Soluções baseadas na natureza combatem a crise climática
Capital paraense avança em infraestrutura sustentável com novos parques
Quando se pensa na Amazônia, a imagem mental imediata é a de uma floresta vasta, cortada por rios. Entretanto, a região se consolida cada vez mais como um espaço urbano, o que impõe o desafio de conciliar a preservação dos recursos naturais com o desenvolvimento das cidades, que já abrigam cerca de 76% da população, segundo dados do Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ao longo das décadas, cidades como Belém vivenciaram o êxodo de populações ri beirinhas em busca de melhores condições de vida. Essa dinâmica promoveu uma ocupação desordenada, resultando em de safios complexos de saneamento, habitação e saúde — problemas que se agravam drasticamente com o calor extremo.
A “Cidade das Mangueiras”, historicamente reconhecida pelos túneis de árvores em sua área central, vive uma nova fase de urbanização. Mais de um século após o plano de arborização do intendente Antônio Lemos, iniciado no final do século XIX, as mudas que vieram da Ásia cresceram e, para além da estética, tornaram-se funda mentais para a criação de zonas de sombra.
Em contrapartida, o avanço das construções de concreto nas áreas periféricas da capital paraense reduziu drasticamente a vegetação. A ocupação irregular em áreas de várzea e igarapés impactou o fluxo hídrico, prejudicando a absorção das águas pluviais pelo solo e exacerbando os alaga mentos, quadro agravado pelo descarte inadequado de resíduos.
BASEADAS NA NATUREZA
É neste cenário que ganham força as Soluções Baseadas na Natureza (SbN). O conceito, sistematizado pela União Inter nacional para a Conservação da Natureza (UICN) na década de 2000, propõe conciliar a conservação ambiental à urgência das crises climáticas e do desenvolvimento urbano. A premissa é clara: proteger a natureza não é apenas uma estratégia de preservação de espécies, mas uma medida econômica e social vital para a proteção humana.
As SbN sugerem a implementação de tetos e paredes verdes, parques urbanos e “florestas de bolso” para reduzir a temperatura local, melhorar a qualidade do ar e mitigar inundações.
NOVOS PARQUES
Em maio, a Prefeitura de Belém anunciou, no bairro da Pratinha, o início de uma das maiores intervenções de adaptação climática e recuperação ambiental planejadas para a capital.
O objetivo é transformar o Igarapé Mata Fome — símbolo histórico de abandono e poluição — em referência de recuperação ambiental, dignidade e reparação histórica para a população mais vulnerável da cidade. Para os moradores, a expectativa é de alívio após décadas de alagamentos, lama e esgoto a céu aberto. “Eu moro há quatro anos aqui, e quando chove, alaga tudo. A água entra nas casas e causa prejuízo. É uma dificuldade até para as crianças irem para a escola. Espero que o projeto melhore e acabe com esse problema”, afirma a dona de casa Rosângela Cunha, moradora da Alameda Isabel.
Este projeto integra uma tendência de obras de infraestrutura impulsionadas pela preparação para a COP 30, conferência realizada ano passado em Belém. O Porto Futuro, o Parque da Cidade, o Par que Linear da Tamandaré e a Nova Doca representam uma mudança na forma como Belém gerencia sua infraestrutura, abandonando, gradualmente, a lógica de canais puramente concretados. O objetivo central é a resiliência urbana e o aumento do conforto térmico.
O projeto da Nova Doca revitalizou 1,2 km do canal da Avenida Visconde de Sou za Franco, transformando-o em um es paço de convivência que integra o centro da cidade ao Porto Futuro. Além da drenagem, a obra prioriza a mobilidade ativa com ciclovias e iluminação em LED, reduzindo a sensação de barreira urbana que o canal impunha.
Já o Parque Linear da Tamandaré incluiu a instalação de um sistema de comportas para controlar o fluxo das marés e mitigar alagamentos, acompanhada de macrodrenagem e esgotamento sanitário. O projeto ainda integrou um terminal fluvial, unindo drenagem à mobilidade aquaviária, o que facilita o acesso ao centro histórico e valoriza o patrimônio local.
No entanto, um dos maiores desafios dessas intervenções reside no hiato temporal da arborização. O plantio de mudas jovens é, operacionalmente, mais viável que o transplante de árvores adultas, que ofereceriam sombra imediata. O resultado é um período de anos de exposição ao sol intenso enquanto a vegetação tenta se estabelecer — isso quando a manutenção não falha e as mudas sobrevivem.
Sem a cobertura das copas, o solo retém e devolve altas temperaturas, intensificando as ilhas de calor urbano. O uso desses es paços nos horários de pico, entre 10h e 16h, ainda enfrenta limitações quanto ao conforto térmico, reforçando que a eficácia das Soluções Baseadas na Natureza está direta mente ligada ao ciclo de desenvolvimento da arborização plantada.
Palavras-chave