Após completar 100 anos com saúde, paraense de Nova Timboteua relembra histórias de sua vida
Com centernário recém-completado, o aposentado Raimundo Freitas é um exemplo de vitalidade e vida saudável
Aos 100 anos, o aposentado Raimundo Freitas é um exemplo de vitalidade e longevidade saudável. Morador de Nova Timboteua, no nordeste do Pará, ele comemorou o centenário no último 31 de janeiro, cercado pela família, em Belém. Semianalfabeto, mas sempre ativo no dia a dia, ele também se mantém atento ao que acontece ao seu redor por meio das notícias, um dos hábitos dele no dia a dia. Raimundo ainda pede às filhas que o ajudem a ler jornais e ainda não perde as notícias na TV.
Nascido no Ceará em 29 de janeiro de 1926, ele diz que nunca imaginou alcançar os 100 anos. Mora no Pará desde 1958. Conta que enfrentou dificuldades quando chegou, mas criou um forte vínculo com o estado que o acolheu. Chegou a retornar à sua terra natal acompanhado das filhas. Ao todo, tem seis filhas nascidas no Piauí e outras três que vivem no Pará. Quase não toma remédios. Evangélico, agradece a Deus pela vida e comemorou a novidade com as filhas no aniversário deste ano, em Belém.
“Eu vim para fugir da seca. Eu tinha que comer na minha casa. Eu sou um cara lavrador, criava meu gadinho, porco, ovelha. Mas aí veio aquela seca com prejuízo. Teve gente que perdeu tudo. Aí a minha mãe morava aqui no Pará. A mamãe me ligou para mim, que a minha mãe tinha morado aqui no Pará mesmo, desde 1918, quando ela casou com o meu pai. Quando eu vim do Ceará, morei em Bonito. Fui para Nova Timboteua em 1940. Consegui comprar um lote de terra, trabalhei com plantio de pimenta”, lembra.
Sobre a vitalidade, ele diz: “Com 100 anos era para eu já estar caducando, mas estou bem. Nunca imaginei chegar aqui, embora desejasse. Deus é o mesmo. Coloca a gente no caminho certo no dia justo. Quando a pessoa deixa a vaidade, a bebida, o cigarro, quando deixa tudo isso, ela se torna alguém novo, uma pessoa abençoada por Deus. Quem quiser seguir esse caminho também vira uma nova pessoa, e todos os exageros ficam para trás”, comenta seu Raimundo.
“Tenho uma filha que é enfermeira. Moro com ela, e ela cuida muito de mim, dos meus remédios, da pressão. Eu obedeço a ela. Eu respeito meus filhos, e ela cuida de mim com muito carinho. Às vezes, tomo uma coisinha para o estômago. Sou uma pessoa sadia. Sempre que precisa, me leva ao médico. Já tive malária e sobrevivi. É assim: a gente tem que conservar a vida, porque Deus conserva a vida dos justos”, acrescenta.
Dia a dia ativo
No dia a dia, ele caminha pelo quintal de casa, “para as pernas melhorarem mais”, como costuma dizer. Mantém uma rotina ativa e gosta de se cuidar sozinho. “Minhas filhas dizem: ‘Papai, cuidado aí, o senhor vai cair!’ Aí eu respondo: ‘Não, não vou cair, não. Eu sei da minha resistência’”, comenta, sorrindo. Com bastante lucidez, recorda muitos momentos da vida: “Lembro de coisas de quando eu era criança”.
Para ele, estar bem informado é algo muito valioso. Diz que todos os dias procura ficar atento ao que acontece no Brasil e no mundo. Em muitos casos, são as próprias filhas que leem o jornal para ele, como O Liberal. “Eu assisto muitos programas na televisão. Programas de notícia, para saber o que está acontecendo no mundo, nos governos. Olho para saber o que está acontecendo, inclusive no nosso Brasil. Eu gosto de televisão. Gosto muito de jornal, para ver o que está acontecendo. Depois do jornal, eu coloco no programa evangélico. Eu sou crente”, conta.
Memórias
Com bom humor e sempre sorridente, ele relembra histórias da juventude e faz questão de destacar que a memória continua firme. Aos 14 anos, decidiu sair de casa. “Fugi dos meus pais”, diz. Quando perguntado para onde foi, responde: “Para Parnaíba.” E explica o motivo: “Para trabalhar, ganhar dinheiro.” Sobre o por que não permaneceu com a família, ele admite que não houve um motivo concreto: “Sem nada. Não teve motivo nenhum. Foi só eu mesmo”. Segundo ele, um primo o incentivou a ir embora. “Um primo meu me iludiu para ganhar o mundo. Ele tinha 16 anos e eu 14. Nós ganhamos o mundo, nós dois”, relembra.
“Eu fui vivendo minha vida, trabalhando, respeitando e sendo respeitado. Fui um cara de muitos amigos, muitos amigos mesmo. Uma coisa que fez considerarem minha pessoa: com muito respeito. Foi assim. Nunca peguei uma cadeia, nunca levei carão de ninguém”, acrescenta seu Raimundo.
Filhas relatam o dia a dia do pai
A filha mais velha de seu Raimundo, Dazinha Palheta, que mora em Belém e trabalha como autônoma, conta que o pai acompanha as notícias diariamente e entende tudo com facilidade. Ela explica que ele mantém autonomia e só precisa de ajuda em algumas situações. Segundo ela, ele acompanha a tudo sozinho. “E a gente conta também, porque ele é uma pessoa que entende as coisas rápido. Não precisa tanto esforço para entender nada. Algumas coisas que ele não consegue entender, a gente explica, mas o restante ele acompanha”, observa
Dazinha também comenta que, assim como o pai, costuma se informar pela televisão e pelo celular. Sobre vê-lo completar um século de vida, ela diz que é uma conquista rara e emocionante: “Ver ele completando 100 anos é muito gratificante, porque hoje em dia é muito difícil. Ter uma pessoa que complete 100 anos assim, com a lucidez que ele está. 100 anos não é pra qualquer um. É histórico isso”, conta.
Já a dona de casa Telma Freitas, filha que cuida de seu Raimundo e mora com ele em Nova Timboteua, descreve que a rotina do pai é tranquila e bem organizada. Ela explica que, apesar da idade, ele mantém bastante autonomia e quase não dá trabalho. “Ele acorda às vezes oito horas, oito e meia. Eu faço o café, dou o remédio dele em seguida, que é o remédio da pressão. Quando dá umas dez horas, ele merenda. Ele é independente para tudo: para tomar banho, para comer. À noite, ele gosta de dormir cedo. Eu armo o mosquiteiro dele, ele deita lá e dorme a noite todinha. E não dá trabalho de nada”, detalha.
Ela conta que, de vez em quando, ele pega “uma gripezinha”, mas se recupera rápido, já que ela trabalha na área da saúde. Telma explica que cuida do pai há décadas: “Mais de 40 anos cuidando dele. Eu cuidava da minha mãe, e a minha mãe faleceu há seis anos. E o que eu fazia com a minha mãe antes, porque ele era mais forte, eu faço agora com ele. O mesmo tratamento que eu dava a ela”, frisa
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