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Com próteses, pacientes em reabilitação recuperam autonomia e qualidade de vida

Histórias de superação, como as da artesã Ana Maria Lima e do feirante Raimundo Jacques, mostram como o acesso a próteses pelo SUS devolve mobilidade, autonomia e qualidade de vida

Gabriel Pires

“Perdi parte da minha perna, mas, com a prótese, minha vida não parou e, mesmo depois da amputação, posso fazer tudo o que fazia antes.” O relato é da artesã Ana Maria Lima, 71, de Paragominas, no interior do Pará, que precisou amputar parcialmente o membro inferior há cerca de três anos devido a um problema de saúde. Com o uso da prótese, ela teve a oportunidade de retomar a independência e reconstruir a rotina após a perda do membro. Disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), esses dispositivos ajudam pessoas com deficiência a recuperar mobilidade, autoestima e inclusão social.

Mesmo diante do desafio da amputação, Ana Maria não esconde a felicidade com a vida. Ainda em meio à pandemia de covid-19, em 2023, teve uma inflamação na perna esquerda que levou a necessidade de amputar. Sorridente, ela relata que a prótese devolveu a autonomia que sempre teve. Embora o processo seja delicado para muitos pacientes, ao saber que a amputação seria necessária para preservar seu bem-estar e possibilitar o uso da prótese, ela não pensou duas vezes.

Atualmente, ela precisa ir regularmente ao Centro Integrado de Inclusão e Reabilitação (CIIR), onde recebeu a prótese, para acompanhamento de rotina. E relembra como tudo começou. “Tenho 71 anos bem vividos. Eu costurava muito. Às vezes ficava até tarde na máquina, até duas ou três da manhã, porque pegava muitas encomendas. Com isso, acabei deixando de fazer exercícios. E foi por causa da má circulação que perdi o pé. Eu fazia exames e tratamento, mas não sabia que não podia me machucar. Acabei ferindo o dedão e a ferida não cicatrizou. Então, precisei amputar o dedo”, diz a artesã.

“Depois disso, surgiu uma bactéria no local, que acabou se espalhando, e o pé ficou em uma situação muito grave. Os médicos disseram que eu poderia acabar dependente, acamada, dando trabalho e até afetando os meus rins. Então perguntei: ‘E se eu tirar?’. Eles disseram que, assim, eu poderia melhorar e até entrar no programa de prótese. Aí eu respondi: ‘Então cadê o papel e a caneta?’. Eu preferi preservar a minha saúde. Ainda hoje costuro depois de todo esse processo”, acrescenta Ana Maria.

Saúde e qualidade de vida

Hoje, com a prótese ela mantém a vida normal. Ela agradece por estar bem e com saúde. “Eu sou um exemplo. As pessoas veem em mim que eu mudei. Eu estou aqui, eu vou pra igreja, costuro, recebo minhas amigas em casa. Tem amiga que manda diarista na minha casa, mas quando ela chegou lá não faz nada, porque não tem para fazer. A roupa já tá na corda, minha comida já tá, o feijão já tá no fogo e eu tô na máquina costurando. Glória a Deus por isso. E eu tô muito feliz. Não mudou nada minha vida, só perdi o pé. Cuido das minhas plantas em casa”, conta Ana Maria.

Outro exemplo de superação é o do feirante Raimundo Jacques, 66, de Altamira. Na última semana, ele recebeu a prótese definitiva no CIIR e não escondia a alegria com o sucesso no processo de reabilitação. Ele precisou amputar a perna esquerda após desenvolver uma trombose, quadro que, segundo relata, surgiu como complicação depois de ter enfrentado uma forma grave de covid-19. Hoje, ele afirma ter recuperado qualidade de vida com o uso da prótese e segue a vida normalmente.

“Eu já tinha diabetes, mas isso foi uma sequela da covid-19. Eu peguei uma covid muito forte. Só não fui entubado, mas foi bem intensa. Quando eu melhorei, no outro dia apareceu a trombose. Começou a doer a minha perna aqui no meio e depois a dor desceu para o pé. Passei cerca de 20 dias sem dormir, só sentindo dor. Eu procurei atendimento, mas no início não resolveram nada. Depois consegui um leito no Hospital Abelardo Santos. Fiquei lá uns 20 dias, mas já não tinha mais jeito de reaproveitar o pé e foi preciso amputar. A dor só passou depois da amputação. Não teve remédio que conseguisse aliviar”, relata.

Para Raimundo, o uso da prótese permite que ele volte a trabalhar e garante inclusão. “Hoje eu trabalho vendendo farinha na feira, mas de forma mais leve. A gente sabe que não pode forçar muito. Às vezes a gente pensa que pode, mas não pode pegar peso nem carregar muita coisa com apenas uma perna. Mesmo assim, não dá para ficar dentro de casa. Se a gente fica muito parado, acaba piorando. Então eu vou para a feira, trabalho um pouco e sigo a vida. Hoje mudou completamente. Com a prótese, consigo me locomover, andar por aí e fazer minhas coisas”, diz Raimundo.

Serviço de referência

Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS), fornece prótese e diversos dispositivos assistivos, como as órteses. Em Belém, o CIIR, localizado no bairro de Val-de-Cães, é referência nesses tipos de atendimento, que muda a vida dos pacientes, como relata a coordenadora da Oficina Ortopédica do CIIR, Marjorie Damasceno. Ela explica que a prótese é indicada quando há amputação de um membro, diferente das órtese, utilizadas quando a pessoa ainda possui o membro, mas precisa de um dispositivo para auxiliar ou corrigir funções, acompanhando a fisiologia do corpo

“Quando o paciente perdeu aquele membro, a indicação é de prótese. As próteses podem ser transfemoral, desarticulação de quadril, transtibial, desarticulação de joelho e parcial de pé, para membros inferiores. Para membros superiores, temos articulação de ombro, transradial, transumeral, desarticulação de cotovelo e parcial de mão. Tudo depende da idade do usuário, e a necessidade é avaliada caso a caso, além da verificação se ele tem perfil para ser protetizado”, detalha a fisioterapeuta.

Acesso aos serviços

O Centro Integrado de Inclusão e Reabilitação é referência estadual na assistência de média e alta complexidade às Pessoas com Deficiência (PcD) visual, física, auditiva e intelectual. O acesso aos serviços é realizado por meio de encaminhamento das unidades de saúde, via Central de Regulação Municipal, que direciona os pedidos à Regulação Estadual. O perfil do usuário é analisado pelo Sistema de Regulação Estadual (SER).

E todo esse processo é realizado de acordo com o perfil e as particularidades de cada pessoa, conforme explica a coordenadora: “Não é apenas colocar uma prótese no membro amputado. Há pessoas que perderam o membro devido a esmagamento ou diabetes, por exemplo. Por isso, é necessário passar pelo médico fisiatra e também por avaliação cardiológica, para verificar se está tudo bem antes de iniciar o processo de protetização. Todas as pessoas podem estar aptas, desde que a saúde e a circulação estejam boas”, pontua Marjorie.

“A gente atende todo o estado do Pará. Temos uma fila de espera para retirada de medidas e, atualmente, a cada dois meses conseguimos realizar um mutirão para atender os pacientes que já foram avaliados. Hoje, a espera está em torno de seis meses entre a avaliação e a retirada das medidas. Depois disso, o material segue para São Paulo, onde a prótese é confeccionada. Entregamos próteses funcionais para que as pessoas tenham uma vida normal, em próteses funcionais, mas com boa qualidade”, acrescenta.

Atendimento essencial

Financeiramente, o atendimento garantido pelo SUS é essencial, como Marjorie observa: “Uma prótese depende do nível da amputação e também dos componentes utilizados, porque, dependendo desses componentes, pode ter variação de valor. Toda prótese possui diferentes componentes. E isso impacta no valor final. No atendimento particular, as mais simples podem variar entre R$ 15 mil e R$ 30 mil, podendo chegar a R$ 40 mil, dependendo do caso. Já próteses mais avançadas, como as biônicas, podem custar o equivalente ao valor de um carro”, observa a coordenadora do CIIR.

Para o dia a dia, após receber as próteses, é necessário cuidados reforçados. “A prótese tem que ser higienizada. E não pode lavar. Quando recebem a prótese conosco, os pacientes também recebem orientações de acompanhamento. Caso aconteça qualquer problema, eles devem agendar um retorno para que possamos realizar a manutenção. Existe também um período de adaptação”.

“Se surgir calo, ferimento ou qualquer desconforto, a orientação é suspender o uso da prótese para que possamos avaliar e verificar se é necessário fazer algum ajuste”. Todo dispositivo que a pessoa utiliza. E que não faz parte do próprio corpo, como costumo dizer, nunca será exatamente igual ao membro anterior. Por isso, ele pode precisar de ajustes, e estamos aqui justamente para realizar essas adequações sempre que necessário”, completa a fisioterapeuta.

Mudança de vida

A terapeuta ocupacional Aline Nogueira relata que recebe muitos depoimentos de pacientes sobre como o uso de próteses transforma suas vidas. Ela explica que o dispositivo, além de complementar o corpo, eleva a autoestima e melhora a execução das atividades de vida diária. “Eles têm ganhos na mobilidade funcional, na participação social, no lazer e, principalmente, no trabalho. Muitos relatam que querem ter a prótese justamente para voltar a trabalhar”, destaca a especialista.

“Com o dispositivo, também conseguem ter uma melhor participação na vida familiar, ir a lugares com a família e realizar suas atividades de vida diária. Trabalhamos com pacientes do interior, e muitos deles contam que conseguem retomar suas atividades, que às vezes são na roça. Na avaliação, muitas dessas pessoas chegam desmotivadas. Às vezes passam anos tentando conseguir uma prótese e não conseguem. Quando chegam aqui e fazemos a avaliação, elas já passam a ter esperança”, diz Aline.

O impacto também é percebido na saúde emocional e na autoestima, como lembra a psicóloga Rafaela Guedes. “A nossa autoestima e a nossa autoimagem estão intimamente ligadas. Uma depende da outra. Quando você perde uma parte de si, simbolicamente ou fisicamente, ocorre uma perda narcísica, uma perda na imagem do eu, e, necessariamente, há um abalo na autoestima. Com a perda de um membro, a pessoa também perde todas as funções que ele era capaz de executar”, relata.

“Então, há uma perda na autonomia e na liberdade de escolha. A recolocação de um membro, por exemplo, por meio de uma prótese, devolve à pessoa a capacidade de exercer funções que ela desempenhou, às vezes, durante toda uma vida, além da autonomia de fazer as coisas à sua maneira e no seu momento. Isso é um ganho inestimável para quem passou por esse tipo de perda”, analisa a psicóloga.

Acessibilidade

Para garantir acessibilidade e inclusão social, o Sistema Único de Saúde (SUS) produz e oferece gratuitamente coletes, palmilhas, calçados ortopédicos, cadeiras de rodas adaptadas, bengalas, muletas, andadores, aparelhos que corrigem alterações auditivas e diversos dispositivos para pessoas com deficiências físicas e outros tipos de deficiências. As órteses, próteses e meios auxiliares de Locomoção (OPM) são produzidas em 45 oficinas ortopédicas espalhadas por todo o país. A produção auxilia nas diversas modalidades de reabilitação: visual, auditiva, física e ostomias (processo cirúrgico que envolve o aparelho digestivo ou urinário).