Da floresta aos perfumes e cosméticos: por que o Pará ainda exporta matéria-prima?
Iniciativas investem em pesquisa para transformar ativos amazônicos em produtos de maior valor agregado
A biodiversidade amazônica dá ao Pará potencial para desenvolver cosméticos e perfumes a partir de matérias-primas como cumaru, priprioca, breu-branco, patchouli e pau-rosa manejado. Apesar da disponibilidade desses insumos e do conhecimento científico produzido no Estado, empresas do setor ainda enfrentam obstáculos para transformar esses ativos em produtos de maior valor agregado e consolidar marcas com identidade amazônica.
O avanço da bioeconomia e a maior visibilidade nacional da Amazônia, impulsionada também pela realização da COP 30 em Belém, ampliaram a discussão sobre como transformar a biodiversidade em negócios. Para empreendedores do setor, porém, o acesso à matéria-prima é apenas uma parte do processo. Infraestrutura, logística, investimentos, pesquisa, regulamentação e organização das cadeias produtivas estão entre os principais desafios.
Um exemplo é uma empresa de biocosméticos criada em Santarém pela farmacêutica Bruna Cantal de Souza e Melissa Karen Lage . O negócio surgiu ainda durante a graduação na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a partir de uma pesquisa voltada aos cuidados com cabelos cacheados, e passou a desenvolver produtos capilares com óleos e manteigas vegetais da Amazônia.
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Infraestrutura
Segundo Bruna, um dos principais obstáculos para transformar matérias-primas amazônicas em produtos de maior valor agregado é a falta de infraestrutura para ampliar a produção. “O problema não é só ser fornecedor de matéria-prima, o problema é não agregar valor à matéria-prima”, afirma.
A empreendedora cita como exemplo o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. “Negócios de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos não têm ambientes de escala dentro do território”, explica.
A logística também pesa sobre os custos. A compra de insumos e embalagens pode envolver despesas elevadas de transporte, enquanto o envio dos produtos acabados para outros mercados encarece a operação.
Outro entrave é a necessidade de infraestrutura produtiva certificada. Segundo Bruna, produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos precisam ser fabricados em ambientes certificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Além da infraestrutura, a empreendedora defende políticas públicas e incentivos financeiros específicos para negócios de bioeconomia voltados à cosmetologia. Para ela, os custos associados à operação na região, definidos no setor como “custo Amazônia”, reduzem a competitividade dos produtos paraenses diante de empresas de outras regiões.
Pesquisas
A produção de conhecimento científico é apontada como um dos caminhos para transformar ativos da biodiversidade em produtos comerciais. Bruna afirma que universidades públicas do Pará já desenvolvem pesquisas voltadas à utilização de espécies amazônicas e possuem programas de incentivo à inovação.
A própria empresa de Bruna surgiu nesse ambiente. Durante a graduação, a empreendedora teve como orientadoras e mentoras as pesquisadoras Kariane Nunes e Gabriela Bianchi, da Ufopa. Um dos trabalhos desenvolvidos na universidade resultou em um batom feito com manteiga de bacuri e pigmento de jambo, com pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). “É a prova de que formulação própria com ativo amazônico já se faz aqui”, afirma Bruna.
O desafio, segundo ela, está em levar esse conhecimento para a produção em escala. “Conhecimento e pesquisadores, o Pará tem. Estrutura para escala comercial, não”, resume.
Bruna ressalta que essa lacuna não representa uma falha das universidades, já que pesquisa e industrialização cumprem funções diferentes. Para ela, aproximar instituições de ensino, empreendedores e ambientes de inovação pode facilitar a transformação de tecnologias desenvolvidas na academia em produtos disponíveis no mercado.
Fortalecimento de cadeias produtivas
Além da infraestrutura industrial, a organização das cadeias de produção dos insumos amazônicos é considerada fundamental para ampliar a agregação de valor dentro do próprio Pará. Para Bruna, matérias-primas como cumaru, priprioca e breu-branco ainda são produzidas e comercializadas de maneira pouco estruturada em algumas cadeias. “Essas matérias-primas são produzidas e exploradas de maneira muito informal, desuniforme, onde geralmente os produtores saem perdendo”, afirma.
Ela defende investimentos para melhorar o beneficiamento dos insumos antes que cheguem à indústria. “A qualidade da nossa matéria-prima sempre dita a qualidade do nosso produto final”, diz.
A empresa de Bruna mantém relação com comunidades e grupos de mulheres extrativistas. De acordo com Bruna, embora o impacto financeiro desses insumos na composição dos cosméticos seja pequeno, a parceria contribui para dar visibilidade às tecnologias desenvolvidas pelos produtores e fortalecer a cadeia. “Queremos cada vez mais expandir nessa relação, porque isso também significa que uma cadeia produtiva tem se estabelecido com mais força dentro do território”, afirma.
Formalizada em 2021 após a participação no programa Inova Amazônia, do Sebrae, a empresa também passou pela Oka Hub – Incubadora da Floresta. A iniciativa ofereceu mentorias, capacitações e conexões voltadas à gestão, ao posicionamento de mercado e à expansão do negócio.
Identidade amazônica
Além da matéria-prima, a identidade amazônica aparece como um diferencial para empresas do setor. Bruna afirma que há uma demanda crescente por produtos associados à sustentabilidade, ao impacto socioambiental e ao uso de ingredientes da biodiversidade.
Na avaliação da empreendedora, uma marca desenvolvida no próprio território também pode gerar impactos econômicos locais. “É o território trazendo o recurso financeiro para o território. Esse capital vai girar aqui, vai ser comunicado por quem viveu ele de fato”, afirma. Segundo ela, esse modelo pode contribuir para a geração de empregos qualificados e para a valorização de conhecimentos e saberes associados à biodiversidade.
A expansão desse mercado, no entanto, depende de investimentos que vão além da criação de marcas. Bruna defende o fortalecimento das cadeias produtivas, melhorias na infraestrutura, estímulo à pesquisa e inovação e políticas adequadas à realidade dos negócios amazônicos.
Ela considera possível consolidar uma indústria de cosméticos baseada na biodiversidade do Pará, mas ressalta que esse processo precisa estar associado à proteção da floresta e ao fortalecimento das comunidades e produtores envolvidos nas cadeias de insumos.
Para Bruna, o desenvolvimento desse setor também poderia ampliar as oportunidades para profissionais qualificados formados no próprio Estado. “Imagina só, você se formar no curso de farmácia e não ter que procurar emprego no Sul-Sudeste porque há oportunidades boas na região!”, afirma.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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