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Belém chega aos 410 anos marcada por ciclos de riqueza, resistência e reinvenção

Cidade fundada em 12 de janeiro de 1616, Belém celebra 410 anos em 2026 tendo a COP30, realizada em novembro de 2025, como mais um marco histórico ao lado das Drogas do Sertão, da Belle Époque e do governo de Mendonça Furtado

Fernando Assunção (Especial para O Liberal)

Belém completa 410 anos nesta segunda-feira (12), reafirmando uma trajetória marcada por encontros, conflitos, ciclos econômicos e transformações urbanas que moldaram a identidade da capital paraense. Para o historiador Márcio Neco, a história da cidade não começa com a chegada dos portugueses, mas muito antes, com os povos originários que já faziam do território um espaço estratégico de comércio e circulação de riquezas.

“Esse território já era habitado pelos Tupinambás, que exerciam intensa atividade econômica. Belém era um grande entreposto comercial indígena antes mesmo da fundação portuguesa”, destaca.

A partir de 1616, com a construção do Forte do Presépio, os portugueses passam a ocupar a região, dando início a um processo de dominação territorial, cultural e econômica que teria impactos profundos e duradouros.

Segundo o historiador, um dos episódios mais violentos desse início foi o Motim do Forte, em 1619, que culminou na morte do cacique Guaimiaba, liderança indígena que governava grande parte da região. “Esse episódio simboliza a resistência dos povos Tupinambás e a consolidação do domínio português”, explica.

Com o avanço da colonização, surge o povoado Feliz Lusitânia, que daria origem à Freguesia da Sé, no território onde hoje é o bairro da Cidade Velha, tendo como marco a construção da Capela de Nossa Senhora da Graça, sede do poder religioso e administrativo da Igreja Católica.

Jesus nasceu em Belém do Pará?

Anualmente, viralizam na internet, no período do Natal, memes que afirmam que Jesus Cristo nasceu em Belém do Pará. Mas, apesar da brincadeira, é sabido que o filho de Maria foi concebido em Belém da Galileia, em Israel. No entanto, engana-se quem pensa que o nome da capital paraense é mera coincidência com o local de nascimento de Cristo. “A fundação de Belém é um grande tributo ao dia de Natal”, afirma o historiador.

Ele explica: “Foi no dia 25 de dezembro de 1615 que Francisco Caldeira Castelo Branco saiu do Palácio dos Leões de São Luís para cá. Quando chegaram aqui, no dia 12 de janeiro, construíram um forte. Eles, muito religiosos, decidiram, nesse forte, fazer uma capelinha chamada de Nosso Senhor Santo Cristo do Presépio, uma homenagem ao dia de Natal. Por isso, o nome do forte é Forte do Presépio. Hoje, a capela não existe mais, mas restam alguns vestígios. O nome da cidade, Santa Maria de Belém do Grão-Pará, também foi uma homenagem à cidade de Belém, onde Jesus nasceu”.

Neco continua, destacando outras influências religiosas do Natal na cidade: “A Catedral Nossa Senhora da Graça tem esse nome porque a Grande Graça de Nossa Senhora é ser mãe de Jesus, uma forma de homenageá-la. Além disso, a Rua do Espírito Santo [hoje, Doutor Assis], que é a segunda rua que sai do lado da igreja, também foi nomeada para homenagear o Espírito Santo, que é o autor da graça do nascimento de Jesus. Já a Rua dos Cavaleiros [atual Doutor Malcher], supõe-se que seja uma homenagem aos magos".

Drogas do Sertão e o primeiro ciclo de prosperidade de Belém

No século XVIII, Belém vive um dos seus primeiros grandes ciclos de prosperidade com a exploração das Drogas do Sertão, produtos como cacau, cravo, pimenta e outras especiarias amazônicas. “Por volta de 1750, já havia grande riqueza circulando em Belém, o que exigiu investimentos urbanos e arquitetônicos”, afirma Neco.

Esse período coincide com o governo de Mendonça Furtado, considerado decisivo para a formação da cidade. Sob sua administração, surgem igrejas, prédios públicos e uma nova organização urbana, com forte influência do arquiteto italiano Antônio Landi, responsável por projetos que até hoje marcam a paisagem da capital.

Exemplos dessa arquitetura marcante são o Colégio de Santo Alexandre, a Casa das Onze Janelas, o Palácio Antônio Lemos, o Palácio dos Governadores, a Igreja de São João Batista, a Igreja da Sé, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Santana e a igreja Nossa Senhora das Mercês.

Cabanagem antecede a Belle Époque

Antes do esplendor da borracha, Belém enfrentou um de seus períodos mais sangrentos: a Cabanagem (1835–1840). A Cabanagem foi uma revolta popular iniciada no dia 6 de janeiro de 1835, quando a sede do governo da época foi tomada pela população. Grupos formados por ribeirinhos, quilombolas e moradores de cabanas se manifestaram contra o governo provincial e tomaram o poder.

O frágil e instável controle cabano do Grão-Pará durou cerca de dez meses. Em 1840, a Cabanagem foi sufocada pelo Império, que, com o uso do poderio militar, sufocou a revolta e promoveu um extermínio em massa da população paraense. Estima-se que cerca de 30 a 40% da população de cem mil habitantes do Grão-Pará à época tenha morrido no conflito.

Já no final do século XIX e início do XX, a cidade viveu o auge da Belle Époque amazônica, impulsionada pela riqueza promovida pela extração e comercialização de látex para produção da borracha. Elites enriquecidas passaram a investir em infraestrutura, lazer e monumentalidade. “Era preciso demonstrar essa riqueza e sociabilizá-la”, explica o historiador.

Impulsionadas pelo boom econômico oriundo da comercialização do látex, várias obras de urbanização e modernização da cidade foram realizadas, capitaneadas sobretudo pelo intendente Antônio Lemos. Dessa época surgiram símbolos como o Theatro da Paz, a Praça da República, as redes de esgoto, os calçamentos e uma modernização urbana inspirada nos modelos europeus.

Verticalização e novos rumos no século XX

Entre o final dos anos 1940 e o início dos 1950, Belém entra em um novo ciclo de transformação com a verticalização da cidade. Prédios altos passam a substituir casarões históricos, surgem especulações imobiliárias e a paisagem urbana ganha uma nova configuração. “É um momento de ruptura, com demolições e uma nova roupagem da cidade”, analisa Neco.

COP30: Belém de volta à vitrine internacional

Para o historiador, o mais recente e decisivo capítulo dessa trajetória é a COP30, realizada em novembro de 2025. O evento recolocou Belém no centro das atenções globais e inaugurou um novo ciclo de investimentos e expectativas.

“A COP30 não é um ciclo econômico como as Drogas do Sertão ou a borracha, é um evento. Mas, assim como esses períodos, ela deixa legados”, afirma. Entre eles, infraestrutura, visibilidade internacional e o fortalecimento do turismo.

Na avaliação de Neco, o pós-COP30 pode marcar o início de uma nova fase histórica. “A cidade pode continuar prosperando a partir desses legados, explorando sua riqueza turística, cultural, arquitetônica e histórica. A COP foi um pontapé inicial”.

Linha do tempo: grandes marcos da história de Belém

Antes de 1616 – Ocupação indígena: Tupinambás fazem do território um grande entreposto comercial

1616 – Fundação de Belém com a construção do Forte do Presépio

1619 – Motim do Forte e morte do cacique Guaimiaba

Século XVII – Formação do povoado Feliz Lusitânia e da Freguesia da Sé

1750 – Apogeu das Drogas do Sertão e governo de Mendonça Furtado

Século XVIII – Atuação do arquiteto Antônio Landi e consolidação urbana

1835–1840 – Cabanagem

Final do século XIX / início do XX – Belle Époque da borracha

Final dos anos 1940 / início dos 1950 – Verticalização da cidade

Novembro de 2025 – Realização da COP30 em Belém

12 de janeiro de 2026 – Belém completa 410 anos

Aos 410 anos, Belém se apresenta como uma cidade construída sobre camadas de história, marcada por resistências, esplendores e reinvenções. Para Márcio Neco, compreender esse passado é essencial para projetar o futuro: “Esses momentos históricos moldaram a paisagem urbana, a cultura, o cotidiano e a identidade do povo de Belém. O próximo capítulo está sendo escrito agora.”

Crises, reinvenção e continuidade econômica

Com o fim da primeira era da borracha, Belém enfrentou uma desaceleração no desenvolvimento e na circulação de dinheiro. Ainda assim, a cidade seguiu se reinventando. Houve um segundo ciclo da borracha e, a partir da década de 1940, a criação de importantes mercados populares, como os do Reduto, Guamá, Pedreira e Telégrafo, que reforçaram a vocação comercial da capital.

Mesmo com dificuldades financeiras e baixa arrecadação, obras de asfaltamento e melhorias urbanas continuaram acontecendo. Entre as décadas de 1940 e 1950, a verticalização marcou mais uma mudança significativa na paisagem urbana.

“Belém deixou de caminhar a passos largos, mas continuou se movimentando economicamente”, avalia Neco.
Riqueza concentrada e exclusão nas periferias

Ao analisar os períodos de maior prosperidade econômica, especialmente o ciclo da borracha, Márcio Neco alerta que o desenvolvimento não alcançou a cidade de forma igualitária.

“O período da borracha deixou marcas profundas, não só nas construções, mas nos hábitos culturais, no modo de vestir, de viver. Isso tudo ainda influencia o belenense até hoje”, afirma. No entanto, essa riqueza ficou concentrada em determinadas áreas e grupos sociais.

As periferias de Belém, naquele período, permaneceram desprovidas de serviços básicos como energia elétrica, saneamento e calçamento. “Houve um grande apogeu econômico, mas ele não levou benefícios, sobretudo, às periferias. A exclusão social também é um fator histórico que precisa ser observado”, destaca.

O Círio da ‘santa que não tinha igreja’

Entre os muitos elementos que ajudam a compreender a identidade de Belém ao longo de 410 anos, poucos são tão fortes e simbólicos quanto o Círio de Nazaré. Para o historiador Márcio Neco, a grande singularidade da maior manifestação religiosa da Amazônia está justamente em seu caráter popular, nascido fora das estruturas oficiais da Igreja e profundamente ligado ao cotidiano do povo. “O Círio vai ser o Círio daquela santa que não tinha igreja”, resume o historiador.

No período colonial, Belém já possuía um conjunto expressivo de templos religiosos: Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora das Mercês, São João, Santo Alexandre, Santana, entre outros. Cada um deles estruturava devoções formais, ligadas à organização da cidade e ao poder eclesiástico. O Círio, no entanto, seguiu outro caminho.

Segundo Márcio Neco, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré nasce e se consolida fora do circuito urbano central da época. A Belém daquele período ainda se resumia basicamente aos bairros da Cidade Velha e da Campina, enquanto o local da devoção à Nossa Senhora de Nazaré ficava em uma área rural, afastada do núcleo urbano, onde hoje está localizada a Basílica Santuário.

Segundo ele, esse movimento revela que o Círio nasce como uma prática espontânea de fé coletiva, construída a partir da experiência popular. “É o povo que se desloca para fora da cidade, em direção a uma pequena ermida, onde hoje está a Basílica de Nazaré”, explica.

O historiador destaca ainda o contexto social e sanitário como elemento decisivo para a consolidação do Círio. Em uma Belém marcada por epidemias, com pouca ou nenhuma estrutura de saúde, a população encontrava na fé uma forma de proteção, esperança e enfrentamento da dor. “Se não se podia recorrer a médicos ou hospitais, recorria-se à fé”, afirma Neco.

Esse cenário fez com que a devoção a Nossa Senhora de Nazaré se fortalecesse rapidamente, criando laços profundos entre religiosidade, sofrimento coletivo e resistência cotidiana. A fé popular passou, então, a ocupar um papel central na vida da cidade.

Com o passar do tempo, aquela devoção simples deu origem ao Círio de Nazaré, que se transformaria em uma das maiores manifestações religiosas do mundo, sem jamais perder a essência popular há mais de 230 anos. Para o historiador, o Círio é um retrato fiel da própria formação de Belém.

“O Círio nasce da experiência do povo, da sua religiosidade, da sua forma de viver e resistir”, analisa.

A confluência indígena, africana e portuguesa na culinária

Além dos grandes eventos, personagens e manifestações populares, a história de Belém também se revela nos sabores, nas formas da arquitetura e nos contrastes sociais deixados pelos períodos de prosperidade. Para o historiador Márcio Neco, esses elementos ajudam a compreender como a cidade foi sendo moldada por encontros culturais e, ao mesmo tempo, por profundas desigualdades.

A gastronomia belenense é um dos exemplos mais vivos do encontro entre culturas que formaram a cidade. “Os sabores de Belém refletem a influência portuguesa, indígena e africana, resultado desse encontro de povos que aqui viviam”, explica Neco.

Da herança indígena vêm os ingredientes amazônicos, os modos de preparo e a relação direta com a floresta e os rios. A presença africana acrescenta técnicas, temperos e saberes que se misturaram ao cotidiano urbano. Já os portugueses trouxeram costumes alimentares europeus que, ao longo do tempo, foram adaptados à realidade local.

Nesse contexto, o historiador destaca um espaço simbólico dessa fusão cultural: as erveiras do Ver-o-Peso. “Ali ainda se concentra todo o saber amazônico. É um verdadeiro repositório dessa sabedoria”, afirma. O uso medicinal, ritualístico e culinário das ervas traduz uma herança ancestral que permanece viva e que, assim como o Círio de Nazaré, se tornou patrimônio cultural do Pará.

“Círio, gastronomia e ervas são expressões de uma cultura popular que molda a identidade do povo paraense”, resume.

Arquitetura como documento histórico da cidade

Outro aspecto fundamental da memória de Belém está em sua arquitetura. Para Márcio Neco, o patrimônio arquitetônico da cidade comunica e ensina sobre a história da cidade.

“O patrimônio de Belém reflete diferentes fases do seu processo histórico de ocupação”, explica. Dos casarões da Cidade Velha, com forte influência portuguesa, fachadas ornamentadas e azulejos coloniais, passando pelos grandes palacetes da Belle Époque, até chegar às casas populares e à verticalização do século XX, cada edificação carrega marcas do tempo em que foi construída.

Esses prédios funcionam como uma “ponte entre o passado e o futuro”, permitindo que novas gerações compreendam, preservem e reflitam sobre a história da cidade. “Eles estão ali para nos ensinar”, reforça o historiador.

Para o futuro, desenvolvimento e preservação devem andar juntos

Ao olhar para seus 410 anos de história, Belém se coloca diante do desafio de como avançar sem perder a memória. Para o historiador Márcio Neco, a principal lição deixada pelo passado é que desenvolvimento e preservação precisam caminhar juntos. “A cidade de Belém pode ensinar ao futuro que é possível aliar modernidade com memória histórica”, afirma.

Segundo o historiador, cada perda do patrimônio histórico representa um empobrecimento coletivo. Casarões demolidos, prédios descaracterizados e espaços históricos esquecidos fragilizam a identidade da cidade e rompem o diálogo entre passado e futuro.

“Cada elemento, cada casarão, cada prédio que Belém perde deixa a cidade mais empobrecida historicamente”, alerta Neco.

Para ele, os projetos urbanos e arquitetônicos do futuro precisam incorporar a preservação como princípio básico, entendendo o patrimônio não como obstáculo, mas como valor. Planejamento, modernização e memória devem estar integrados para que a cidade continue se desenvolvendo sem abrir mão de sua história.

“Esses espaços precisam ser preservados não só para nós, mas para as futuras gerações”, reforça.

Ver-o-Peso é o símbolo da cidade

Ao buscar um símbolo capaz de traduzir Belém em uma única imagem, Márcio Neco aponta o Ver-o-Peso. Mais do que um cartão-postal, o complexo representa a própria trajetória histórica da cidade.

O local nasceu como espaço de exercício do poder colonial, onde funcionava a antiga “Casa de Haver o Peso”, responsável pela pesagem e taxação das mercadorias que circulavam pelo porto. Com o passar do tempo, esse lugar de controle fiscal se transformou em um dos espaços mais democráticos da capital. “Hoje, o Ver-o-Peso é um mosaico de toda a Amazônia”, define o historiador.

Ali se encontram produtos, sabores, saberes, línguas, práticas culturais e formas de sociabilidade que atravessam séculos. Para Neco, o valor do Ver-o-Peso vai além da paisagem ou da monumentalidade arquitetônica.

“O Ver-o-Peso não é grande apenas pela paisagem, mas pela sociabilidade, pelas atividades que ali são exercidas”, explica.

Belém entre a história e a imaginação popular aos 410 anos

Ao completar 410 anos, Belém também celebra um vasto imaginário popular, feito de histórias repetidas de geração em geração, lendas urbanas, curiosidades e, também, fake news. Para o historiador Márcio Neco, conhecer essas narrativas, e saber distingui-las dos fatos históricos, é fundamental para compreender como a cidade constrói sua memória coletiva.

“Belém é uma cidade onde a história oficial e a narrativa popular convivem o tempo todo”, observa.

O que é mito e o que é fato

Entre as histórias mais difundidas estão os supostos túneis subterrâneos ligando pontos turísticos, igrejas e colégios tradicionais. Segundo Neco, isso não passa de mito. “Não existem túneis por baixo da terra, nem na Cidade Velha, nem no Ver-o-Peso, nem em qualquer outro ponto da cidade”.

Outro equívoco comum diz respeito à Praça da República, frequentemente apontada como um antigo cemitério. O historiador esclarece que o local nunca teve essa função. O que existiu foi um pequeno espaço de enterramento nos arredores do antigo Largo da Campina, onde hoje há uma loja de departamentos próxima ao Bradesco e ao Cine Olímpia.

Esse local, conhecido pela antiga Rua do Cruzeiro das Almas, era reservado a sepultamentos muito específicos: “Ali eram enterradas poucas pessoas, geralmente excomungados ou aqueles que não pertenciam a nenhuma irmandade religiosa”, explica.

O Círio que nunca deixou de existir

Outra fake news recorrente é a de que teria havido um ano sem Círio de Nazaré. Márcio Neco defende: “Em Belém, o Círio nunca foi interrompido.” Nem mesmo durante a Cabanagem, em 1835, quando a cidade viveu um de seus períodos mais turbulentos, a procissão deixou de acontecer. “Foi, inclusive, um Círio muito bonito”, ressalta.

Também há confusão sobre os cemitérios históricos da cidade. O Cemitério da Soledade não foi o primeiro de Belém. Esse título pertence ao cemitério protestante, localizado no jardim da igreja anglicana.

Monteiro Lopes, lendas e assombrações 

Entre as curiosidades gastronômicas, o historiador desmonta a narrativa popular sobre o doce Monteiro Lopes. “É fake a história de que existiam duas padarias, uma do seu Monteiro e outra do seu Lopes. Não há embasamento histórico para isso”, afirma.

No campo das lendas, também não há registros de uma estátua de uma menina paralisada por desobedecer à mãe na Catedral da Sé, nem relatos documentados sobre a famosa “moça do táxi”, Josefina. Embora ela tenha existido e esteja sepultada no cemitério Santa Isabel, “nunca houve registro de taxista que tenha levado ou ido cobrar corrida da Josefina”.

Qual foi a primeira rua Belém? As ruas contam a fundação da cidade

Outra curiosidade histórica envolve a primeira rua de Belém. Ao contrário do que muitos pensam, não foi a Ladeira do Castelo, que hoje dá acesso à Feira do Açaí e funciona como anexo do Forte do Presépio. Na época, o local era um grande alagado, o antigo Piri.

“A primeira rua de Belém foi a Rua do Norte, hoje conhecida como Rua Siqueira Mendes”, explica Neco. A partir dela, novas vias surgiram conforme a cidade se expandia.

Com a chegada dos carmelitas em 1626 e a construção da Igreja do Carmo, abriram-se a Rua do Espírito Santo (atual Doutor Assis) e a Rua dos Cavaleiros (atual Doutor Malcher). Cada nova igreja gerava um núcleo de povoamento ao redor, impulsionando o crescimento urbano.

“Essas ruas ajudam a contar não só a fundação de Belém, mas também a presença do poder militar, religioso e civil”, destaca.

Narrativas urbanas: política, música e sobrenatural

A cidade também é fértil em histórias que misturam política e imaginação. Um exemplo está na Praça Floriano Peixoto, em frente ao Mercado de São Brás. Projetada no governo de Magalhães Barata para homenagear Lauro Sodré, a praça foi inaugurada 11 dias após a morte de Barata, em 1959.

Décadas depois, em 1989, o então governador Hélio Gueiros construiu o Memorial Magalhães Barata no Largo de São Brás. A narrativa popular diz que a estátua de Lauro Sodré, sentada na praça, “contempla” à distância o memorial de quem o homenageou, uma leitura simbólica que ganhou força no imaginário da cidade.

O ‘Urubu Malandro’ e as histórias do Ver-o-Peso

A música “No Meio do Pitiú”, também conhecida como “Garça Namoradeira”, de Dona Onete, também dialoga com esse universo de histórias. A narrativa popular conta que urubu foi ao Marajó e encontrou fartura, mas decidiu voltar para Belém. “Curiosamente, décadas atrás, existiu no Ver-o-Peso um ‘meliante’ conhecido como ‘Urubu Malandro’, que morreu ao cair em uma emboscada antes de fugir pela galeria conhecida como Toca do Morcego”.

Fica a dúvida: a música homenageia a lenda ou um personagem real? “Será que Dona Onete homenageou a lenda do urubu que foi para o Ver-o-Peso, ou será uma homenagem a essa história factual de que, no Ver-o-Peso, existia um ‘meliante’ cheio de habilidades com o apelido de ‘Urubu Malandro’?”, questiona.

Docas, igarapés e a cidade que mudou de forma

Belém também já teve três grandes docas: a do Ver-o-Peso, a do Reduto (ou do Imperador) e a Doca dos Igarapés, hoje a avenida Doca de Souza Franco. Enquanto a Doca do Reduto foi aterrada e transformada em canal, a do Ver-o-Peso segue ativa como polo comercial.

A atual Doca de Souza Franco era conhecida como “Igarapé das Armas” ou “Igarapé das Almas”, nomes ligados a narrativas da Cabanagem. “A lenda conta que as almas dos cabanos mortos vagavam por aquele local procurando as suas armas. É claro que essas questões de sobrenatural são apenas narrativas que se constroem na cidade para dar explicação a alguns fatos”, ressalta o historiador.

A cidade dos taperebazeiros

Antes de ser a “Cidade das Mangueiras”, introduzidas apenas no governo de Antônio Lemos e que hoje são símbolo da cidade, Belém era conhecida como a cidade dos taperebazeiros. Árvores de taperebá dominavam áreas como a atual Avenida Nazaré e a Praça da República, revelando uma paisagem urbana bem diferente da que se vê hoje.

Historiador destaca personagens que moldaram Belém ao longo dos 410 Anos

Ao longo de seus 410 anos, Belém foi moldada não apenas por ciclos econômicos e grandes eventos históricos, mas também por personagens que deixaram marcas profundas na política, na cultura, na arquitetura e no imaginário popular. Para o historiador Márcio Neco, compreender a história da cidade passa, necessariamente, por reconhecer essas figuras que atuaram em diferentes períodos e ajudaram a construir o que Belém é hoje.

“São muitos personagens históricos, de diferentes épocas, que ajudam a contar essa trajetória. Alguns governaram, outros resistiram, outros transformaram a cidade com obras, ideias e símbolos”, resume.

Período Pré-Colonial e Início da Colonização
Cacique Guaimiaba

Período: início do século XVII
Guaimiaba é considerado o principal líder indígena da região onde hoje está Belém, antes da consolidação da ocupação portuguesa. Governava um amplo território tupinambá e comandava um importante entreposto comercial indígena. Tornou-se símbolo de resistência contra a presença europeia. Morreu em 1619, durante o Motim do Forte do Presépio, episódio que marcou a derrota militar dos Tupinambás e a consolidação do domínio português.

Século XVIII – Drogas do Sertão e formação urbana
Mendonça Furtado

Período: meados do século XVIII
Governador do Grão-Pará, foi um dos grandes responsáveis pela reorganização administrativa e urbana de Belém durante o ciclo das Drogas do Sertão. Seu governo impulsionou a construção de igrejas, prédios públicos e fortaleceu a cidade como centro estratégico da Amazônia colonial.

Antônio Landi

Período: segunda metade do século XVIII
Arquiteto italiano que, mesmo sem ocupar cargo político, exerceu enorme influência sobre Belém. Projetou igrejas, palácios e edifícios públicos que até hoje definem a paisagem histórica da cidade. É considerado um dos maiores nomes da arquitetura colonial na Amazônia.

Século XIX – Cabanagem e instabilidade política
Félix Clemente Malcher

Período: Cabanagem (1835)
Primeiro presidente cabano da Província do Grão-Pará. Inicialmente apoiado pelo movimento popular, acabou rompendo com os rebeldes, sendo posteriormente deposto e morto. Representa as contradições internas do movimento cabano.

Francisco Vinagre

Período: Cabanagem (1835)
Uma das lideranças populares da Cabanagem, assumiu o poder após a queda de Malcher. Simboliza a força das camadas populares no movimento que abalou profundamente Belém e o Pará.

Eduardo Angelim

Período: Cabanagem (1835–1836)
Considerado o principal líder da Cabanagem, foi o último presidente cabano. Governou Belém em meio ao cerco das forças imperiais. Tornou-se símbolo de resistência popular e luta contra as elites imperiais.

Final do século XIX e início do XX – Belle Époque
Augusto Montenegro

Período: início do século XX
Governador do Pará durante o ciclo da borracha. Atuou na modernização administrativa do estado e teve papel relevante no fortalecimento de Belém como capital próspera durante a Belle Époque amazônica. Também foi o responsável pela construção da Estrada de Ferro Belém-Bragança.

Antônio Lemos

Período: 1897–1911
Intendente de Belém e principal nome associado à Belle Époque da cidade. Promoveu profundas transformações urbanas: alargamento e calçamento de ruas, criação de praças e jardins, modernização dos serviços públicos e incentivo à vida cultural. Para Márcio Neco, “sem sombra de dúvida, Antônio Lemos trouxe uma série de avanços que redefiniram Belém”. Ele morava onde hoje fica a sede do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Avenida Gentil Bittencourt.

Século XX – Populismo, modernização e imaginário popular
Magalhães Barata

Período: décadas de 1930 a 1950
Interventor e governador do Pará, tornou-se uma figura icônica e lendária. Influenciou fortemente a cultura política e o imaginário popular belenense, sendo lembrado tanto pelo estilo populista quanto pela presença simbólica na história do estado.

Hélio Gueiros

Período: 1987-1991
Governador do Pará, também se tornou uma figura lendária, cercada de narrativas populares. Seu nome permanece vivo no imaginário coletivo de Belém.

Redemocratização e período contemporâneo
Almir Gabriel

Período: 1995-2003
Foi governador do Pará e teve forte impacto em Belém, especialmente na requalificação do Ver-o-Peso. Embora nem sempre tenha atuado em sintonia com os prefeitos da capital, é lembrado como um gestor modernizador.

Fernando Coutinho Jorge

Período: 1983 e 1989-1990
Prefeito eleito pelo voto popular, representa o momento de retomada democrática da política municipal após o regime militar.

Sahid Xerfan

Período: 1886-1889
Também eleito democraticamente, integra o grupo de prefeitos que passaram a governar Belém sob a lógica da escolha direta da população.

Edmilson Rodrigues

Período: 1997-2005 e 2021-2025
Prefeito marcado por experiências de participação popular. Seu governo coincidiu com um período de forte disputa política com o governo estadual de Almir Gabriel, o que acabou gerando uma “batalha de obras” que impactou a cidade.

Arquitetos, engenheiros e construtores da cidade
Filinto Santorum

Período: final do século XIX e início do XX
Engenheiro responsável por obras emblemáticas como o Mercado de São Brás, o Colégio Gentil Bittencourt e o Museu da UFPA. Sua atuação foi decisiva para a consolidação da Belém moderna.

Para Márcio Neco, além desses nomes, Belém foi construída por um amplo conjunto de religiosos, artistas, técnicos, lideranças populares e políticas que compõem um verdadeiro “panteão” da cidade.

“Essas figuras formam um mosaico de grandes personalidades que ajudam a entender a paisagem urbana, a cultura, o cotidiano e a identidade do povo belenense”, afirma o historiador.

 

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