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Características do solo de Belém favoreceram percepção de tremor de terra, explica sismólogo da USP

Na capital paraense, a Defesa Civil Municipal registrou chamados em 10 edifícios localizados nos bairros da Pedreira, Jurunas, Cremação, Umarizal e Nazaré

Ana Laura Carvalho

Os tremores sentidos por moradores de Belém na noite da última quarta-feira (24), durante a partida entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo de 2026, foram provocados pelos terremotos registrados na Venezuela. A confirmação é do sismólogo José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), que explica que a combinação entre a força do terremoto e as características geológicas da capital paraense permitiu que o fenômeno fosse percebido a milhares de quilômetros de distância.

O Centro de Sismologia da USP realiza o monitoramento por meio de cerca de 100 estações distribuídas pelo Brasil e também utiliza dados de estações internacionais. Segundo José Alexandre, a revisão de possíveis eventos sísmicos costuma ser concluída em até 24 horas. O órgão também mantém uma página para recebimento de relatos enviados pela população, que auxiliam na confirmação e divulgação de atividades sísmicas registradas no país.

De acordo com o especialista, os dois eventos sísmicos registrados na Venezuela foram detectados claramente pelos equipamentos da Rede Sismográfica Brasileira. O primeiro teve magnitude 7,2 e, cerca de 40 segundos depois, ocorreu um segundo terremoto de magnitude 7,5. "Os tremores sentidos em Belém e em outras cidades do Norte do Brasil estão associados aos terremotos ocorridos na Venezuela", confirma.

Na capital paraense, a Defesa Civil Municipal registrou chamados em 10 edifícios localizados nos bairros da Pedreira, Jurunas, Cremação, Umarizal e Nazaré. Após vistorias realizadas por equipes de engenharia, o órgão informou que não foram identificadas rachaduras, fissuras ou qualquer dano estrutural nos imóveis. O monitoramento dos prédios continuará pelos próximos 15 dias.

Solo de Belém favorece percepção dos tremores

Embora o epicentro estivesse localizado a milhares de quilômetros, José Alexandre explica que terremotos de grande magnitude conseguem propagar ondas sísmicas por longas distâncias. No caso de Belém, outro fator contribuiu para que moradores percebessem o tremor. "A cidade está situada sobre a Bacia Sedimentar de Marajó. Regiões sedimentares tendem a amplificar ondas sísmicas, o que pode aumentar a percepção dos tremores", explica.

Segundo ele, essa amplificação faz com que vibrações relativamente fracas sejam percebidas com maior facilidade pela população, principalmente em determinadas estruturas.

Por que os prédios altos balançaram?

Grande parte dos relatos ocorreu em edifícios, especialmente nos andares mais altos. Moradores descreveram lustres balançando, sensação de movimento e oscilações leves em apartamentos.

De acordo com o sismólogo, esse comportamento possui explicação física. "Todo prédio possui uma frequência natural de vibração, semelhante a um pêndulo. Se as ondas sísmicas chegam com frequências próximas à frequência natural da estrutura, pode ocorrer um fenômeno semelhante ao ato de empurrar um balanço no ritmo certo: cada impulso aumenta o movimento percebido", aponta.

Apesar da sensação de balanço, o especialista reforça que isso não significa, necessariamente, que exista risco estrutural. "Lustres balançando ou a sensação de movimento não implicam necessariamente em danos estruturais. Terremotos distantes como este apresentam baixa probabilidade de causar danos estruturais significativos em edificações no Brasil”, assegura.

Essa avaliação é compatível com as inspeções realizadas pela Defesa Civil e pelo Corpo de Bombeiros Militar do Pará, que não encontraram danos estruturais nem registraram vítimas após as vistorias realizadas em Belém e Santarém.

Eventos como esse são raros no Pará

Segundo José Alexandre, relatos de terremotos distantes sentidos no Pará não são frequentes, embora existam precedentes em outras regiões brasileiras. "Relatos desse tipo são raros no Pará. Entretanto, existem registros de terremotos distantes sentidos em diferentes regiões do Brasil. Há precedentes em cidades como Manaus, Boa Vista e São Paulo”, exemplifica.

O especialista ressalta que a intensidade percebida diminui conforme aumenta a distância em relação ao epicentro. "A energia das ondas sísmicas diminui com o aumento da distância percorrida. Dessa forma, regiões próximas ao epicentro normalmente experimentam tremores significativamente mais intensos do que regiões localizadas a grandes distâncias”, explica.

Réplicas podem ser percebidas

Embora seja impossível prever terremotos com precisão, o sismólogo afirma que não se pode descartar a possibilidade de que réplicas do evento ocorrido na Venezuela também sejam sentidas em cidades da Região Norte.

Ele reforça que o Brasil continua sendo um país de baixa atividade sísmica por estar localizado no interior da Placa Sul-Americana, distante das bordas das placas tectônicas. "No Brasil, terremotos destrutivos são incomuns porque o país está localizado no interior da Placa Sul-Americana, distante das bordas das placas tectônicas. Entretanto, o episódio mostra algo importante: mesmo sem sermos um país altamente sísmico, ainda podemos sentir efeitos de grandes terremotos regionais ou registrar tremores locais”, destaca.

O que fazer se um novo tremor ocorrer

Caso um episódio semelhante volte a acontecer, José Alexandre recomenda que moradores mantenham a calma e evitem atitudes que possam aumentar os riscos.

Entre as orientações dadas pelo sismólogo estão não correr imediatamente para escadas durante o tremor, jamais utilizar elevadores, permanecer afastado de janelas, espelhos e objetos que possam cair e, se possível, proteger a cabeça e o pescoço sob uma mesa resistente ou próximo a elementos estruturais mais robustos.

Após o fim do tremor, a orientação é evacuar o prédio de forma organizada, seguindo as recomendações do condomínio e da Defesa Civil, além de observar sinais incomuns, como rachaduras recentes, portas deformadas, cheiro de gás, ruídos estruturais ou desprendimento de revestimentos.