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Entre o calor e a floresta, plantar árvores reforça vínculo dos belenenses com a natureza

A autônoma Liria Freitas mantém em casa uma coleção com mais de 100 plantas, cultivadas desde a infância

Dilson Pimentel

Plantar uma árvore é um gesto simples, quase silencioso, mas carregado de sentidos profundos. Em diferentes culturas e épocas, fincar uma muda na terra é um símbolo de vida que continua, de cuidado que se projeta no tempo e de esperança depositada no futuro. Em Belém, cidade quente apesar das chuvas quase diárias, plantar uma árvore é também um ato de resistência cotidiana.


No bairro da Marambaia, a autônoma Liria Freitas, de 55 anos, mantém em casa uma coleção com mais de 100 plantas, cultivadas desde a infância, quando foi incentivada pela mãe, Rosemary Freitas Nazareth, 74. Apaixonada principalmente por orquídeas e frutas regionais, ela destacou a importância de preservar a cultura e aproximar as pessoas da natureza. A diversidade é uma das marcas do seu cultivo. "Todo dia eu saio para a rua, vejo uma diferente, aí eu pego para mim”, contou. Entre todas as espécies, as orquídeas, pela sua beleza, ocupam um lugar especial.

A paixão pelo cultivo, segundo a autônoma, nasceu ainda na infância, contrariando a ideia de que o hábito de plantar surge apenas na velhice. "Dizem que a gente só planta quando a gente está velho. Não. Desde criança, se a gente aprender, se os pais ensinarem, tudo que os pais ensinam, a gente aprende", afirmou. Inspirada pela mãe, Liria aprendeu desde cedo a cuidar e cultivar plantas, prática que mantém até hoje. "Onde eu vou, eu cultivo e pego, planto, compro. Às vezes eu compro pela internet, como umas orquídeas. E a gente vai cuidando, vai colecionando as plantas", contou Liria Freitas.

Entre os cultivos mais recentes estão mudas de maracujá e graviola, além de sementes de jaca manteiga. Para ela, preservar essas espécies é também uma forma de manter viva a cultura regional. “A gente tem que guardar a nossa cultura. Não deixar morrer nossas frutas”, destacou. Além de comprar as mudas, ela também planta em casa, como ocorreu com maracujá. Liria define a relação como uma forma de proximidade com a natureza: "É ter a natureza mais próxima de nós, ter o ar puro que as plantas trazem, a felicidade de cada flor, de cada planta que dá uma flor”. Ela descreveu o prazer de acompanhar o desenvolvimento diário das plantas, o florescimento e o impacto estético que elas trazem para o ambiente. "As plantas enfeitam a vida da gente. Plantei a alegria", disse.

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Além do cultivo doméstico, Liria também tem o objetivo de arborizar praças do bairro, Marambaia, com foco especial no plantio de árvores frutíferas regionais. A ideia, segundo ela, é proporcionar às crianças o contato direto com a natureza, mesmo em áreas urbanas. “Já pensou as crianças crescerem e verem na própria natureza uma fruta para colher, para ver como é que se desenvolve? É maravilhoso. Não é só o asfalto, a gente tem que trazer também a natureza", disse.

Durante a entrevista, Liria contou um episódio curioso envolvendo um pé de maracujá. Evangélica, ela relatou que, ao perceber que a planta estava morrendo, conversou com ela em tom de brincadeira e fé. “Eu disse: 'Senhor, vou ter que plantar outras mudas’. E falei com ela: ‘Você não vai dar maracujá, porque senão eu vou ter que te cortar’. Quando eu olhei, encontrei um frutozinho já de maracujá”, lembrou. Para ela, o episódio simboliza a satisfação de ver uma planta produzir, desde a semente até o fruto. Entre as espécies que pretende usar na arborização das praças está a Bougainvillea, escolhida pela beleza e variedade de cores. “Ela é linda, dá flores maravilhosas, cada dia uma tonalidade diferente”, afirma.

O plantio de árvore e o significado para os amazônidas

Professora titular da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Gracialda Costa Ferreira disse que plantar árvore, para os amazônidas, "significa respeito, comprometimento e responsabilidade com o planeta - evidência que nos inserimos como elementos das florestas e assumimos a responsabilidade com a continuidade; como educadores significa que estamos repassando valores culturais, sociais e ambientais que fortalecem nosso compromisso e responsabilidade com o meio ambiente e com uma sociedade igualitária, humana, responsável e justa. Cada muda de árvore plantada nos traz a certeza de que a vida terá continuidade com qualidade e justiça climática".

Atualmente diretora do Instituto de Ciências Agrárias, a professora afirmou que plantar não é um ato simples, apesar de ter sido, ao longo dos anos e de muitas atitudes simplificado - o plantio é uma das etapas de um processo de formação ambiental. Para plantar, explicou, é preciso esperar o amadurecimento e o tempo certo para colher, manejar/processar, limpar as impurezas das sementes, preparar o espaço de semeio, preparar o solo/substrato com os nutrientes e a saúde necessária, colocar a semente no berçário para que ela possa germinar, irrigar diariamente, fazer a manutenção do espaço (berçário, saco de mudas ou tubetes), alimentar com nutrientes quando necessário e saber o tempo certo de levar ao local definitivo.

"Quando plantada, precisa ser cuidada com alimento e irrigação, podas, e outras intervenções necessárias até que ela se torne adulta (capaz de gerar descendentes - produzir sementes). Acompanhar cada etapa/fase é que faz com que o ser humano tenha sentimentos com este elemento e entenda o papel da árvore para a vida - é uma experiência transformadora”, disse.

Escolha do local é um fator essencial

Mais: coletar sementes sadias de plantas sadias; preparar o espaço de produção das mudas, desde o berçário (sementário) até sua destinação final de forma saudável, para evitar ataques de doenças e pragas; preparar o solo/substrato de acordo com as exigências nutricionais de cada espécie ou grupo de espécie; escolher o recipiente (saco ou tubete) adequado com as exigências da espécie ou grupo de espécies; manter a irrigação e a nutrição do solo e da muda ao longo de todo o período de viveiro; fazer o controle fitossanitário periódico.

Ainda segundo a professora, a escolha do local definitivo de plantio é um fator essencial. “É preciso ter as informações do local como: tipo e qualidade do solo, disponibilidade de água, presença de outras plantas, uso do local atual e futuro, presença de pessoas e animais", disse. Com essas informações, afirmou, é possível decidir qual espécie é mais adequada considerando: o porte da planta em condição adulta, o sistema radicular, a arquitetura de copa, a desfolhagem, tamanhos e tipos de frutos, floração e ciclo de vida da planta. Estas informações tornarão a arborização e o paisagismo ferramentas efetivas na melhoria do clima e do ambiente, evitando prejuízos e danos e ajudarão a gestão dos espaços, reduzindo custos e garantindo qualidade".

A professora Gracialda Costa Ferreira disse que o plantio é mais uma etapa do processo de arborizar. A nutrição, a irrigação, o controle fitossanitário são exigências continuas das plantas e devem fazer parte de um processo de gestão para a manutenção da arborização, acrescentou. “Além disso, podas e controle da arquitetura de cada espécie e de cada planta são essenciais, assim como o respeito com cada uma destas plantas”, disse.

“Afinal, uma árvore é capaz de fornecer oxigênio puro para 7 pessoas ao longo do seu ciclo de vida e extrair da atmosfera o gás carbônico de até 5 pessoas em suas tarefas rotineiras. Cada árvore saudável pode agregar saúde e garantir qualidade vida. Cada pessoa deve ter o compromisso com a arborização dos espaços urbanos, rurais etc., entendendo o seu papel no equilíbrio climático e com isso permitir que tenhamos esperança em um futuro”, afirmou a professora, que pesquisa e atua principalmente nos seguintes temas: Amazônia, fenologia florestal, inventários florestais e levantamentos botânicos, recuperação de áreas degradadas e modelagem ambiental.

"Plantar árvore é trabalhar o sentimento de perpetuação da vida", diz professor

O professor Seidel Santos, coordenador do curso de Engenharia Florestal da Universidade do Estado do Pará (UEPA), diz que o ato de plantar árvores esteve presente em várias culturas ao longo da história e evolução humana. As árvores sempre foram componentes importantes na vida das populações humanas para diferentes fins (medicinais, ritualísticos etc.). “Plantar árvore é trabalhar o sentimento de continuidade e perpetuação vida. Na Amazônia, onde a floresta é considerada antropogênica (ou seja, não existe floresta sem a presença do homem), essa relação é antiga. Estima-se que aproximadamente 13 mil anos atrás existiam cerca de 5 milhões de pessoas habitando a Amazônia e manejando essa floresta”, afirmou.

Ele explicou que muitas espécies foram domesticadas e as antigas populações indígenas coletavam sementes e plantaram inúmeras espécies de árvores que resultou nas diferentes formações florestais atuais. “Nesse sentido, nos tempos atuais, plantar árvores principalmente dentro dos ambientes urbanos é tentar aproximar as pessoas aos ambientes naturais, uma conexão com a floresta, agregando o conceito de saúde única e de sustentabilidade”, disse.

O professor também comentou de que forma a experiência de plantar e acompanhar o crescimento de uma árvore pode despertar no ser humano sentimentos de pertencimento, responsabilidade com o futuro e conexão com a natureza, tornando-se uma vivência transformadora ao longo da vida. “Esse sentimento precisa ser trabalhado sobretudo, nas novas gerações, é necessário aumentar as informações sobre a importância das árvores. No momento de plantar uma árvore é necessário saber que se trata de um material genético, é um ser vivo e que vai necessitar de cuidados para seu desenvolvimento e para poder desempenhar suas atividades e funções no ambiente”, disse o professor Seidel Santos. Por isso, afirmou, é importante que no momento de doação de mudas, em épocas especiais como semana do meio ambiente ou outras datas alusivas as questões ambientais a pessoa que irá receber uma muda de árvore deve ser munida de todas as informações possíveis sobre aquela espécie.

Espécies não devem produzir frutos grandes e pesados, diz professor

Sobre as orientações práticas essenciais para o plantio correto de uma árvore, o professor Seidel Santos disse que a principal informação é sobre a escolha da espécie, priorizar espécies nativas amazônicas. “A cidade de Belém possui a lei de arborização urbana e o manual técnico para arborização da cidade Belém”, disse. De maneira geral, explicou, as espécies não devem produzir frutos grandes e pesados, deve possuir floração interessante, evitar espécies com raízes muito longas evitando assim danificar as calçadas. O solo deve ser preparado de maneira que não esteja muito compactado e deve ser bem drenado.

“A escolha da espécie deve considerar a área de ocorrência natural de cada espécie, deve-se evitar trazer espécies de tipologias climáticas diferentes, mesmo que seja da Amazônia. Cada espécie possui sua demanda por água e espaçamento adequado, por fim considerar os aspectos culturais de cada região e cidade, trazer para o ambiente urbanos árvores com valor cultural, memórias afetivas e principalmente espécies que possam oferecer serviços ambientais aos centros urbanos”, destacou.

Ainda segundo ele, o cuidado e o manejo são práticas que devem ser realizadas principalmente nas fases iniciais do desenvolvimento dessa planta, a rega é elemento essencial para o crescimento da planta, cuidado com pragas e doenças devem ser monitorados. “Cada espécie possui demandas específicas, dessa forma o entendimento que uma arvore é um ser vivo e deve ser acompanhado e monitorado para seu pleno crescimento”, afirmou.