MENU

BUSCA

Alimentação inadequada coloca em risco macacos que circulam no entorno do Bosque Rodrigues Alves

Além de problemas nutricionais, prática pode favorecer a transmissão de doenças entre humanos e primatas

O Liberal

Dar comida para os macacos que costumam circular nas proximidades do Bosque Rodrigues Alves, em Belém, pode parecer um gesto inofensivo, mas a prática representa riscos tanto para os animais quanto para as pessoas. O alerta é de especialistas que acompanham os primatas que vivem no parque e observam um aumento na frequência com que eles deixam a área verde e se aproximam de locais com grande circulação de pessoas em busca de alimento.

Nas ruas do entorno do Bosque, especialmente próximo a paradas de ônibus, restaurantes e áreas de comércio, é cada vez mais comum encontrar os macacos em árvores, na fiação elétrica e até abordando pessoas que carregam alimentos.

Segundo a médica veterinária e diretora do Bosque Rodrigues Alves, Ellen Eguchi, o comportamento dos animais fora da área verde está diretamente ligado à ação humana. “A maior parte dos comportamentos desses macaquinhos é associada ao comportamento humano. Uma vez que eles aprendem que os humanos fazem a oferta de comida, eles passam a ser condicionados por isso e vão para as áreas onde isso mais ocorre, próximo do restaurante, próximo de parada de ônibus e da porta de entrada”, explica.

De acordo com a veterinária, os horários de maior circulação dos animais fora do parque costumam coincidir com períodos de maior movimentação de pessoas. “Normalmente, é hora de saída da universidade, hora de maior fluxo de pessoas em paradas de ônibus e nos dias de muito fluxo no parque”, afirma.

Ellen Eguchi alerta que oferecer alimentos inadequados aos macacos pode provocar problemas de saúde e aumentar o risco de transmissão de doenças. “O risco maior, além de desbalancear a dieta deles, que eles recebem uma dieta no parque, é a transmissão de doenças. A proximidade em relação aos primatas não humanos aos humanos é muito grande. Existem centenas de doenças em que a gente pode passar para eles e eles podem veicular para a gente. Um exemplo clássico é a herpes virose, que a nossa é letal para eles e a deles também pode ser letal para nós”, explica.

Ela também destaca que a aproximação excessiva entre humanos e animais pode resultar em acidentes. “Sim, com certeza existe risco de acidente. O macaquinho não sabe onde começa a liberdade dele, onde é que termina. Então, às vezes ele rouba os alimentos, às vezes ele pode atacar, assim como eu falei sobre as transmissões de antropos e zoonoses”, alerta.

A diretora do Bosque informou ainda que os animais recebem alimentação diária e acompanhamento constante dentro do parque. “Eles recebem a alimentação todos os dias. Porém, a gente vai instituir um horário em que os visitantes tenham acesso, porque eles se alimentam antes da abertura da visitação. E a gente vai colocar um outro horário agora, às dez e meia da manhã, no comedouro deles, que fica no centro do parque, na Fonte dos Intendentes, para que os visitantes possam ver a alimentação, porque eu acho que só a gente falando não está sendo suficiente”, adianta.

Desequilíbrios nutricionais

O médico veterinário e docente de Medicina Veterinária, Manoel Damasceno, reforça que a alimentação oferecida pelos visitantes pode trazer sérias consequências para a saúde dos primatas. “Alimentar os macacos com alimentos oferecidos pelos visitantes pode causar desequilíbrios nutricionais, obesidade, distúrbios digestivos, intoxicações, doenças metabólicas e aumentar o risco de transmissão de doenças entre humanos e animais”, afirma.

Segundo ele, alimentos comuns na rotina das pessoas, como biscoitos, pães, salgadinhos e doces, estão entre os mais prejudiciais. “Esses alimentos possuem excesso de açúcar, sal, gordura e aditivos artificiais, podendo causar obesidade, diabetes, enfermidades gastrointestinais, problemas dentários e deficiência de nutrientes essenciais”, explica.

Damasceno destaca ainda que os animais já recebem uma alimentação adequada, formulada de acordo com as necessidades de cada espécie. “A dieta adequada é composta por frutas, verduras, legumes, sementes e outros alimentos específicos para cada espécie. O acompanhamento é realizado por médicos veterinários e tratadores, que monitoram a condição corporal, o consumo alimentar e a saúde dos animais”, fala.

Além dos prejuízos à saúde, o veterinário ressalta que a oferta constante de alimentos interfere diretamente no comportamento natural dos macacos. “Os animais tendem a perder hábitos naturais de busca por alimento, tornar-se dependentes da oferta humana, aumentar disputas entre indivíduos e apresentar maior aproximação das grades e dos visitantes”, alerta.

Para ele, a melhor forma de contribuir para a conservação dos animais é não alimentá-los. “A melhor forma de cuidar dos macacos é não alimentá-los. Os visitantes devem apenas observá-los, respeitar as orientações do Bosque e contribuir para a conservação da saúde e do comportamento natural desses animais. Dessa forma, preserva-se a saúde dos primatas e dos próprios visitantes, reduzindo o risco de transmissão de doenças e evitando alterações indesejadas no comportamento da fauna silvestre”, orienta.

Mulher é surpreendida por macaco

A doméstica Lucilena Martins, de 63 anos, conta que recentemente foi surpreendida por um dos animais enquanto aguardava o ônibus em uma parada na avenida Almirante Barroso.

“Na segunda-feira [15/6], eu estava sentada aqui esperando o meu ônibus, quando tirei um bombom da bolsa e o macaquinho veio de surpresa tentar pegar da minha mão. Eu consegui puxar na hora, porque eu não gosto de alimentar o animal assim e sei que faz mal para a saúde deles. Mas acontece muito das outras pessoas darem comida”, relata.

Outra cena presenciada pela reportagem chamou a atenção. Um vendedor de bombom retirou da própria boca um chiclete e entregou ao animal. A técnica de enfermagem Lucirene Dutra, de 48 anos, que acompanhou a situação, criticou a atitude.

“Faz mal, sim, para a flora estomacal. Ele vai ter dificuldade de digerir esse chiclete e vai prejudicar a saúde dele. Não só no estômago, mas também no intestino e, assim, para toda a saúde dele. Eu não sei o que eles vêm fazer aqui fora, não sei se é o calor aí dentro ou se vêm em busca de alimento mesmo. Alguma coisa atrai ele aqui para fora. É importante que a população não alimente assim, porque vai estar fazendo mal para a saúde dele”, afirma.