memória de quem conheceu aquele período e nas ruínas que ainda resistem ao tempo.
*Versão especial da matéria de Marcus Passos, repórter do G1 Pará, editada para Oliberal.com por Heloá Canali, editora executiva do portal.
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