Deixar cães e gatos sozinhos por longos períodos pode afetar a saúde, alerta especialista
Em Belém, ainda não existe legislação específica que trate do tempo máximo em que um animal pode permanecer sozinho em residências. No entanto, especialistas alertam para negligência à saúde
Recentemente, em Santos, no estado de São Paulo, passou a vigorar uma lei municipal que proíbe deixar cães ou gatos sozinhos por mais de 36 horas em imóveis, incluindo essa prática como infração no Código de Posturas e prevendo multa para os tutores que descumprirem a regra. Já em Belém, ainda não existe legislação específica que trate do tempo máximo em que um animal pode permanecer sozinho em residências. No entanto, especialistas alertam que deixar pets desacompanhados por longos períodos pode configurar negligência e afetar a saúde.
Quanto às atuais medidas no município para combater abandono, negligência e outras práticas de maus-tratos, a Secretaria de Proteção e Defesa Animal (Sepda) detalhou à reportagem do Grupo Liberal que tem tem intensificado as medidas de combate ao abandono e maus-tratos contra animais, especialmente com a promulgação da Lei nº 10.271, em janeiro de 2026, “que atualizou e endureceu as regras de proteção animal no município”.
Ainda de acordo com a gestão municipal, a lei ampliou a definição de maus-tratos, incluindo práticas como confinamento e acorrentamento, e fortaleceu as penalidades administrativas e a fiscalização. “As multas por maus-tratos podem ser severas, visando coibir o abandono de animais doentes, atropelamentos com fuga e negligência em imóveis. A nova legislação garante, ainda, o direito de animais de rua receberem água e comida em áreas comuns de condomínios, punindo tentativas de impedimento”, detalha a Sepda.
Riscos de saúde e segurança
Além de riscos com a segurança, deixar um pet sozinho por longos períodos pode trazer impactos ao bem-estar do animal, como alerta a médica veterinária Angel Macedo, de Belém. Segundo ela, a ausência prolongada pode desencadear estresse e ansiedade, com sinais como agressividade. “Apesar de algumas pessoas acreditarem que felinos são totalmente independentes, a verdade é que os cães e gatos, assim como nós, são animais sociáveis e, por isso, precisam da nossa companhia e supervisão”, explica.
E, em meio à rotina do dia a dia, é importante atentar-se aos períodos em que os animais ficam sem a supervisão dos tutores. “O tempo recomendado para deixar o pet sozinho em casa é de 4h, sendo no máximo 8h. Naturalmente, esse tempo sozinho depende de vários fatores, como idade, raça, e doenças pré existentes, e se há estímulos e espaço adequado para o gasto de energia do pet”, relata e veterinária.
Sinais de alerta
Ao ficar muito tempo sozinho, alguns sintomas de alerta podem ser percebidos: “Os sinais de estresse e a ansiedade podem surgir de modo isolado ou associado, sendo eles: estresse; agressividade; hiperatividade; latidos excessivos; e comportamento destrutivo, com móveis, brinquedos e pote de ração. E ainda, ansiedade, com lambedura excessiva, principalmente nas patas dianteiras; procurando atenção em excesso, como se estivesse ‘carente’; tremedeira, como se estivesse com frio; diminuição ou falta de apetite; e desânimo”, pontua a médica veterinária.
Segundo a veterinária, filhotes exigem muito mais atenção por conta das frequentes refeições e da fase exploratória, enquanto animais idosos demandam monitoramento constante de saúde. Ela também enfatiza que algumas raças — como Lhasa, Shih-tzu, Dachshund e Pinscher — tendem a ser mais apegadas aos tutores, ao passo que cães de porte médio ou grande costumam ser mais sociáveis com outros animais. “Para deixar um pet sozinho por um período de tempo determinado, o ideal é preparar o ambiente (casa ou apartamento), ou então deixá-lo em locais especializados, como hotel pet, ou contratar petsitter. Os riscos da falta de preparo do local podem gerar tanto acidentes domésticos como risco de envenenamento”, pontua Angel Macedo.
E antes de se ausentar, o tutor deve planejar com antecedência como o pet será cuidado durante o tempo fora. Alguns dos cuidados, segundo a médica, são: “Ter atenção a ambientes com fios expostos, produtos de limpeza acessíveis, plantas tóxicas, janelas sem telas ou piso liso que cause quedas podem causar ferimentos graves ou fatais”. “Além disso, pets que escapam ou que possuem acesso a rua correm riscos de atropelamento, envenenamento, doenças transmissíveis (cinomose, esporotricose) e brigas com outros animais”, acrescenta a veterinária.
“Quanto mais jovem ou idoso o pet, menor o tempo recomendado de deixá-lo sem supervisão. Filhotes são curiosos, e gostam de brincar, explorar, provar novos sabores e roer objetos e móveis. Por isso, deve-se evitar que ele tenha acesso aos produtos de limpeza, plantas e lixeiras. Fornecendo petiscos desidratados para entretenimento, vai evitar a maioria dos acidentes domésticos”, detalha Angel.
No caso dos pets com idades mais avançadas, ela reforça: “Quanto aos idosos, realizar acompanhamento médico veterinário e laboratorial ajuda a prevenir e monitorar doenças existentes É comum surgir doenças como cegueira, enfermidades cardiológicas e/ou articulares. Por isso, preparar um ambiente seguro com cercadinhos, piso antiderrapante e tapete ou colchão para aquecê-lo, e baixo estímulo de sons, são estratégias para oferecer um ambiente seguro”, ressalta.
Adaptação na rotina
Para evitar qualquer tipo de risco e contratempo com os pets, a profissional de relações públicas Aline Maia, 48, de Belém, reorganiza e adapta compromissos e viagens para que seus três cães — Tom, um poodle de 9 anos, Docinho (SRD, de 15 anos) e Albert Einstein (bulldog, de 4 anos) — não fiquem desacompanhados. Para ela, essa é uma forma de afeto, responsabilidade e segurança. "Geralmente no dia a dia, eles ficam sozinhos sem problema nenhum. Se eu tiver que sair, não tem problema porque um tem o outro e eles já estão acostumados. Agora, quando nós viajamos, geralmente pagamos alguém para cuidar deles durante o período que estamos fora", explica Aline.
“Isso porque achamos muito melhor ter alguém em casa, sem tirar eles do ambiente a que já estão acostumados. A rotina deles, quer queira quer não, é igual a de uma criança, que tem rotina: hora de almoçar, hora de jantar, hora de passear, hora de dormir. Tem o fato de que a gente já vai sair de casa, já vão sentir a nossa falta. E tirá-los do ambiente de casa pode ser ruim. A gente preserva para que fiquem em casa”, acrescenta a tutora.
Aline enfatiza que, para ela, o bem estar dos pets é prioridade, porque com ausência dos tutores eles apresentam alguns sintomas. “O Tom não come e fica muito triste se o levarmos para um lugar que não seja o ambiente dele. Já a Docinho, por ser uma cachorrinha resgatada, é mais arisca - não agressiva, mas no sentido de que está se acostumando aqui. E se a tirarmos para outro ambiente, ela sentirá novamente o abandono. Já Albert Einstein é mais ‘banda voou’”, comenta Aline.
Ela ainda conta que, em alguns momentos, precisou abdicar de viagens para que pudesse ficar em casa cuidando dos pets. “Para mim, não é um peso. Há muita gente que adota por impulso, por isso que tem muita abandono no final de ano e em julho. Eu cresci sabendo da importância da responsabilidade de ter um pet, dessa preocupação de viajar e deixá-los bem”, observa Aline ao criticar atos de maus-tratos.
Como denunciar maus tratos
Maus-tratos a animais é crime, e as ocorrências podem ser registradas pelo número 181, disponível 24 horas, ou diretamente à Divisão Especializada em Meio Ambiente e Proteção Animal (Demapa) da Polícia Civil, pelo telefone (91) 3238-1225. De acordo com a legislação brasileira, maus-tratos a animais incluem situações como abandono, falta de alimentação e água, agressões físicas, manter o animal em espaços inadequados, negar atendimento veterinário quando necessário, além de práticas de exploração ou violência que causem dor e sofrimento. Qualquer uma dessas condutas é passível de denúncia e responsabilização criminal.
Quanto tempo o pet pode ficar sozinho e como mantê-lo seguro
TEMPO SEGURO SOZINHO:
⮕ Ideal: até 4 horas
⮕ Máximo: 8 horas
⮕ Atenção: filhotes e idosos devem ficar menos tempo sozinhos.
QUANDO PRECISAR VIAJAR:
⮕ Planejar com antecedência
⮕Deixar o pet em hotel pet
⮕Contratar petsitter
⮕Pedir ajuda de alguém de confiança
PRINCIPAIS RISCOS SEM SUPERVISÃO:
⮕Acidentes domésticos
⮕Intoxicação ou envenenamento
⮕Fugir de casa
⮕ Atropelamentos
⮕ Contato com doenças transmissíveis
Fonte: Angel Macedo (médica veterinária)
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