Ex-arcebispo de Belém, Dom Antônio Lustosa pode se tornar santo da Igreja Católica
Religioso salesiano que marcou a história da Arquidiocese de Belém teve virtudes reconhecidas pela Igreja e aguarda comprovação de milagres para avançar rumo à beatificação e possível canonização
Tendo passado por Belém e atualmente em processo de beatificação, Dom Antônio de Almeida Lustosa foi declarado venerável em 2023, após o reconhecimento de suas virtudes heroicas. O decreto foi promulgado pelo Papa Francisco, que recebeu em audiência o cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. Dom Lustosa foi o quarto arcebispo da Arquidiocese de Belém e teve uma trajetória marcada pela atuação pastoral, educacional e intelectual. O processo de beatificação teve início em 1993, quando o então arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider, solicitou a abertura da causa.
Durante seu período na Arquidiocese de Belém, criou quatro paróquias: Santa Teresinha do Menino Jesus – Jurunas, Santa Cruz, São Sebastião e São João Batista, hoje São João Batista e Nossa Senhora das Graças, além de Santa Isabel (hoje pertencente à Diocese de Castanhal). O processo de beatificação de Dom Lustosa encontra-se na segunda fase. Nesta etapa, a Congregação da Causa dos Santos no Vaticano está analisando as "virtudes históricas" do bispo salesiano. Após a aprovação desses documentos, o religioso ainda necessita do reconhecimento de dois milagres: um para a beatificação e outro para a canonização.
De acordo com o cônego Ivan Conceição, canonista e postulador para a causa dos santos na Arquidiocese de Belém, a Igreja entende que, para ser considerado santo, alguém deve viver as virtudes às quais todos são chamados, mas de forma heroica. Ele explica que, desde que Dom Aloísio Lorscheider iniciou o processo de beatificação em 1993, começou-se a pesquisar mais sobre a vida de Dom Lustosa. Um provável santo precisa ter uma fama de santidade que seja crescente: durante a vida, na hora da morte e depois dela.
Virtudes heroícas
Assim, a Arquidiocese de Fortaleza, por exemplo, pode iniciar um processo e pedir que a Igreja reconheça que o indivíduo viveu as virtudes heroicamente. “E, quando se recolhem provas, envia-se para a Congregação da Causa dos Santos, no caso, para o Vaticano. O Vaticano, então, determina que aquela investigação pode continuar, pois encontrou, naqueles documentos e testemunhos, a verdade de alguém que pode ser considerado santo e que as virtudes vividas em vida foram vividas, nós poderíamos dizer, acima da média, portanto, de forma heroica”, comenta o cônego.
“O processo de canonização e beatificação ocorre em etapas. No caso, a beatificação é uma fase intermediária até o juízo definitivo, que chamamos de canonização. Depois que a pessoa é considerada venerável servo de Deus, inicia-se a investigação sobre possíveis milagres atribuídos a ela. Para a beatificação, é necessário pelo menos um milagre comprovado. A Igreja possui um processo bastante rigoroso de análise, que envolve pesquisas, avaliações científicas e outros critérios voltados à verificação da autenticidade desses fatos, já que é preciso comprovar a veracidade do milagre”, acrescenta.
Tempo do processo
O tempo depende do processo e de cada caso, como relata o religioso. A Igreja não determina um prazo máximo. “Após a confirmação de um milagre, o caso é encaminhado ao Vaticano, onde passa por novas análises. Somente então a pessoa pode ser oficialmente reconhecida como beata”. “A Igreja não estabelece um prazo máximo para o processo, mas determina, por exemplo, que ele só pode ser aberto após, no mínimo, cinco anos da morte da pessoa. No caso de Dom Lustosa, que faleceu na década de 1970, o processo foi iniciado apenas em 1993, na Arquidiocese de Fortaleza”, completa o cônego Ivan.
“Provavelmente, pode levar um, dois ou três anos, a depender do andamento das investigações e da análise da documentação que é enviada ao Vaticano, mais especificamente ao Dicastério para as Causas dos Santos. Somente após essa etapa será possível estimar com mais precisão quanto tempo ainda poderá levar o processo. Mas acredito que, pela força deste homem, por tudo o que ele fez e pelo legado que deixou, a Igreja, em breve, poderá reconhecer alguém que viveu aqui na Arquidiocese de Belém e elevá-lo aos altares, sendo considerado mais um santo”, destaca o cônego.
Impacto no coração do belenense
Para o cônego, ter um religioso paraense como um possível santo é de grande importância: “Costumamos dizer que, quando a Igreja canoniza alguém, ela o canoniza para toda a Igreja. Um santo é alguém que funciona como uma bússola, apontando o caminho em direção a Deus. Hoje, as redes sociais, as mídias digitais e os meios de comunicação facilitam o acesso à história dessas pessoas. Certamente, um santo que morou e viveu em Belém tem um grande impacto no coração do povo católico e também no mundo inteiro. Afinal de contas, trata-se de alguém que dedicou a vida a fazer o bem”.
“Para que uma causa seja aberta, todas as investigações são realizadas previamente. Nesse processo, a Arquidiocese de Belém contribui de maneira muito próxima com a Arquidiocese de Fortaleza, enviando relatórios e testemunhos. Afinal de contas, Dom Lustosa serviu à Igreja de Belém durante 10 anos e, inclusive, iniciou aqui na Arquidiocese a escrita de um de seus livros. Assim, contribuímos sempre que somos acionados, com documentação, testemunhos e, claro, acima de tudo, com nossas orações”, observa Conceição.
Vida do religioso
Dom Antônio de Almeida Lustosa nasceu em 11 de fevereiro de 1886, em São João del-Rei, Minas Gerais, e desde jovem demonstrou grande inteligência e dedicação à vida religiosa. Aos 26 anos, foi ordenado sacerdote e se destacou como mestre de noviços e diretor, responsável pela formação de aspirantes salesianos. Ainda em 1993, uma comissão foi formada pela Arquidiocese para realizar pesquisas e resgatar a memória do bispo como pastor, educador e escritor.
Atualmente, o processo está na segunda fase, na qual as “virtudes históricas” do bispo estão sendo analisadas pela Congregação da Causa dos Santos no Vaticano. Após a aceitação desses documentos, será necessário o reconhecimento de dois milagres para a beatificação e canonização do religioso.
Dom Antônio de Almeida Lustosa faleceu em 14 de agosto de 1974, na casa salesiana de Carpina, Pernambuco, onde viveu seus últimos quinze anos. Durante sua trajetória, atuou como bispo em Corumbá e foi o 4º arcebispo de Belém, exercendo a função entre 1931 e 1941. Após dez anos percorrendo o bioma amazônico à frente da Arquidiocese de Belém, Dom Lustosa foi transferido para a Arquidiocese de Fortaleza, onde, em 1941, tornou-se o segundo arcebispo.
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