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Impressores de O Liberal são os olhos apurados que garantem a qualidade gráfica do jornal

Profissionais com mais de duas décadas de casa revelam os segredos da qualidade e a emoção de participar da história da comunicação paraense

Gabriel da Mota e Gabi Gutierrez

Na madrugada, quando a maioria da cidade repousa, uma equipe de nove profissionais no parque gráfico de O Liberal trabalha em um ritmo intenso e silencioso. Eles são os impressores, os guardiões finais da notícia impressa, responsáveis por transformar arquivos digitais em milhares de exemplares que chegarão às mãos dos leitores antes do café da manhã. Para celebrar o aniversário de 79 anos do jornal, dois veteranos compartilham suas trajetórias, marcadas por décadas de dedicação ao ofício.

Luiz Cláudio dos Santos, mais conhecido como 'Zas', acumula 36 anos de casa — seu primeiro e único emprego. Ele é o elo entre a tecnologia moderna e a tradição de um jornal que sempre preza pela excelência. Sua função vai além de apenas operar a máquina: ele é o responsável por garantir que a fidelidade das cores e a nitidez do texto sejam mantidas do monitor para o papel.

"Da imagem digital até a chapa, nós temos que deixar [uma impressão] praticamente igual. Não fica 100%, mas a gente se aproxima bastante", diz Zas, que acompanha a evolução da tecnologia de impressão há quase quatro décadas.

Experiência e tecnologia

A máquina de impressão atual, que tem cerca de 20 anos, é descrita pelos profissionais como um salto de qualidade, mas que não anula a necessidade do conhecimento humano. Josué Pereira, outro impressor com 28 anos de serviço no Grupo Liberal (25 dedicados à impressão), enfatiza que a máquina é apenas metade do processo.

"Eu digo que 50% do meu trabalho é a máquina, né? Ela entrega o jornal para a gente quase pronto, mas precisa da visão do profissional. Se não tiver, não adianta ter uma boa máquina. O que a gente tenta fazer aqui é a união dos dois", afirma o impressor.

A rotina de trabalho da equipe segue um padrão. "O nosso trabalho é igual ao de um padeiro: o jornal tem que estar pronto junto com o café de manhã", explica Josué. O trabalho começa às 21h ou 22h e se estende até as 4h da manhã, quando o jornal deve estar todo nas ruas.

A emoção de fazer parte

A expertise dos impressores está na capacidade de fazer ajustes finos que a máquina sozinha não faria. Zas explica que, em máquinas antigas, o desperdício (jornais inutilizados) chegava a mil exemplares. Hoje, graças ao avanço tecnológico e à capacidade da equipe de salvar padrões de tinta, a margem de erro diminuiu drasticamente.

"Antes, a quantidade de jornais perdidos era em torno de mil; agora, fica em torno de 300", detalha Luiz Cláudio, demonstrando como a habilidade humana reduz custos e aumenta a sustentabilidade do processo.

Para quem dedica a vida ao jornal, o sentimento de pertencimento é profundo.

"Para mim, é uma honra trabalhar aqui, até porque tudo que eu tenho veio daqui", confessa Zas. "Estamos colocando um jornal de qualidade na rua, temos que mostrar nosso melhor. Eu sou muito grato, primeiramente, a Deus, e depois a O Liberal por isso", acrescenta.

Coberturas marcantes

Enquanto operam máquinas, os impressores são testemunhas da história. Josué Pereira carrega na memória a cobertura de um dos eventos mais trágicos do estado. Na época como motorista do jornal, ele esteve presente na rebelião do presídio São José, em 1998. "As cenas que eu vi ali foram de pessoas caindo lá de cima, se jogando, pessoas sem cabeça… cenas muito fortes. Até hoje, não esqueço", relembra.

Já Zas guarda uma memória mais inusitada, relacionada a um erro que parecia ser real, mas era artístico. "Eu já tinha rodado uns 10 mil jornais quando vi uma matéria de cabeça para baixo. Disse: 'Meu Deus do céu! Como eu não vi isso?'. Parei, chamei o meu chefe e ele disse: 'Não, rapaz, tu é doido… isso é arte!'. Eu, nervoso, não percebi que era assim mesmo", conclui.