Sentidos políticos, representações e identidades

Nesta edição existiu a intenção ao trabalhar tanto no núcleo histórico como nos demais núcleos que se formaram.

Nina Matos

As escolhas de uma curadoria, sempre carregam intencionalidades , quer políticas ou estéticas , e na exposição As Amazonas do Pará – Arte Pará 2019, apresentada nesta série de textos para a Troppo, existiu a intenção ao trabalhar tanto no núcleo histórico como nos demais núcleos que se formaram, o estabelecimento de uma fala com o presente, afinal uma obra de arte sempre fala do presente. A relação de obras com semânticas próprias de cada contexto, relacionando-se na contemporaneidade de temas sempre recorrentes, como por exemplo, da condição social abordada por Antonieta Feio, na reprodução da obra “Mendiga” de 1951, presente na mostra, na representatividade construída pela pintora, quer pela influência do modernismo ou não, da mulher negra periférica ao atual genocídio do povo negro que permanece nas condições miseráveis presentes nas abordagens das obras de Naiara Jinknss, refletindo sobre as presenças histórica e cultural dos descendentes de africanos e suas escravizações e marginalização constante, salientando vozes silenciadas pelo racismo no vídeo “4ª Marcha das Mulheres Negras - Mães Negras Amazônidas em luta contra o genocídio do povo Negro” e nas fotografias “Dona Angélica, Samauma antiga da Amazônia” e “Cor e traço da Amazônia Rural” e nas obras de Nina Matos, que ressignifica a “Galeria dos Condenados”, um documento histórico, que está guardado na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, tratando-se de dois álbuns, pertencentes à Casa de Correção da Corte, primeira penitenciária construída no Brasil, e onde os presos da referida instituição passaram a ser fotografados.  Cada página do documento, traz uma fotografia acompanhada de informações sobre o condenado retratado: seu nome, seu número na Casa de Correção, os delitos dos quais foi acusado, penas e multas, além da data de entrada.

Nina, em trabalho de ressignificação de iconografia histórica, apropria-se desse documento, basicamente da estética e reflete sobre tais condenações, uma vez que os álbuns do império, traziam em boa parte de suas páginas, negros, onde suspeita-se, como nos dias de hoje, dos motivos reais de cada condenação, de pessoas submetidas à forças de sistemas violentos perenes e no presente, abordando ainda outras condenações da mulher negra como o fato de sofrerem os maiores índices de feminicídio , a violência do Estado que gera o extermínio de jovens negros e a violência contra mulheres trans.

Podemos ver ainda na mostra, um núcleo que expande para questões de opressões e violências históricas e contemporâneas, como nas obras de Lúcia Gomes e Danielle Fonseca, operando trabalhos de posicionamentos políticos diante das arbitrariedades vigentes que evocam o passado da “longa noite”. Em Lúcia, uma amazônida realiza seu caminhar silencioso e convicto contra truculências desse passado e do presente que enaltece a tortura, no vídeo “Pelo julgamento dos golpistas de 64 e torturadores!” no passeio solitário da maruja em traje desprovido de cor e adornos, sem a alegria do folguedo popular, de criação atribuída à negros escravos devotos de São Benedito, um ato de resistência . Em Danielle, a simbologia de caixas de correios e caixas de abelhas vazias, revela sua exasperação com o tempo sombrio que vivemos e seus apagamentos, imbrica a morte atual, em grande escala das abelhas, animais que polinizam e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas, vitimados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, soando como um alerta real, ao apelo de Caetano Veloso, na canção Maria Bethânia, um repúdio à ditadura, gravando uma estrofe em placa de aço, como um apelo permanente, um pedido a ser fixado na memória.

Nina Matos – Curadora de As Amazonas do Pará- Arte Pará 2019

Troppo
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