Casos de bullying nas escolas do Pará crescem 53% em um ano, aponta Segup
Psicóloga alerta que o bullying pode caracterizar-se com violência psicológica, física e até mesmo de gênero
Os casos de bullying nas escolas do Pará tiveram um aumento de 53% entre 2024 e 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup). No ano passado, foram registrados 92 casos e 60 ocorrências em 2024. Nesta semana, em Belém, um menino, que terá a idade preservada em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), foi agredido por outros alunos do Colégio Marista, na quarta-feira (11/2), e reforçou a denúncia de episódios recorrentes de agressões físicas e bullying.
Segundo a psicóloga infantil Ana Júlia Moreira, de Belém, o bullying nas escolas se sustenta em duas bases principais: a violência psicológica - com xingamentos ou palavras para desqualificar o outro - e a violência física. A violência psicológica, mais comum, afeta a autoestima, a autoconfiança e o desenvolvimento cognitivo da criança ou do adolescente ao desqualificar suas características afetivas, psicológicas, comportamentais e posturais. E ainda, há o bullying motivado por preconceito ou por diferenças de gênero, como reforça a profissional.
“O bullying também está tendo em se tratando da pré-adolescência, ou idades mais próximas da pré-adolescência, nos indica um caráter de base de violência de gênero. E é quando se tem um grupo, de meninos ou meninas, que tentam se sobrepor a outro grupo, por exemplo. As meninas não conseguem fazer uma atividade que os meninos conseguem fazer melhor. Isso é violência de gênero como base, tentando despontar na infância para, depois, se consolidar um pouquinho mais na adolescência. São temáticas que nós temos que observar na infância para que sejam tratadas e não consolidadas na idade adulta”, relata a psicóloga.
Sinais de alerta
Ana Júlia alerta que a violência se manifesta quando ultrapassa o limite do que é considerado uma brincadeira saudável entre colegas, e destaca a necessidade de atenção a esses sinais de alerta, que não podem passar despercebidos. Segundo ela, é possível identificar o bullying pela presença de sofrimento, dor ou sintomas psicológicos de adoecimento, como depressão, ansiedade, isolamento, resistência em ir para a escola e mudanças de humor. Além disso, afirma que existem indicadores que sinalizam quando uma criança ou adolescente está sendo vítima desse tipo de violência.
“Em se tratando de uma brincadeira entre crianças e adolescentes, não existem pessoas feridas em suas emoções. E não existem pessoas desqualificadas em suas posturas ou em suas aparências físicas. Tudo isso é quando se percebe alguns sintomas clássicos envolvidos nessa vivência, como por exemplo, baixa produtividade escolar, alterações de sono, isolamento do contato social, alterações intensas de humor, transtornos de ansiedade, alterações no apetite e alteração também na maneira que aquela criança ou adolescente se motiva, se envolve, investe nas suas tarefas que antes eram tão prazerosas”, detalha a psicóloga.
Ana Júlia pontua, ainda, que, no ambiente escolar, seja em sala de aula ou durante as aulas de educação física e atividades esportivas, é preciso observar como as brincadeiras acontecem. Ela afirma que muitos educadores podem não perceber que algumas interações carregam um caráter de desqualificação, o que pode indicar situações de bullying ou preconceito envolvendo gênero, raça, cor, tamanho ou características físicas. Segundo a especialista, quando a brincadeira desqualifica alguém, é preciso atenção redobrada por parte da comunidade escolar.
“Quando isso envolve uma matemática de diferença de gênero, os meninos que só sabem jogar ou então as meninas só que sabem cantar, aí está havendo um preconceito de gênero. Quando um grupo está falando de raça, quando um grupo está falando de cor, de tamanho, quando um grupo está sinalizando algo que você tem de diferente na sua aparência física, então isso significa que pode estar, podemos estar falando de bullying. Então devemos ficar bem atentos”, alerta.
Escola também pode atuar no combate
A psicóloga comenta que, ao identificar o bullying, a escola precisa agir rapidamente, orientando alunos sobre ética, dor, sofrimento psicológico, preconceito e desqualificação. Ela explica que o sentimento de pertencimento é essencial no desenvolvimento emocional e que comportamentos recorrentes podem gerar sofrimento e impactos que, muitas vezes, só aparecem na vida adulta: “Precisamos trabalhar todas essas temáticas, exatamente sinalizando para as crianças que existe o desenvolvimento psicológico e social. Esse desenvolvimento psicológico e social vai ter a ver com a sensação de pertencimento que cada ser humano vai ter, de se sentir aceito ou não pelo grupo”.
“E os pais, diante da suspeita de que seu filho está sofrendo bullying, devem imediatamente acessar a escola e solicitar que o colégio acesse os responsáveis de quem está cometendo bullying, porque trata-se de um adolescente que está sendo agressor, o dominador, e de outro adolescente que é uma criança que está sendo o dominado e o agredido. É preciso acessar os dois lados porque tanto uma criança está em sofrimento e a outra está entrando em um processo de adoecimento. Quando o agressor faz o bullying, ele também não está se desenvolvendo de forma saudável, existe uma quebra, uma fragmentação da sua personalidade aí sendo construída”, acrescenta a especialista.
Impactos na saúde mental
O bullying recorrente e não identificado causa impactos profundos na saúde mental da vítima. Afeta a autoimagem, a autoconfiança e a percepção das próprias capacidades. Muitas pessoas desenvolvem mecanismos de negação, apesar de carregarem marcas duradouras. Entre as consequências estão isolamento, dificuldade de falar em público, prejuízos nas relações sociais e desafios para estabelecer vínculos afetivos e românticos. Por isso, Ana Júlia reforça a importância de ajuda profissional.
“Cada situação de bullying, assim como cada criança, adolescente, família e rede de apoio, terá características próprias. A decisão de retirar ou não a criança da escola depende muito de seus sentimentos. É fundamental que ela indique aos pais se ficará bem ao se afastar do agressor. No entanto, é necessário considerar se existe conflito interno, se ela também gosta dos amigos e do ambiente escolar e se possui uma história construída naquele espaço. Tudo isso precisa ser avaliado”, pontua.
A psicóloga ainda completa: “Quando a criança identifica que a escola se tornou um gatilho de ansiedade, a retirada é recomendada. Quando demonstra conflito, deve ser encaminhada para psicoterapia e tratamento, para que possamos identificar o melhor caminho e as estratégias adequadas para o seu cuidado”.
“Da mesma forma, é importante que os pais do agressor identifiquem quais estratégias devem adotar para lidar com essa criança ou adolescente que apresenta sinais de fragmentação da personalidade e pode estar desenvolvendo um caráter agressivo, violento, dominador e excludente”, completa a especialista.
Atuação das escolas
Com relação à atuação das escolas no combate à violência, a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) informou que mantém o Programa Escola Segura como política permanente para fortalecer a segurança e a cultura de paz nas escolas da rede pública estadual. A iniciativa integra ações preventivas, educativas e protetivas, com foco no bem-estar da comunidade escolar.
"O programa é executado pelo Núcleo de Segurança Pública e Proteção Escolar (Nuspe) e pela Assessoria de Convivência Educacional (ACE). Desde abril de 2023, o Nuspe atua em parceria com a Polícia Militar do Pará, com 640 policiais monitorando diariamente mais de 300 escolas em diversos municípios. Somente em 2025, foram realizadas mais de mil ações voltadas à promoção da cultura de paz", diz o comunicado.
"A ACE coordena protocolos de Bullying e Cyberbullying, Manejo de Crise em Saúde Mental e Autolesão, além de promover formações e o acompanhamento psicossocial nas escolas. Como parte dessa estratégia, 233 servidores foram formados como facilitadores de círculos restaurativos, fortalecendo práticas de diálogo, prevenção e mediação de conflitos na rede estadual", completa a Seduc.
Já o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Estado do Pará (Sinepe/PA) esclareceu que cada estabelecimento de ensino possui autonomia para desenvolver e implementar ações de enfrentamento ao bullying dentro do ambiente escolar, respeitando suas realidades e projetos pedagógicos.
“A entidade informa que, sempre que solicitada, disponibiliza apoio às escolas realizando palestras educativas e indicando especialistas para auxiliar no tratamento e na discussão do tema junto às comunidades escolares”, detalha o comunicado.
O Sinepe também detalha: “O sindicato reforça que repudia qualquer forma de violência, seja física ou psicológica, não apenas no ambiente escolar, e reafirma seu compromisso em fortalecer o debate, a conscientização e o combate a práticas que atentem contra a integridade e o bem-estar de crianças, adolescentes e profissionais da educação”.
Distribuição de casos no Pará
Além dos casos registrados no ambiente escolar, a Segup também divulgou um balanço de casos de bullying independentemente do local em que a violência foi praticada. Em 2025, foram 51 casos na faixa etária de 35 a 64 anos, uma redução em relação aos 28 casos registrados em 2024 para o mesmo grupo. De acordo com a secretaria, em 2025, a faixa etária de 12 a 17 anos foi a segunda com maior número de registros, totalizando 16. Já entre as vítimas de 6 a 11 anos, foram contabilizados 10 casos.
Entenda o perfil das vítimas de bullying no Pará
Faixa etária das vítimas em 2025:
• 35 a 64 anos: 51 casos
• 12 a 17 anos: 16 casos
• 30 a 34 anos: 12 casos
• 0 a 11 anos: 5 casos
• 25 a 29 anos: 3 casos
• 18 a 24 anos: 3 casos
• 65 anos ou mais: 2 casos
Faixa etária das vítimas em 2024:
• 35 a 64 anos: 28 casos
• 12 a 17 anos: 10 casos
• 30 a 34 anos: 9 casos
• 25 a 29 anos: 5 casos
• 18 a 24 anos: 5 casos
• 0 a 11 anos: 3 caso
Fonte: Segup
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