Busca por autodefesa cresce entre mulheres diante do aumento da violência
Muitas alunas chegam em busca de condicionamento físico, mas também motivadas pelo medo da violência
O aumento dos casos de violência contra a mulher e feminicídios registrados ao longo de 2026 tem acendido um alerta em todo o país. Diante desse cenário, cresce também a busca por práticas de autodefesa, não como incentivo à violência, mas como estratégia de proteção, prevenção e fortalecimento físico e emocional.
Para a professora de karatê Sonia Coutinho, que atua há mais de 25 anos na área, a importância da arte marcial vai muito além do combate físico. “Eu acho fundamental para toda mulher saber a autodefesa. Mas não só pela questão física. A violência começa antes, com palavras, constrangimentos, situações psicológicas. A arte marcial ajuda a mulher a perceber isso”, explica.
Segundo ela, o karatê funciona como uma filosofia de vida, contribuindo para o fortalecimento do corpo e da mente. “Não fortalece apenas os músculos, mas também o espírito. A forma como a mulher passa a encarar a vida muda. Ela desenvolve mais consciência e confiança”, afirma.
A procura pela modalidade, inclusive, tem crescido. Muitas alunas chegam em busca de condicionamento físico, mas também motivadas pelo medo da violência. “Hoje recebemos muitas mulheres que querem aprender a sair de situações de risco, como um agarrão ou uma abordagem agressiva. O karatê tem técnicas específicas para isso”, destaca a professora.
Além do aprendizado técnico, há também um trabalho voltado para o acolhimento, especialmente de mulheres que já sofreram algum tipo de violência. “Temos um cuidado específico com aquelas que têm dificuldade de interação, principalmente com homens. É um processo gradual, respeitando o tempo de cada uma”, pontua.
A estudante Isabele Pimentel, de 14 anos, começou no karatê influenciada pelo irmão e destaca o impacto da prática no dia a dia. “Ajuda muito no nosso crescimento como pessoa e na defesa pessoal. Hoje, com o aumento da violência, a gente precisa estar preparada”, diz a jovem, que já está na faixa preta.
Ela conta que já precisou usar o que aprendeu fora do tatame. “Uma vez, na escola, um menino veio para cima de mim. Eu consegui me defender, mas sem atacar. A gente aprende isso, se proteger, não agredir”, relata.
Para a estudante Bernarda Brito, de 27 anos, o karatê surgiu inicialmente como atividade física, mas ganhou um novo significado. “Além de me sentir mais ativa, comecei a pensar também na autodefesa. É uma forma de ter mais tranquilidade, saber que você pode reagir se precisar”, afirma.
Outras modalidades também têm sido procuradas com o mesmo objetivo. O professor Gabriel Silva, conhecido como Cigano, destaca o papel do Muay Thai nesse contexto. “Hoje, a maioria dos nossos alunos são mulheres. Muitas chegam pela necessidade de se sentir mais seguras”, explica.
Ele ressalta que, embora a prática esportiva seja importante, a realidade tem exigido um preparo para situações de risco. “Infelizmente, precisamos ensinar como agir em situações como estar sozinha na rua, entrar em um carro por aplicativo ou até em um elevador. São orientações de comportamento e defesa”, afirma.
O professor relembra um caso em que uma aluna precisou aplicar as técnicas aprendidas. “Ela foi abordada na rua, ela conseguiu se defender e sair ilesa graças ao treinamento”, conta.
A atendente Jessica Costa, de 27 anos, é uma das alunas que encontrou no Muay Thai mais do que uma atividade física. “Comecei pela perda de peso, mas hoje me sinto mais confiante. Sei que, se precisar, vou conseguir me defender”, diz.
Ela nunca passou por uma situação de ataque, mas afirma que a prática traz segurança. “A gente aprende a evitar o pior. E isso faz toda diferença, principalmente com a violência tão alta hoje”, completa.
Os professores reforçam que a autodefesa não deve ser vista como incentivo ao confronto, mas como uma ferramenta de prevenção.
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