Vai de quê?

Elck Oliveira

O carro próprio ainda é, para muita gente, um dos maiores sonhos de consumo. Para outras pessoas, no entanto, esse bem tem recebido cada vez menos atenção. As dificuldades na mobilidade urbana, a violência no trânsito, os gastos excessivos com combustível e impostos, entre outros fatores, têm sido decisivos para que uma parcela da população de Belém e Região Metropolitana comece a deixar o carro mais tempo na garagem ou mesmo se desfaça dele. E é aí que tanto o transporte por aplicativo e os chamados modos não-motorizados, como as bicicletas, por exemplo, passaram a ser opções bem mais atraentes.

“O transporte público faz com que se ocupe menos espaço nas vias, que se tenha menos veículos nas ruas e, consequentemente, menos acidentes, menos engarrafamentos, menos poluição, então esse é o ideal. O problema é que temos um sistema público ainda muito deficitário na Região Metropolitana de Belém, que faz com que as pessoas migrem para outros modos de transporte, inclusive o transporte clandestino, o que é muito negativo. Mas, se a gente tivesse um transporte público de qualidade, eficiente, com certeza, teria outro cenário”, afirma a professora e pesquisadora da área de trânsito e transporte urbano, Patrícia Bittencourt. 

Patrícia Bittencourt (Dudu Maroja)

A professora explica que a migração em massa do transporte público para um transporte individual, como é o caso dos carros de aplicativos, é negativa para o sistema de mobilidade, ao passo que a substituição do carro próprio pelos transportes por aplicativo é positiva. O ideal, no entanto, seria o fortalecimento do sistema público. 
Ela ainda lembra que o transporte por aplicativo teve uma aceitação muito boa no Brasil, por vários fatores. O primeiro deles, como já citado, é a má qualidade e a pouca capilaridade do transporte público. Em seguida, a questão do desemprego generalizado no País, o que acabou criando uma oferta muito grande de mão de obra de motoristas disponíveis. Aliado a isso, o conforto; a não necessidade de garantir vaga de estacionamento; a tarifa, que, dependendo do tipo de viagem, fica bem mais barata do que a do transporte público coletivo, entre outros elementos. A especialista acredita que essa é uma tendência que veio para ficar. 

A contadora Thayane Lima, de 23 anos, é partidária desse modal. Moradora de Belém, ela tem optado por usar cada vez menos o carro particular. Para ela, são muitos os contras envolvidos nessa escolha. “Fazendo uma conta rápida, os custos com manutenção de carro, IPVA, estacionamento e gasolina são muito maiores do que o valor que gastamos numa corrida de um transporte por aplicativo, levando-se em consideração a distância que você pretende percorrer e o tempo. Por isso, acabei optando pelos carros de aplicativo, que, além de tudo me permitem conforto e comodidade”, avalia.

A professora Patrícia Bittencourt também diz que a utilização das bicicletas e outros tipos de veículos não-motorizados, como os patinetes, são outra tendência que só deve crescer em Belém e região, apesar das grandes dificuldades ainda enfrentadas. “Embora tenhamos visto ultimamente uma expansão da rede cicloviária em Belém, ainda não é o ideal. Essa expansão se deu mais nos grandes corredores e pouco nas periferias, que é onde as pessoas mais usam as bicicletas. Por isso, os ciclistas ainda correm muitos riscos. É preciso cuidar da expansão, mas também melhorar a fiscalização, porque ainda há uma grande utilização irregular das ciclofaixas e ciclovias. Eu sou uma grande defensora do transporte cicloviário, pois a nossa cidade e região têm vocação para esse tipo de transporte. Não tenho dúvidas de que a bicicleta compartilhada é uma tendência que vai crescer muito nos próximos anos, assim como outros tipos de transportes compartilhados”, assegura. 

Cicloativismo 

O professor Murilo Rodrigues, de 35 anos, concorda com essa visão. Morador do município de Ananindeua, ele usa prioritariamente a bicicleta para se locomover. Conta que começou a refletir sobre a questão ainda em 2009 e, desde então, passou a se aproximar de movimentos e organizações que estimulam o uso das bicicletas, de cicloativismo. Em 2015, ajudou a criar o coletivo ParáCiclo. Hoje, embora não tenha abandonado completamente o uso do carro privado – até por conta dos dois filhos menores – faz todos os pequenos percursos de bicicleta ou se alterna entre a magrela e o transporte público. 

Murilo Rodrigues (Dudu Maroja)

“A ida ao trabalho, por exemplo, é dividida entre a bicicleta, que me possibilita atividade física e reduz o tempo de deslocamento, e o transporte coletivo, que me permite atualizar a leitura, apesar de ampliar o tempo de deslocamento. Ambos me tiram do tédio, ansiedade e solidão do carro, e isso tem valido a pena”, aponta.
Murilo também torce para que o poder público dê mais atenção à rede cicloviária. “Espero que venham ciclovias dentro da norma em largura, pavimentação, sinalização e rampas de acesso, para garantir um deslocamento digno. Não só quero continuar pedalando, como quero conquistar novas pessoas para essa vivência”, completa.

Alternativas

A bancária Glenda Silva, de 36 anos, é outra que se divide entre diferentes opções de transporte. Moradora de Belém, ela tinha carro próprio há até pouco tempo. Vendeu o veículo, sobretudo, por conta da saturação que sofria no trânsito e pelos custos de manutenção. Voltou a usar o transporte público, a caminhada e, vez ou outra, o táxi ou o transporte por aplicativo. “Percebi o quão ficava estressada com o trânsito caótico da cidade, a falta de educação dos condutores, os custos de manutenção do veículo e a perda de tempo para achar vagas de estacionamento. Então, cheguei à conclusão de que a relação entre custo e benefício não estava sendo satisfatória e optei por outras alternativas”, conta.

Para ela, dirigir no trânsito de Belém chegava a ser insuportável, principalmente, nos horários de pico. Por isso, ela diz que não pensa em voltar a ter carro, pelo menos por enquanto. 

“Eu acredito que isso já é uma tendência mundial, pois, além, de beneficiar o meio ambiente como um todo, ganhamos saúde ao trocarmos o carro pela bicicleta ou caminhar. Mas é necessário um despertar para essa consciência, seja no âmbito individual, seja enquanto sociedade, e isso somente através da educação. O Estado precisa oferecer condições para fomentar essas ideias”, avalia.

Meio ambiente

A engenheira agrônoma Thiara Fernandes, 37, lembra que usava bastante a bicicleta na época em que fazia a graduação na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Depois que se formou e começou a trabalhar, comprou um carro, que deixou de lado durante a gravidez, em 2014, por conta do estresse do trânsito. Em 2016, comprou uma bicicleta novamente. Vendeu o carro em 2017 e hoje, basicamente, utiliza a bike para se locomover, com exceção dos percursos mais longos, para os quais utiliza os carros de aplicativo ou aluga um automóvel. “Penso que essa economia circular, na qual você não tem o bem, mas pode usufruir dele (por aplicativo ou aluguel de carro) é adequada a um futuro mais coerente com a sustentabilidade do planeta”, analisa.

Thiara Fernandes (Dudu Maroja)

Para Thiara, que trabalha com comunidades tradicionais, como quilombolas, extrativistas, ribeirinhos, o meio ambiente é um tema muito importante. “A agroecologia e a sustentabilidade ambiental são minhas bandeiras e penso que mais do que o discurso, é a prática que nos molda. Acredito que vivemos um momento decisivo para humanidade, e esse momento fala muito sobre nosso íntimo, nossas escolhas individuais que afetam o coletivo. Quanto mais consciente minha escolha, mas feliz e prazerosa ela se torna”, conclui ela, que tem na família excelentes exemplos: mãe e irmãs também usam a bicicleta como principal meio de transporte. 

Investimentos
Sobre os problemas ainda enfrentados pelos ciclistas da capital paraense, o titular da Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (Semob), Gilberto Barbosa, diz que a prefeitura tem investido para tornar o sistema mais atrativo. De acordo com o superintendente, até 2013, Belém era dotada de 67,9 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas “isoladas, sem conexões entre si”. A atual gestão decidiu, então, criar essas conexões e ampliar a rede, que hoje atinge 100,6 quilômetros de extensão, sendo que desse total 24,8 quilômetros são de ciclovias e 75,8 quilômetros, de ciclofaixas. “Ou seja, entre os anos de 2013 e 2019, a prefeitura de Belém implantou mais de 30 quilômetros de ciclofaixas totalmente interligadas, possibilitando atravessar a cidade de uma ponta a outra por uma ciclorrota presente em cerca de 40 vias de grande circulação. A estimativa é que até o final de 2020 a malha cicloviária do município seja ampliada para 147,8 quilômetros de extensão”, cita. 

Além disso, segundo Barbosa, o município de Belém também vem trabalhando para melhorar o transporte coletivo, e os exemplos disso são os investimentos em corredores exclusivos para ônibus; o funcionamento do Sistema BRT Belém em modelo piloto, e a primeira licitação do transporte público por ônibus, cujo edital está aberto. “Esse modelo redesenhará todo o sistema de transporte, não só com novos veículos, mas com uma nova logística de circulação e uma nova forma de relação entre poder público e iniciativa privada, garantindo, acima de tudo, a qualidade e eficiência”, garante. 
Sobre o transporte por aplicativo, Gilberto Barbosa informa que o cadastro dos prestadores de serviço, que vinha sendo realizado pela prefeitura, foi interrompido por sentença judicial, “mas a prefeitura de Belém deve recorrer, especialmente por compreendermos que alguns itens são fundamentais para garantir a segurança do usuário, que é o nosso maior foco. Entre esses itens, estão a garantia da vistoria do veículo; a exigência do curso de formação de condução de passageiros e a presença do dístico verificador, que garantiria a identificação externa de que aquele veículo está fazendo serviço de transporte por aplicativo”.

Troppo
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