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Desafio da Belém pós-COP: qual o legado?

Transformação estimulada pela Conferência revela avanços em infraestrutura e mobilidade e entraves no saneamento

Em maio de 2023, quando Belém foi anunciada como a cidade-sede da COP 30, o termo ainda não fazia parte do conhecimento de boa parte da população. A confirmação de que a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ocorreria em uma capital do Norte colocou o Brasil e o coração da Amazônia no centro dos holofotes do mundo.

A escolha não foi por acaso: a região é considerada de importância no combate ao desmatamento e ao efeito estufa. Belém funcionou como um laboratório, escancarando os desafios do ambiente e da cidade na atualidade, desde o calor até os desafios no descarte de resíduos e a escassez de água, que fica sobre a bacia do planeta.

Desde o anúncio, estabeleceu-se uma corrida contra o tempo para responder às críticas de fora sobre a capa cidade da capital do Pará em receber um evento de tal magnitude. Diante do desafio, articulou-se uma mobilização sem precedentes envolvendo agentes da União, dos estados e dos municípios, além de organizações do exterior e empresas.

Para garantir o funcionamento da estrutura, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) inovou em parceria com o Governo do Estado e impulsionou investimentos em infraestrutura. O objetivo era garantir que o evento deixasse um legado para a cidade.

Os aportes do BNDES incluíram uma linha de crédito de R$ 5 bilhões com o objetivo de fortalecer a rede de hotéis, modernizar infraestruturas e apoiar os serviços de turismo na capital. Paralelamente, foram repassados R$ 250 milhões diretamente ao Governo do Pará, com foco em obras de macrodrenagem e urbanização de periferias. Em outra frente, o banco captou mais R$ 21 bilhões em acordos com instituições (como BID, CAF e agências de desenvolvimento) para a transição para energia e biocombustíveis.

Infraestrutura e sustentabilidade

As bacias do Tucunduba e do Murutucu, o Parque da Tamandaré, o entorno do Estádio Mangueirão, o Canal do Bengui, o Terminal de Belém e o Museu das Amazônias foram algumas das frentes que ganharam vida com o apoio do governo.

O foco em infraestrutura, mobilidade e projetos do setor com financiamento do BNDES continua avançando ao longo de 2026. Segundo Tereza Campello, diretora do banco, os investimentos priorizam melhorias na qualidade de vida. “Nós restauramos, recuperamos e construímos pavimentação, ciclovias e parques em 12 canais da cidade. Desses, sete já estão em funcionamento e outros cinco seguem em obras”, pontua Campello.

O BNDES também expandiu suas ações em sustentabilidade. Um dos destaques foi a aplicação de R$ 218 milhões no Fun do Amazônia no período de três anos, retomando os aportes após um período de paralisação. “É um investimento para viabilizar atividades de bioeconomia, restauro de florestas, apoio a povos da floresta e assentamentos”, explica a diretora.

AVANÇO NA MOBILIDADE

A Região Metropolitana de Belém transformou-se em um canteiro de obras que modificou profundamente a paisagem. Hoje, a população usufrui de vias, parques, viadutos e ciclovias. Os ônibus a eletricidade utilizados no transporte dos participantes da conferência, agora integram o BRT Metropolitano, que interliga a capital a Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Izabel, Santa Bárbara e Castanhal.

O trabalhador Giovane Silva utiliza o sistema de ônibus de segunda a sexta-feira e, eventualmente, aos sábados. Em sua rota de cada dia, o deslocamento começa no bairro Castanheira, cruza Ananindeua e Marituba, e termina apenas em Benevides. O tempo de viagem na área de Belém, que no passado chegava a quase duas horas e meia, caiu para cerca de 30 minutos. Para o jovem, a mudança trouxe um ganho de bem-estar.

“A gente chega em casa mais cedo para ter mais tempo de lazer e compartilhar isso com a família. Isso ajuda bastante”, anima-se o rapaz, apontando para a estação do BRT Metropolitano

DESAFIO DO SANEAMENTO

Se a preparação acelerou projetos de vias que a população esperava há décadas, o contraste ainda resiste em comunidades que convivem de perto com a falta de saneamento, valas a céu aberto e o acesso com falhas à água.

De acordo com o Ranking do Saneamento 2026, que o Instituto Trata Brasil (ITB) divulgou, a capital do estado ainda figura entre os 20 municípios com os problemas no atendimento à população, ocupando a 94ª posição entre as 100 cidades do país e figurando em 14º lugar entre as posições do fim da tabela.

Luana Pretto, da presidência do ITB, explica que, embora o Pará siga as diretrizes do marco do saneamento — que estabelece metas para a universalização dos serviços —, os desafios do passado continuam pesando. “Ananindeua, Belém e Santarém são municípios que, no ranking do sane amento, têm indicadores com problemas, com desafios principalmente em relação à coleta e tratamento dos esgotos. São municípios que, historicamente, também in vestiram pouco”, observa Pretto.

A virada de página para esse cenário começou a ser desenhada com a concessão do saneamento do Pará em quatro blocos, englobando 126 municípios. A concessionária Águas do Pará assumiu o serviço e projeta o investimento de desta que da história da Amazônia na área: R$ 18,7 bilhões ao longo de 40 anos para ampliar e modernizar os sistemas. As metas preveem o abastecimento de água para 99% da população paraense até 2033, além de uma expansão e melhoria na cobertura de esgotamento até 2039.