Carta psicografada foi usada em júri para tentar inocentar réu da boate Kiss; relembre
Defesa de músico acusado de acender artefato que provocou incêndio apresentou mensagem atribuída a uma das vítimas durante julgamento em 2021
Um episódio inusitado marcou o julgamento dos réus pelo incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS), em 2021. Durante os debates entre defesa e acusação, a advogada do músico Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda Gurizada Fandangueira, apresentou uma carta psicografada na tentativa de defender o cliente.
Marcelo era apontado pelo Ministério Público como responsável por acender o artefato pirotécnico utilizado durante o show que deu início ao incêndio. A tragédia ocorreu em 27 de janeiro de 2013, durante uma festa universitária, e deixou 242 mortos e mais de 600 feridos.
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A mensagem apresentada pela defesa teria sido psicografada a partir de um texto atribuído a Guilherme Gonçalves, uma das vítimas do incêndio. Segundo a advogada Tatiana Borsa, o conteúdo teria sido recebido cerca de seis meses após a tragédia, em um centro espírita de Uberaba, em Minas Gerais.
A carta fazia um apelo para que as pessoas não concentrassem os pensamentos na busca por culpados e tentassem compreender a tragédia sob uma perspectiva espiritual. Um dos trechos dizia: “Ao invés de gastar nosso pensamento procurando por culpados, vamos nos unir em oração”.
A mensagem fazia parte do livro Nossa Caminhada, produzido a partir de textos atribuídos a vítimas da tragédia. Familiares haviam encomendado as psicografias a quatro médiuns como uma forma de buscar conforto após as mortes.
Defesa apresentou carta durante julgamento
A advogada reproduziu um áudio com a suposta mensagem durante sua argumentação diante dos jurados. O conteúdo também afirmava que os responsáveis pela tragédia tinham famílias e não teriam agido com intenção de provocar o incêndio.
A utilização do material provocou reação entre familiares das vítimas. Gabriela Ahmad, irmã de uma das jovens mortas na boate, classificou como inadequado o uso do livro pela defesa e afirmou que a obra tinha sido criada para auxiliar famílias que enfrentavam o luto.
Diante da repercussão, a advogada pediu desculpas pela reprodução da carta durante o julgamento. Marcelo de Jesus dos Santos posteriormente obteve livramento condicional.
Relembre o incêndio da boate Kiss
O incêndio aconteceu durante a festa universitária “Agromerados”, realizada na boate Kiss, em Santa Maria. No palco, a banda Gurizada Fandangueira se apresentava quando um artefato pirotécnico foi acionado e atingiu o revestimento do teto.
As faíscas entraram em contato com uma espuma inflamável instalada no local, provocando o fogo e a liberação de fumaça tóxica. A rápida propagação das chamas e as condições de segurança e evacuação da casa noturna dificultaram a saída do público.
Quatro pessoas foram levadas a julgamento: Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, sócios da boate; Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda; e Luciano Augusto Bonilha Leão, produtor musical.
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