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Dia de Iemanjá: veja como será a homenagem para a 'Rainha das Águas' em Belém

Nesta segunda-feira, 2 de fevereiro, é comemorado o Dia de Iemanjá. Essa data em homenagem a essa orixá, inclusive, conta com dois dias de celebração: 2 de fevereiro e 8 de dezembro

Eduardo Rocha

A presença cultural e religiosa da orixá Iemanjá na vida dos brasileiros é bem maior do que se costuma pensar. A Rainha do Mar e também protetora de quem vive e trabalha no mar, além dos lares, crianças e casamentos tem uma relação profunda com a religiosidade e cultura dos cidadãos, desde o começo da história dos negros escravizados no Brasil até os dias atuais, mediante o entrelaçamento das religiões afro-brasileiras e o catolicismo. Nesta segunda-feira, 2 de fevereiro, é comemorado o Dia de Iemanjá. Essa data em homenagem a essa orixá, inclusive, conta com dois dias de celebração: 2 de fevereiro e 8 de dezembro.

Em Belém, a partir das 19h, as homenagens à Rainha das Águas vão contar com a mobilização de mais de 100 pais de santo da Umbanda, do Candomblé e do Tambor de Mina. Eles se reunirão na área de entrada do Terreiro de Rei Sebastião e Toyá Jarina, na avenida Augusto Montenegro, para saudar a Mãe dos Orixás. 

Duas datas para celebrar

O professor mestre em Ciências da Religão, Danilo Barbosa, explica sobre as duas datas em homenagem à Iemanjá. Ele destaca que a associação entre os orixás dos panteões africanos com os santos e santas da igreja católicas aconteceu devido à escravização dos diversos povos africanos e ao deslocamento forçado destes escravizados para o Brasil, que foi colônia de Portugal durante 322 anos. Ao chegarem no Brasil, os povos africanos eram misturados e não viviam separadamente como acontecia no continente africano. 

"A estratégia de botar diversas etnias juntas era utilizada para evitar a organização dos povos e de possíveis rebeliões. Então, no mesmo espaços, haviam iorubás, angolas, jejes, bantos, congos e demais etnias, apenas para citar as mais conhecidas", diz.

"O resultado do encontro de diferentes expressões religiosas forma o que conhecemos como sincretismo religioso. Porém, a partir do encontro das crenças africanas com o cristianismo português passamos a vivenciar a imposição, por meio da força e das armas, de uma nova religião aos povos que já tinham sua espiritualidade. Então, aplica-se a estratégia para destruir as características culturais e religiosas dos povos africanos escravizados, a partir da proibição dos cultos aos seus deus e divindades, permitindo apenas que fossem cultuados os santos e santas católicas".

Como pontua Danilo Barbosa, "para que os escravizados pudessem permanecer com seus rituais religiosos, foi necessária a associação entre seus sagrados e as imagens católicas". "A exemplo disso, tempos Iemanjá, orixá Iorubá, conhecida como Rainha do Mar. As características populares desta orixá estão ligas ao mar, aos pescadores, à proteção dos marinheiros, e isso fez a associação entre a orixá e a santa católica Nossa Senhora dos Navegantes, que, desde o século XV, já era reconhecida por proteger os navegadores portugueses que se lançavam ao mar e ter se tornado a padroeira dos navegantes.
Essa associação fez com que a data de 2 de fevereiro se tornasse a data com mais apelo popular. Por isso, temos grandes festivais de Iemanjá em todo o Brasil; o mais conhecido é o de Salvador (BA)".

Danilo diz que em Belém a data de 2 de fevereiro não tem o mesmo apelo social que tem na Cidade de Salvador. Portanto, as casas afro-religiosas nas orlas das praias e cidades não têm tantas movimentação como no mês de dezembro. "O maior festival de Iemanjá que temos aqui acontece há mais de 50 anos na data de 8 de dezembro (Dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição), no distrito de Outeiro, que fica há 28km do centro da cidade de Belém. O festival do dia 8 de dezembro coincide com o Festival da orixá Oxúm, associada à santa católica Nossa Senhora da Conceição. Oxúm é reverenciada como orixá das águas doces, dos rios e, também, das cachoeiras. Logo, é comum observarmos terreiros que entregam suas oferendas em homenagem às duas orixás no mesmo ritual, louvando Iemanjá e Oxúm".

Origens

Iemanjá é uma das divindades mais populares do país, atraindo inclusive quem não segue as religiões de matriz africana. Sobre essa transversalidade do orixá, Danilo Barbosa destaca que o Brasil é um país que caminha junto com diversas influências religiosas, mesmo que boa parte da população não perceba em seus costumes ou, por racismo religioso, não reconheça que o costume que carrega na vida é de origem afro-religiosa. "Por exemplo, usar branco na sexta-feira, na virada do ano, pular as sete ondas nos primeiros minutos do ano novo".

"Diante desta realidade social e de sincretismo, muitas pessoas seguem as tradições sem conhecer suas origens. Então, lançam rosas e bebidas nas águas em fevereiro e dezembro, usam branco na virada do ano e outras ações que estão ligadas às religiões de matrizes africanas; em casos mais extremos, porém não raros, podendo até associar Iemanjá mais com a Igreja Católica do que com os terreiros afro-religiosos".

Danilo pontua que as características de Iemanjá estão para além das casas religiosas. "Quem se interessa por conhecer a história da Orixá sabe que a ela não está ligada somente aos mares, mas tem um grande apelo pela figura materna, de acolhimento e amamentação, que nutre seus filhos e não os deixa desamparados. Esse colo simbólico e afetivo. Há a característica feminina. Para as filhas que dialogam com os assuntos feministas, se comparam com as águas de Iemanjá, que podem ser calmas, mas que podem se agitar se forem provocadas".

A grafia do nome de Iemanjá com "y" ou "i" é explicada pelo professor. "A explicação sobre I e Y está na tradição da escrita, onde quando se inicia a escrita com I estamos escrevendo a partir da língua portuguesa, porém quando escrevemos com Y, estamos tendo como referencia a escrita em Iorubá, onde o nome de Yemanjá, onde a escrita é Yemọja. O nome Yèyé (mãe), ọmọ (criança) e ẹja (peixe), significando “mãe cujo filhos são peixes".

Homenagem e união em Belém

Sobre a programação no Terreiro de Rei Sebastião e Toyá Jarina, na avenida Augusto Montenegro, o pai de santo Elivaldo de Oxalá deu mais detalhes. "Em todo o Brasil, se comemora o Dia de Iemanjá em 2 de fevereiro, e nós, aqui, em Belém, comemoramos em 8 de dezembro. Mas, vamos aproveitar o 2 de fevereiro para prestar a nossa homenagem a ela e reforçar a união entre as religiões afro-brasileiras", detaca.

Na reunião dos pais de santo em frente à estátua de Iemanjá, com 12 metros de altura, serão tocados tambores e cumpridas as obrigações, com champanhe, velas e flores ao orixá - ela é padroeira dos pescadores, jangadeiros e marinheiros, bem como protetora dos lares, das crianças, das gestantes, dos partos e do casamento. Na homenagem à Rainha das Águas, serão entoados cânticos e encaminhadas orações e pedidos à Mãe de Todas as Cabeças.