Conheça a rotina de um baderneiro, profissional responsável pela distribuição impressa de O Liberal
Aos 76 anos, Francisco do Carmo Favacho é um símbolo de resistência da mídia impressa em Belém
O relógio marca 3h30 da madrugada quando a rotina de Francisco do Carmo Favacho se inicia. Aos 76 anos, ele é um dos mais antigos e respeitados distribuidores de jornais de Belém, uma figura conhecida no jornalismo paraense como "baderneiro". Seu ponto de partida é o coração logístico de O Liberal, na sede do Grupo Liberal, no bairro do Marco, onde ele carrega a responsabilidade de levar a informação para as ruas.
Favacho, que se define como autônomo e vendedor, iniciou sua jornada aos 11 anos.
"O jornal é como se fosse a minha família, meu dia-a-dia. É como se fosse uma parte de mim", compartilha.
A evolução do ofício
O ofício do baderneiro (distribuidor de jornal) mudou radicalmente com o tempo. Favacho lembra os dias em que a demanda era exponencialmente maior. "Antigamente eu trabalhava com 5 mil jornais. Hoje eu trabalho com mil exemplares", compara. A chegada da internet e as novas plataformas de comunicação digital transformaram o cenário da mídia impressa. No entanto, para Favacho, a mudança não é sinônimo de desistência, mas de readaptação.
"A transformação foi muito grande, muito grande mesmo. A evolução veio, o progresso veio. Nós temos que nos readaptar para fazer aquilo que a gente gosta, aquilo que a gente ama", resume. Hoje, ele distribui O Liberal para um núcleo de cerca de 20 vendedores (baderneiros e seus auxiliares) que, como ele, mantêm a chama da imprensa acesa.
Laços de confiança
Para sobreviver e prosperar nesse novo contexto, Favacho entende que a estratégia vai além da simples venda: é sobre relação humana. "Acima de tudo tem que ter carinho, conversa, respeito pelas pessoas. Saber conviver, se adaptar ao meio, senão é difícil", ensina. Seus clientes se transformaram em amigos, criando um círculo de confiança. "Hoje, essas pessoas são mais do que clientes; são todas amigas, tipo uma família", reforça. A pausa para a conversa no ponto de distribuição tornou-se um ritual.
Memórias
Ao longo de mais de seis décadas no ofício, Favacho foi testemunha ocular das manchetes mais impactantes que passaram pelas páginas do jornal. Ele recorda de momentos em que a notícia, por sua dramaticidade ou relevância, impulsionou a venda de forma histórica. Entre os fatos mais marcantes, ele cita a queda do avião do Coronel Ludugero na Baía do Guajará, em 1970, e as mortes de personalidades globais como o piloto Ayrton Senna (1994) e o Papa João Paulo II (2005). "O jornal vendeu muito nessa época", rememora, destacando o papel essencial do impresso em momentos de comoção nacional e mundial.
Votos para O Liberal
Aos 79 anos do jornal O Liberal, que ele considera parte indissociável de sua vida, o desejo de Favacho é de longevidade. "Que O Liberal saiba se recriar. Disso, eu tenho certeza", afirma. Para Favacho, cada dia é uma satisfação completa. "Eu tenho que vir para o jornal [trabalhar]. Se eu não vier, parece que fica um vazio em mim", conclui.
Palavras-chave