Campanha da Fraternidade 2026: Belém tem Pastoral do Povo de Rua
Com o tema “Fraternidade e Moradia”, a abertura da programação começou no sábado (21) e continua neste domingo (22); o objetivo da Pastoral é atender pessoas em situação de rua, sendo presença junto a elas e incentivando o acesso às políticas públicas
Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a Campanha da Fraternidade 2026. A iniciativa convida à reflexão sobre o direito à moradia digna e a realidade habitacional no Brasil, especialmente diante do crescimento da população em situação de rua.
Na Arquidiocese de Belém, a abertura oficial da campanha começou no sábado (21) e continua neste domingo (22), com celebrações simultâneas nas oito Regiões Episcopais. A programação deve reunir fiéis de paróquias, pastorais, movimentos e novas comunidades em torno do debate sobre políticas públicas e ações concretas de enfrentamento ao déficit habitacional.
Em sintonia com o tema proposto para este ano, a Arquidiocese destaca a atuação da Pastoral do Povo de Rua em Belém. A iniciativa é coordenada pela missionária do Coração Eucarístico, Eugênia Costa, que explica que o objetivo principal da Pastoral é atender pessoas em situação de rua, sendo presença junto a elas e incentivando o acesso às políticas públicas.
Segundo a religiosa, a pastoral já possui mais de 20 anos de caminhada em nível nacional. Em Belém, porém, começou a se estruturar de forma mais efetiva a partir de abril de 2025, quando o grupo passou a visitar ruas, praças e marquises da cidade para escutar e atender as necessidades dessa população.
Atualmente, as ações acontecem às quartas-feiras e aos domingos, sempre a partir das 16h, quando os voluntários vão às ruas para dialogar, conhecer histórias e compreender os motivos que levaram aquelas pessoas à situação de vulnerabilidade. “Mais do que assistência imediata, queremos ser escuta e presença”, reforça.
Casa do Pão e fundo de solidariedade
Um dos principais projetos em andamento é a criação de uma casa de acolhimento, que receberá o nome de “Casa do Pão”. O espaço deverá funcionar como ponto de apoio para rodas de conversa, orientações sobre direitos e encaminhamentos para serviços públicos, como restaurantes populares e abrigos municipais.
A Pastoral ainda não possui sede própria, mas articula parcerias para viabilizar o espaço. A prioridade também é reconhecida pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Belém, Dom Paulo Andreolli, que acompanha a iniciativa.
Outro objetivo é a criação de um fundo de solidariedade, formado a partir das campanhas realizadas ao longo do ano, destinado a fortalecer o trabalho junto às pessoas em situação de rua.
Realidade crescente e desafio social
De acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, Belém tem 1.474 pessoas em situação de rua. No Brasil, são 327.925. A coordenação da Pastoral alerta que a população em situação de rua tem aumentado não apenas em Belém e no Brasil, mas no mundo todo.
A missionária ressalta que quanto mais tempo uma pessoa permanece nas ruas, maiores são as dificuldades para sair dessa condição. Além da vulnerabilidade social, há a violência e a invisibilidade que marcam o cotidiano dessa população.
“A Campanha da Fraternidade vem ajudar a gente a perceber essa realidade que muitas vezes é invisível e a pensar caminhos para superar esse problema”, destaca irmã Eugênia.
Com o tema da moradia em evidência, a Igreja em Belém reforça o chamado à fraternidade e à responsabilidade coletiva, unindo fé e compromisso social em favor dos que mais precisam, como ressalta o Padre Renilson Macedo, coordenador regional das Pastorais da CNBB.
“O tema da nossa campanha deste ano alerta para as moradias precárias, mas, no caso, da população de rua, elas sequer têm moradia. Isso é uma profunda degradação do direito à dignidade da pessoa humana. A rua não é moradia, por isso foi abolido o termo ‘morador de rua’”, enfatiza.
Moradia como direito, não mercadoria
De acordo com o padre Renilson Macedo, a escolha do tema é resultado de estudos e levantamento de dados realizados previamente. Belém é considerada a capital mais favelizada do Brasil, com cerca de 55% a 60% de sua população residindo em aglomerados subnormais (favelas), segundo dados do IBGE.
Segundo o sacerdote, essa realidade representa não um estigma, mas um desafio coletivo. “Isso não é um orgulho, mas um desafio posto à Igreja, à sociedade e à classe governamental para que encarem essas problemáticas como pauta do dia, como um problema central”.
Padre Renilson destaca que não basta ter um local para morar; é necessário que seja uma moradia digna. “A pessoa que habita moradias precárias é portadora de direitos fundamentais. Para nós, que somos religiosos, são imagens e semelhanças de Deus. Isso toca não apenas os direitos humanos, mas também aquilo que é sagrado, que é o cuidado da vida em todos os seus estágios”.
Quaresma: tempo de conversão e mudança de estruturas
A Campanha da Fraternidade acontece tradicionalmente durante a Quaresma, período que a Igreja compreende como tempo de conversão, meditação e mudança de atitudes. Nesse contexto, a proposta vai além da reflexão individual e alcança as estruturas sociais.
“A fé não é só ação, mas ação com mudança de vida e mudança das estruturas da sociedade”, ressalta o coordenador. A cada ano, a campanha apresenta um tema social com o objetivo de provocar consciência crítica e compromisso transformador.
Entre os objetivos deste ano estão analisar a realidade da moradia precária no Brasil, identificar omissões do poder público e da sociedade civil diante da universalidade do direito à moradia e à cidade, além de conscientizar, à luz da Palavra de Deus e do ensinamento social da Igreja, sobre a necessidade sagrada de teto, terra e trabalho para todos.
Outro ponto enfatizado é a necessidade de corrigir a compreensão da moradia como mercadoria. “Moradia é um direito, não uma mercadoria”, afirma o padre, destacando que essa reflexão também provoca o mercado imobiliário e os setores econômicos.
As atividades da Campanha da Fraternidade seguem até o Domingo de Ramos, 29 de março, quando será realizada a tradicional Coleta da Solidariedade, destinada a financiar ações relacionadas ao tema proposto pela campanha.
Programação
Domingo (22)
• 7h – Região Coração Eucarístico de Jesus – Santuário Nossa Senhora do Bom Remédio (Satélite)
• 9h30 – Região Nossa Senhora do Ó – Santuário Nossa Senhora do Ó (Mosqueiro)
• 10h – Região Santa Maria Goretti – Basílica Santuário Nossa Senhora de Nazaré (Nazaré)
• 19h – Região Sant’Ana – Santuário São Judas Tadeu (Condor)
• 19h – Região Santa Cruz – Santuário Nossa Senhora da Conceição Aparecida (Pedreira)
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