Famílias de crianças autistas defendem mais espaços inclusivos após inauguração de praça em Belém
Projeto piloto do Governo do Pará no bairro do Guamá é visto como avanço na inclusão, mas especialistas e mães apontam dificuldades no acesso à saúde, educação e acolhimento social
A primeira Praça da Inclusão do Estado do Pará, entregue em abril deste ano no bairro do Guamá, em Belém, tem se tornado símbolo de acolhimento para famílias de crianças com transtorno do espectro autista (TEA). O espaço, projetado especialmente por arquitetos da Coordenação Estadual de Políticas para o Autismo (CEPA), vinculada à Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), reúne equipamentos voltados à inclusão, integração sensorial e socialização de crianças neurodivergentes.
Localizada na rua dos Mundurucus, entre a alameda Bom Jesus e a Vila União, em frente à Bacia do Tucunduba, a Praça da Inclusão conta com parque infantil equipado com brinquedos inclusivos, academia, caminho sensorial, horta sensorial, quadra coberta e área de regulação. Segundo o Governo do Pará, os equipamentos foram planejados para estimular coordenação motora, integração sensorial, atenção, concentração, comunicação e interação social por meio de atividades lúdicas.
Para mães de crianças autistas, o espaço representa mais do que uma praça. É o reconhecimento de uma luta diária por acolhimento, inclusão e respeito. A administradora Gleiciane Bezerra, de 39 anos, mãe de Vitor Cesar, de 3 anos e 7 meses, diagnosticado com TEA aos dois anos de idade, disse que a criação da praça trouxe um sentimento de pertencimento para muitas famílias atípicas.
“Quando eu vi a reportagem de uma praça atípica, o primeiro sentimento que eu tive foi: ‘Nossa, estão nos escutando, estão nos vendo’”, contou. Gleiciane é idealizadora do projeto Gavião Real Azul, desenvolvido na escola de samba Acadêmicos da Pedreira, voltado à conscientização e defesa dos direitos de crianças autistas. Ela lembrou que o diagnóstico do filho foi marcado por medo, insegurança e dúvidas sobre o futuro. “Foi uma mistura de sentimentos. Ao mesmo tempo em que fiquei com medo, também me senti aliviada por entender o motivo dos atrasos dele”, contou. Segundo ela, Vitor demorou para engatinhar, andar e falar, o que levou a família a procurar acompanhamento médico especializado.
Após avaliações realizadas por psicóloga, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo e neuropediatra, veio a confirmação do diagnóstico de TEA. “Quando a gente está grávida, faz vários planos para o futuro do filho. Quando recebi o diagnóstico, parecia que tudo caía por água abaixo”, desabafou. Hoje, porém, Gleiciane afirma enxergar o desenvolvimento do filho de forma diferente. “Ele já me mostrou que é capaz de fazer várias coisas. Embora tenha as dificuldades dele, eu me sinto muito mais confortável hoje”, disse.
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“Pensaram em cada detalhe”, diz mãe atípica
Ao conhecer a Praça da Inclusão, a administradora destacou principalmente o cuidado com a segurança e o planejamento sensorial do espaço. Segundo ela, o piso acolchoado e os brinquedos adaptados fazem diferença para crianças que enfrentam crises sensoriais. “Quando eles entram em crise, muitos se jogam no chão e não percebem que podem se machucar. Então, eu gostei muito da segurança. Vi que realmente pensaram em cada detalhe”, afirmou.
Ela explicou que crianças autistas podem apresentar hipersensibilidade ou hipossensibilidade a sons, luzes, cheiros e toques, o que pode provocar ansiedade, crises e dificuldades de concentração. “O ambiente inclusivo organiza a cabeça deles”, afirmou. No caso do filho, Gleiciane contou que Vitor é não verbal - ou seja, consegue pronunciar palavras isoladas, mas ainda não desenvolveu conversação. “Ele fala palavras soltas, conta números, fala cores, mas ainda não consegue responder perguntas simples, como se quer água ou não”, explicou.
Para ela, os brinquedos sensoriais auxiliam diretamente no desenvolvimento físico, cognitivo e social das crianças. “Os brinquedos ajudam na fala, na habilidade, no físico e na interação social”, afirmou. A administradora também ressaltou a importância da convivência entre crianças típicas e atípicas no mesmo ambiente. Segundo ela, a inclusão verdadeira acontece quando todas podem brincar juntas sem exclusão. “O diferencial é que os brinquedos foram pensados para todos os modelos de crianças, para que elas possam interagir. É uma inclusão que não exclui ninguém”, destacou.
Apesar do avanço representado pela praça, Gleiciane afirma que muitas famílias ainda evitam espaços públicos por medo do preconceito. “A gente vive isso até dentro da própria família. Só sabe quem passa”, relatou. Ela contou que situações de julgamento ainda acontecem frequentemente em locais públicos, principalmente quando as pessoas não compreendem as crises sensoriais das crianças autistas. “Acham que é frescura da criança ou da mãe”, lamentou. Segundo Gleiciane, o preconceito também aparece na dificuldade de acesso a direitos básicos e acolhimento.
Projeto Gavião Real Azul
“As pessoas ainda acham que a deficiência precisa estar escrita na testa da criança”, criticou. Foi justamente diante dessas dificuldades que surgiu o projeto Gavião Real Azul. A iniciativa busca orientar famílias atípicas sobre direitos, atendimento especializado e acesso a serviços de saúde. “Quando eu descobri o diagnóstico do meu filho, foi muito difícil conseguir informação. Então, meu maior objetivo passou a ser levar informação para outras mães”, explicou. O projeto reúne voluntárias e profissionais como psicólogas, advogadas, fisioterapeutas e assistentes sociais para prestar orientação gratuita às famílias. Segundo Gleiciane, muitas mães descobrem sinais do autismo a partir de observações feitas por professoras nas escolas.
“Hoje, muitas professoras já conseguem identificar alguns comportamentos e orientam as mães a procurarem ajuda médica”, contou. Ela afirmou que a informação é fundamental para fortalecer as famílias e cobrar políticas públicas voltadas à inclusão. “A informação faz a mãe ir à luta. Faz ela buscar direitos. Faz chamar atenção do poder público”, disse. Para Gleiciane, a criação da Praça da Inclusão representa justamente o resultado dessa mobilização coletiva. “Eu acredito que esta é apenas a primeira de muitas praças inclusivas que ainda podem surgir em Belém”, afirmou.
Apesar dos avanços recentes voltados à inclusão de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) em Belém, familiares de crianças neurodivergentes afirmam que a capital paraense ainda enfrenta grandes desafios para garantir acessibilidade, acolhimento e efetividade nas políticas públicas. Segundo Gleiciane, a entrega da primeira Praça da Inclusão do Estado do Pará representa um passo importante, mas ainda insuficiente diante da demanda existente na cidade.
Necessidade de mais espaços inclusivos
“Belém ainda tem uma grande estrada a percorrer, embora já tenha alguns avanços”, afirmou. Ela defende a ampliação de espaços inclusivos em áreas públicas da capital. “Faltam mais espaços inclusivos, como a Praça da Inclusão. Se ainda não dá para fazer em cada bairro, que sejam implantados nas principais praças da cidade”, disse, citando locais como Praça da República, Ver-o-Rio, Batista Campos e Praça Brasil.
Além da infraestrutura urbana, Gleiciane destacou dificuldades no acesso ao atendimento especializado para crianças autistas. Segundo ela, a espera por consultas e terapias na rede pública pode durar anos. Ela também cobrou mais efetividade na inclusão escolar. Embora existam leis que garantam direitos às crianças autistas, Gleiciane afirma que muitas vezes elas não são cumpridas na prática. “A lei existe, mas precisa funcionar. É necessário acompanhamento dentro das escolas, não apenas para crianças, mas também para adolescentes e adultos autistas, porque o autista cresce”, observou.
A administradora também chamou atenção para o desgaste físico e emocional enfrentado pelas famílias, especialmente pelas mães, que costumam concentrar a maior parte dos cuidados. “As mães estão cansadas. Levam para aula, terapia, atendimento médico, acompanham tudo. Muitas vezes, a criança adoece e a mãe acaba adoecendo junto”, afirmou. Segundo Gleiciane, falta apoio psicológico e social às famílias atípicas, além de políticas públicas permanentes e fiscalizadas.
“Essas políticas precisam sair do papel. É preciso ter execução, continuidade e fiscalização”, disse. Ela resumiu as principais demandas das famílias em seis pontos: mais espaços inclusivos e acessíveis; melhoria da infraestrutura urbana; ampliação do atendimento especializado; redução da burocracia para acesso aos serviços; inclusão efetiva nas escolas; conscientização social e apoio às famílias.
Processo de desenvolvimento infantil
A neuropsicóloga do comportamento Patricia Vieira disse que espaços públicos inclusivos são muito importantes no processo de desenvolvimento infantil, principalmente nas primeiras infâncias. Nessas fases, afirmou, acontecem fenômenos de aprendizagens cognitivas, espaciais e motoras que interferem na formação do sujeito. “Com a possibilidade de interação social em espaços públicos inclusivos, as crianças atípicas podem aprender novas habilidades, até então desconhecidas, descobrindo-as enquanto brincam e interagem em sua zona proximal (tecnicamente, a zona proximal é a distância entre as tarefas que uma pessoa consegue fazer sozinha e as que ela pode aprender com o apoio de outra pessoa, no caso, outra criança)”, disse.
Segundo ela, os estímulos a partir dos órgãos sensoriais são imprescindíveis para os processos de aprendizado. A apresentação desses brinquedos para a criança deve ser realizada de acordo com a aceitação dela, conforme a neurodivergência que possui (por exemplo, TEA, TDAH, AH/SD). “Pensando em órgãos sensoriais, é preciso observar no comportamento da criança o que a incomoda ou o que a deixa irritada”, explicou.
“Se a criança se incomoda com os ruídos ou sons/barulhos, o brinquedo com sons e barulhos estridentes deve ser administrado cuidadosamente. Caso contrário, ao invés de a criança se divertir e interagir com os demais, ela vai ficar nervosa, irritada e despertar comportamentos inoperantes dentro do contexto — é o que chamamos de ‘sobrecarga sensorial’ ou ‘desregulação sensorial’”, explicou.
Ao ser perguntada se crianças com TEA costumam enfrentar mais dificuldades em ambientes públicos tradicionais, ela respondeu que as dificuldades dependerão das necessidades de suporte do TEA. Existem níveis que diferenciam cada pessoa no espectro autista. “Todo autista é autista, mas nem todos apresentam as mesmas neuroatipias”, disse Patricia Vieira. Portanto, afirmou, alguns apresentam dificuldades em ambientes públicos tradicionais, que também podem apresentar em ambientes adequados às suas necessidades.
Todo investimento inclusivo é válido, diz especialista
“Tudo depende de exercícios para o desenvolvimento e o condicionamento da pessoa neuroatípica. Algumas crianças demonstram irritabilidade e insegurança em lugares com muito barulho; a claridade artificial invade a visão delas e pode gerar respostas abruptas, despertando comportamentos de agressão a terceiros ou a si mesmas, mas tudo isso em razão da sobrecarga sensorial. Pessoas neuroatípicas podem demonstrar impaciência quando estão em ambientes de sobrecarga sensorial, como os ambientes públicos tradicionais. Por outro lado, algumas pessoas neuroatípicas podem ‘mascarar’ esse incômodo, mas apresentar outros tipos de reações quando seus limites sensoriais são ultrapassados”, afirmou.
Ela também disse que, sejam espaços particulares ou públicos, todo investimento inclusivo é válido. “A sociedade precisa entender a diversidade entre as pessoas neurodivergentes e que cada criança tem o seu tempo”, afirmou. “A socialização das crianças neuroatípicas é muito importante para a inclusão delas e para que as próprias crianças neurotípicas aprendam a respeitar e a lidar com pessoas diferentes. Para que o processo de inclusão ocorra dentro do tempo individual de cada criança, é preciso paciência e compreensão, tanto entre as crianças quanto entre os responsáveis por elas”, disse.
“É importante dar a oportunidade de aprenderem uns com os outros dentro da ‘zona de aproximação’, para que sejam observados e corrigidos na medida do possível, e para que eles criem vínculos, autonomia, com uma comunicação fluida e desenvolvimento da sociabilidade, o que será muito importante ao longo das demais fases da vida dessas crianças”, afirmou. Em qualquer situação que envolva pessoas neurodivergentes, quando a família se sente apoiada e acolhida, inegavelmente há um impacto emocional positivo.
“Ambientes que buscam proporcionar o bem-estar para o seu filho, espaços nos quais as crianças se sintam confiantes para demonstrar interesse, se movimentar, brincar e expressar toda a curiosidade que existe dentro de si são essenciais para o desenvolvimento pleno, e a existência desses espaços demonstra uma preocupação social, seja do poder público, seja de entidades privadas, em proporcionar essa inclusão”, afirmou.
O que diz a Sespa sobre a praça:
A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) informou que a Praça da Inclusão, na rua dos Mundurucus, foi projetada para atender toda a comunidade do bairro do Guamá e seus visitantes. O diferencial do espaço em relação a outras áreas de lazer está nos equipamentos adaptados e planejados especialmente para pessoas com deficiência, tornando a praça um ambiente inclusivo para crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e outras deficiências.
O espaço foi construído para oferecer segurança, acessibilidade e acolhimento, podendo também servir como suporte ao desenvolvimento infantil e à aplicação prática de terapias, conforme orientação das equipes multidisciplinares responsáveis pelo acompanhamento das crianças. A Sespa destacou ainda que a Praça da Inclusão é um projeto piloto, cujo modelo deverá ser ampliado e reproduzido pelo Governo do Estado em outras localidades do Pará, de acordo com cronograma a ser definido futuramente.
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