Emagrecimento acelerado pode provocar queda de cabelo; saiba como prevenir
Queda dos fios costuma ser temporária e pode ser evitada com acompanhamento médico e nutricional
A queda intensa de cabelo tem se tornado uma das principais queixas entre pessoas que utilizam medicamentos para perda de peso, como Mounjaro (tirzepatida), Ozempic e Wegovy. O tema ganhou ainda mais repercussão após um estudo recente da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, identificar um aumento na incidência do problema entre usuários dos chamados agonistas do GLP-1.
A pesquisa analisou dados de aproximadamente 550 mil pacientes e observou uma maior frequência de queda capilar entre pessoas que utilizavam esses medicamentos. Apesar da associação, especialistas destacam que a perda dos fios, na maioria dos casos, não é provocada diretamente pela medicação, mas pelas mudanças metabólicas provocadas pelo emagrecimento rápido.
A presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional Pará (SBD-PA), dermatologista Heliana Goes, explica que o fenômeno é conhecido como eflúvio telógeno agudo, uma resposta do organismo ao estresse causado pela rápida perda de peso. Segundo a especialista, é por isso que a perda dos fios costuma aparecer entre dois e quatro meses após o início do emagrecimento acelerado.
“Quando o organismo passa por uma perda de peso acentuada em um curto espaço de tempo, seja por dietas muito restritivas, cirurgia bariátrica ou pelo uso de medicamentos potentes para controle do apetite, ele entra em um estado de estresse metabólico. O corpo passa a priorizar órgãos vitais, como cérebro, coração e fígado, e deixa o cabelo em segundo plano metabólico. Como consequência, muitos folículos abandonam precocemente a fase de crescimento e entram na fase de queda”, explica.
Deficiências nutricionais estão entre os principais fatores
Além do estresse metabólico, as alterações na alimentação durante o processo de emagrecimento favorecem o aparecimento de deficiências nutricionais que comprometem a saúde capilar.
Segundo a nutricionista Camila Pazello, o cabelo é um dos primeiros tecidos a demonstrar que o organismo está com falta de nutrientes. “O cabelo é um tecido de crescimento rápido e, por isso, é um dos primeiros a sofrer quando o organismo percebe alguma carência nutricional. O problema geralmente está relacionado à perda de peso acelerada, à redução importante da ingestão calórica e às deficiências nutricionais decorrentes desse processo”, afirma.
Entre as carências mais frequentemente associadas à queda de cabelo estão os baixos níveis de ferro, especialmente quando há redução da ferritina, proteína responsável pelo estoque do mineral no organismo. A deficiência de zinco também compromete a síntese das proteínas que formam os fios.
Outro ponto de atenção é a ingestão insuficiente de proteínas. Como o cabelo é formado principalmente por queratina, dietas muito restritivas podem resultar em fios mais finos, quebradiços e maior queda.
Também estão entre os nutrientes importantes para a saúde capilar as vitaminas do complexo B, especialmente biotina e vitamina B12, além da vitamina D, frequentemente associada ao afinamento dos fios quando apresenta níveis reduzidos.
A nutricionista Stefania Costa, especialista em emagrecimento, longevidade e performance, reforça que o medicamento não costuma ser o responsável direto pelo problema. “A queda de cabelo observada durante o emagrecimento, especialmente em pacientes que utilizam análogos de GLP-1, geralmente não é causada pelo medicamento em si, mas pela perda de peso rápida associada à ingestão insuficiente de nutrientes. Alcançar a meta proteica também é extremamente necessário, já que a proteína é indispensável para a formação capilar”, comenta.
A queda costuma ser temporária
Apesar da preocupação de muitos pacientes, a dermatologista Heliana Goes afirma que o quadro tende a ser reversível na maioria dos casos. “O Mounjaro e outros medicamentos da mesma classe não atacam diretamente a raiz ou o folículo do cabelo. O gatilho da queda é a própria restrição alimentar severa e a velocidade da perda de peso que eles proporcionam”, diz.
Ela ressalta, porém, que pessoas que já apresentam algum tipo de alopecia, como a androgenética, podem perceber um agravamento do quadro. “Nesses casos, o eflúvio telógeno não provoca calvície definitiva, mas pode acelerar ou tornar mais evidente uma condição preexistente que antes passava despercebida”, fala.
Segundo a médica, a queda costuma diminuir entre três e seis meses após a estabilização do peso e o ajuste da alimentação. Já o crescimento de novos fios normalmente é observado entre seis e doze meses após o pico da queda, acompanhando o ciclo natural do folículo capilar.
Alimentação equilibrada é fundamental
Mesmo com a redução do apetite provocada pelos medicamentos, especialistas alertam que a prioridade deve ser manter uma alimentação rica em nutrientes.
As proteínas de alto valor biológico, presentes em carnes magras, ovos, peixes, leguminosas e soja, devem estar presentes nas principais refeições do dia. Também são recomendados alimentos ricos em ferro e zinco, como carnes vermelhas, fígado, sementes de abóbora, castanhas e vegetais verde-escuros.
O consumo de vitamina C junto às fontes vegetais de ferro ajuda a aumentar sua absorção pelo organismo. Já alimentos ricos em ômega-3, como sardinha, salmão, chia e linhaça, contribuem para a saúde do couro cabeludo ao reduzirem processos inflamatórios.
Camila Pazello destaca que a qualidade da alimentação é mais importante do que apenas reduzir calorias. “O segredo é investir na densidade nutricional da dieta. É importante fracionar o consumo de proteínas ao longo do dia, manter um prato colorido, garantir boa hidratação e evitar o excesso de alimentos ultraprocessados, que podem prejudicar a saúde do couro cabeludo”, alerta.
Stefania Costa acrescenta que o acompanhamento profissional também é essencial para controlar a velocidade do emagrecimento. “O foco não deve ser apenas comer menos, mas comer melhor. O nutricionista acompanha a velocidade da perda de peso para evitar perda excessiva de massa muscular, deficiências nutricionais e outros efeitos adversos, como a queda de cabelo”, afirma.
Quando procurar um médico
Embora a queda de cabelo após o emagrecimento seja considerada comum, Heliana Goes alerta que alguns sinais indicam a necessidade de avaliação por um dermatologista.
Entre eles estão a queda intensa por mais de quatro meses consecutivos, surgimento de falhas visíveis ou alargamento da risca do cabelo, além de sintomas como coceira, vermelhidão, descamação ou dor no couro cabeludo. Fadiga, unhas quebradiças e palidez também podem indicar deficiências nutricionais importantes que precisam ser investigadas.
Suplementação deve ser individualizada
Embora suplementos possam fazer parte do tratamento, especialistas alertam que eles não devem ser utilizados por conta própria. Antes da suplementação, a recomendação é realizar exames laboratoriais para identificar possíveis deficiências nutricionais. O excesso de determinados nutrientes, como vitamina A e selênio, por exemplo, também pode provocar queda de cabelo.
Quando há deficiência comprovada, suplementos podem ser prescritos para corrigir os níveis de vitaminas, minerais e proteínas. Em alguns casos, Whey Protein e colágeno também podem integrar o tratamento, sempre com indicação de um nutricionista. “A suplementação deve ser individualizada. Muitas vezes, o paciente acaba investindo em produtos de que não precisa, enquanto deixa de tratar exatamente a deficiência que está causando o problema”, conclui Stefania Costa.
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