Belém, 410 Anos: pipoqueiros mantêm viva tradição e memória afetiva que atravessa gerações
É difícil andar pelo centro da capital e não ouvir o estalo dos grãos de milho estourando no calor da panela ou sentir o cheiro inconfundível que invade as calçadas e já faz parte do cenário urbano
Belém completa 410 anos nesta segunda-feira (12) e essa história também é contada por tradições. Uma delas é simples, cheirosa, barata e faz parte da memória afetiva da cidade: a pipoca. Nas saídas das escolas, nas praças, nas igrejas, nos cinemas e nos parques durante o Círio de Nazaré ao fim de tarde, qual belenense não tem lembrança de se deliciar com um saquinho de pipoca? E esse costume é salvaguardado pela figura dos pipoqueiros.
É difícil andar pelo centro da capital e não ouvir o estalo dos grãos de milho estourando no calor da panela ou sentir o cheiro inconfundível que invade as calçadas. A presença dos pipoqueiros é constante, seja em pontos turísticos como a Basílica Santuário Nazaré e o Parque da Cidade. Nos eventos de grande movimento, como o Círio de Nazaré, os carrinhos de pipoca fazem parte do cenário urbano.
No centro dessa história estão pessoas como Dalva Rodrigues, 48 anos, pipoqueira há quase quatro décadas. Ambulante, ela trabalha no ramo desde a infância e carrega no DNA e na profissão uma tradição familiar da qual se orgulha. “Meu pai e minha mãe vendiam pipoca. Meus irmãos também. Tudo quanto é evento, a gente está com pipoca. Virou tradição de família”, conta.
Dalva, que trabalha diariamente na região da Avenida Visconde Souza Franco (Nova Doca) e no Parque da Cidade, diz que, em dias bons, vende entre 200 e 300 pipocas. “A pipoca não cai. Sempre está em alta. É uma coisa que tu bota pouco e ganha muito. Tem uma renda boa”, explica.
Para ela, pipoca é sinônimo de infância e de encontro. “A gente vende mais pras crianças. Se não tiver pipoca, não é a mesma coisa. O pai vem comprar. A criança chora, bate o pé, pede pipoca e o papai compra”, diz. A cena se repete há gerações e ajuda a explicar por que a pipoca atravessa o tempo sem perder espaço.
Pipoca faz parte do cenário belenense
Com origem nos povos originários das Américas, a pipoca se conecta diretamente com a história de Belém, através de pessoas como Nazaré Rodrigues. Com 50 anos de vida, sendo quase 41 anos de ofício, Nazaré trabalha desde a infância na Basílica Santuário de Nazaré. Ao lado do marido, Felipe Soares, ela mantém viva a tradição de sua família, que é toda de pipoqueiros.
“Eu vim com meus pais com 9 anos de idade, em 1984. Era meus pais e continua até hoje aqui, só eu e meu marido. Os meus pais já se foram, mas a vida continua", lembra ela, emocionada, ao falar da longa trajetória que construiu no local.
Nazaré se orgulha de ser filha de pipoqueiros e de como, ao longo dos anos, essa profissão foi a base de sua vida e de sua família. “Eu sou filha de pipoqueiro e pipoqueira e a minha vida é aqui. Daqui que eu construí minha vida, minha renda, meu patrimônio”, conta.
A rotina de Nazaré é intensa. Ela chega todos os dias à Basílica às 16h, e aos domingos já está lá pela manhã, oferecendo pipoca aos fiéis das primeiras missas dominicais e turistas que transitam pelo local. “Muitos clientes que eu atendo desde criança, das escolas ao redor daqui, e que hoje já estão formados e não deixam de comer pipoca”, afirma ela.
O que torna a pipoca de Nazaré tão especial é a maneira como ela foi incorporada à vida dos clientes. “Aqui, o povo já conhece a gente, já é acostumado a comprar diariamente com a gente, principalmente o pessoal dos prédios aqui que conhece a gente. Já é acostumado a aquela tardezinha comendo uma pipoquinha”, diz Nazaré, destacando que a pipoca tem o poder de criar laços com a comunidade.
Um alimento indígena que virou patrimônio popular
Muito antes de chegar às praças e pontos turísticos de Belém, a pipoca já fazia parte da alimentação dos povos originários das Américas. Arqueólogos apontam que o milho era cultivado por povos pré-colombianos há milhares de anos, e há registros do consumo de milho estourado entre astecas, maias, incas e diversos povos indígenas do território que hoje é o Brasil.
O nome pipoca vem do termo tupi “pï’poka”, expressão que pode ser traduzida como “estourar a pele”, da junção de pira (pele) e poka (estourar). A técnica teria surgido de forma simples: grãos ou espigas deixados próximos ao fogo até estourarem. Com o tempo, surgiram métodos mais elaborados, como o uso de panelas de barro aquecidas com areia quente, prática registrada em regiões como o Peru há mais de dois mil anos.
Quando os europeus chegaram às Américas, estranharam aquele “milho que explode”, usado tanto como alimento quanto como adorno. Séculos depois, a pipoca se espalhou pelo mundo.
Democrática, acessível e cultural
Em Belém, a pipoca nunca foi luxo. Pelo contrário. É um dos alimentos mais democráticos da cidade: barato, acessível, vendido na rua, consumido por crianças, adultos e idosos, ricos e pobres. Doce, salgada ou misturada. Cada um come do seu jeito.
Além de simbólica, a pipoca também movimenta a economia informal. São dezenas de pipoqueiros espalhados pela cidade, gerando renda direta e indireta, sustentando famílias inteiras. Dalva é prova disso. “Eu só trabalho com isso. Já criei minha vida com a pipoca”, afirma.
Mas assim como a cultura e a paisagem da cidade são favoráveis a esse comércio, os desafios de Belém não deixam os pipoqueiros de fora. A também tradicional chuva de fim de tarde, por exemplo, é uma das maiores inimigas do negócio. Nazaré ri ao lembrar que, no momento em que a chuva chega, o expediente termina mais cedo. “Quando chove não tem jeito, bora pra casa que não vai vender mais nada”, finaliza.