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Artes que acalmam: empreendedoras transformam criatividade em objetos reguladores de ansiedade

Os chamados objetos reguladores podem ser aliados pontuais no controle da ansiedade, mas não substituem a terapia

Bruna Lima

Em um mundo cada vez mais acelerado, pequenas soluções têm ganhado espaço na rotina de quem busca aliviar a ansiedade e melhorar a concentração. Objetos sensoriais como bolinhas de apertar, cubos infinitos, spinners e presilhas táteis viralizam nas redes sociais e conquistam crianças e adultos. Em meio a essa tendência, duas empreendedoras encontraram na arte manual uma forma de promover bem-estar, e também transformar suas próprias histórias.

Pedrinhas da calma

A artista plástica Maria Fernanda Costa, trabalha com pinturas regionais aplicadas em louças e objetos decorativos e utilitários. Foi dentro de casa, porém, que nasceu um dos produtos mais sensíveis de sua trajetória, as “pedrinhas da calma”.

A ideia surgiu a partir da vivência com o filho, diagnosticado com TDAH e que enfrentava crises de ansiedade na escola. “Ele começou a ter crises que atrapalhavam o relacionamento com os colegas e o desempenho nas atividades. Eu comecei a pesquisar alternativas que pudessem ajudar na autorregulação”, conta.

Maria buscou orientação com psicólogas, inclusive as que acompanham seu filho, e descobriu os chamados objetos reguladores sensoriais, utilizados para auxiliar no controle emocional durante momentos de estresse.

As pedrinhas são confeccionadas em cerâmica fria, material acessível e fácil de encontrar em lojas de artesanato. A escolha não é por acaso, além de comercializar sob encomenda, Maria também incentiva que outras mães produzam suas próprias peças.

“Pesquisei um material que fosse acessível para que, se não encontrassem para comprar, pudessem fazer em casa, escolhendo o tamanho, o formato e a textura que a criança gostasse”. As cores costumam ser suaves, pensadas para atingir um público diverso, incluindo crianças com autismo e outras neurodivergências.

Bonecos de crochê

Se para Maria a arte nasceu da maternidade, para a engenheira sanitarista Patrícia Paranhos o crochê surgiu como ponto de virada profissional e pessoal. Ela começou a aprender a técnica em 2019, após decidir desacelerar a rotina da engenharia. O que era aprendizado básico evoluiu para a especialização em amigurumis, técnica japonesa que transforma fios em bonecos de crochê.

A demanda inicial veio de uma prima psicóloga, que precisava de bonecos para trabalhar representatividade com crianças em consultório. “Os amigurumis permitem que a criança se reconheça no boneco. São personalizados, não são aqueles que você encontra em qualquer loja”, explica.

Com o tempo, Patrícia passou a produzir também objetos conhecidos como brinquedos antiestresse, incluindo presilhas de crochê que funcionam como fidget toys,  itens sensoriais populares para aliviar tensão e ansiedade.

Essas presilhas, além da textura macia do crochê, proporcionam estímulo tátil e, em alguns casos, o som característico de clique ao serem manuseadas. A repetição do movimento ajuda na concentração e no relaxamento. “Houve uma explosão desses brinquedos na internet. Eles realmente trazem para o presente, ajudam a se autorregular em momentos de estresse”.

Patrícia destaca que o próprio fazer manual já é um exercício de atenção plena. O amigurumi é construído basicamente com pontos baixos e exige contagem rigorosa.

“Você precisa contar os pontos o tempo todo. Se perder, tem que desmanchar e começar de novo. Não dá para fazer discutindo ou brigando. Eu entro no meu mundo”. Hoje dedicada exclusivamente ao crochê, afirma que a mudança impactou diretamente sua qualidade de vida. “Eu sou outra pessoa. Além de contribuir financeiramente, me traz paz”.

Especialista confirma que os objetos aliviam desconfortos momentâneos

A pedagoga e psicóloga Elayne Nazaré de Souza Oliveira explica que esses recursos funcionam como ferramentas de “ancoragem”, principalmente sensorial. “Eles ajudam a interromper ou pelo menos tentar bloquear, naquele momento, os pensamentos acelerados, direcionando o foco para o objeto e não para a situação que está causando ansiedade”, afirma.

Segundo a profissional, há respaldo da neurociência e da terapia ocupacional para o uso desses estímulos sensoriais como forma de promover alívio neurológico imediato. Ao ocupar as mãos, a visão ou o olfato, a pessoa redireciona a atenção e reduz temporariamente o impacto do gatilho ansioso. “O objetivo é tirar o foco do que está gerando ansiedade. Quando a pessoa concentra a atenção no objeto, seja apertando uma bolinha, manuseando um acessório ou realizando uma atividade manual, ela desloca a mente da situação que provoca o desconforto”, explica.

O princípio é simples, ao envolver os sentidos, o cérebro passa a se concentrar na experiência tátil, visual ou olfativa, o que pode suavizar os sintomas naquele momento. Entre os exemplos citados pela psicóloga estão bolinhas de estresse, objetos para “estourar” bolhas, pedras e tecidos com diferentes texturas, além de estímulos olfativos, como óleos essenciais de lavanda e camomila. 

Alerta diante de crises de ansiedade

No entanto, Elayne faz um alerta importante, em crises intensas de ansiedade, a eficácia desses objetos tende a ser limitada. “Em momentos de crise forte, é muito difícil que o objeto consiga desviar o foco ou atuar de forma relaxante, porque a ansiedade está muito elevada”, destaca. Nesses casos, a ausência de acompanhamento psicológico pode dificultar ainda mais o manejo da situação, já que a pessoa pode não reconhecer seus gatilhos nem dominar técnicas adequadas de regulação emocional.

A psicóloga também ressalta que esses recursos não funcionam da mesma maneira para todos. A resposta varia conforme o perfil do paciente, o tipo de transtorno, o tempo de manifestação dos sintomas e o nível de autoconhecimento sobre os próprios gatilhos. 

Em síntese, os chamados objetos reguladores podem ser aliados pontuais no controle da ansiedade, especialmente como estratégia complementar. Mas a especialista reforça: “Nada substitui a terapia”. O acompanhamento profissional segue sendo o caminho mais eficaz para compreender as causas da ansiedade, desenvolver estratégias personalizadas e promover mudanças duradouras.

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