A luta contra o câncer acontece durante todo o ano, mas em outubro há uma atenção especial à ocorrência da doença nas mamas, com a campanha Outubro Rosa. Entre aqueles que são impactados pelas atividades e auxiliam na propagação de informações, está a pedagoga Carlena Gama, de 56 anos, que foi diagnosticada em 2021. Após cinco anos, ela vive a remissão do câncer e demonstra fé inabalável na cura.
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Carlena recebeu o diagnóstico, exatamente, 10 meses depois da morte da mãe, vítima da covid-19. Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, o foco da pedagoga foi se manter firme para o pai e os filhos, que ainda lidavam com o luto recente — assim como ela. Na época, ela lutava contra a obesidade e estava fazendo exames pré-operatórios para uma pós-bariátrica.
“Você acha que você está no auge, no melhor momento da tua vida profissional, da tua vida pessoal, conquistando algo que você lutava muito. E aí surge um diagnóstico de câncer de mama, no meio de tudo isso. Então, assim, a gente breca e diz: ‘Meu Deus! Não era isso que eu estava buscando’”, conta.
Enquanto se recuperava da bariátrica, Carlena começou a enfrentar o câncer de frente, apesar dos medos e receios. Ela explica que dava força à família porque precisava dela inteira e firme, para que a ajudasse no processo.
“É uma doença que a gente não sabe se o nosso corpo vai responder ao tratamento. O diagnóstico mexeu muito mais com a forma como eu iria levar isso, para não fazer os meus sofrerem”, fala.
Fé é força
Carlena é católica e devota de Nossa Senhora de Nazaré. No mês de outubro, a pedagoga vive emoções mistas com a campanha de combate ao câncer de mama e o Círio. Para ela, a fé foi uma força fundamental durante o tratamento.
“Nossa Senhora me abraçou de uma forma que é surreal. Se eu for contar, a gente vai passar dias. Foram experiências de fé surreais. Eu vi Nossa Senhora ao meu lado às vésperas de eu começar a minha quimioterapua”, relata.
Ela também lembra de um sinal recebido: “É uma promessa da minha mãer com uma amiga. Quem ganhasse no sorteio uma Nossa Senhora de Nazaré presenteava a outra. Elas nunca ganhava e, nesse ano, minha mãe não estava mais viva. A amiga dela foi sorteada e foi me entregar às 10 horas da noite. Foi cumprir o que ela tinha prometido com minha mãe.”
A pedagoga diz que, há quatro anos, durante o tratamento, pedia a Deus para que estivesse entre aqueles que ama. Hoje, a quase um ano da data prevista para a alta, ela agradece por estar do jeito que suplicou.
Mudança de mentalidade
Carlena acredita que para vencer a doença é preciso, também, ter coragem de lutar. Ela considera importante não se entregar para o câncer e persistir. O posicionamento pode impulsionar o tratamento, segundo a pedagoga.
“Um diagnóstico não pode nos definir. Um diagnóstico não pode nos parar. Um diagnóstico não pode ser maior do que a nossa vontade de viver. O câncer me teve, mas eu não tive o câncer. Se um dia for da vontade de Deus, que a morte me encontre vivendo”, destaca.
A campanha contra a doença não deve ser apenas durante o outubro, diz Carlena. Ela aponta que é necessário levar conhecimento, desmascarar informações falsas e quebrar tabus diariamente. Mamografia, toque das mamas e diagnóstico precoce podem salvar vidas.
“A gente precisa, também, fazer com que seja colocado mais em pauta a quantidade de homens, ainda muito pouca, que tem câncer de mama. Precisa ser falado, precisa ser quebrado esse tabu”, fala.
Além disso, Carlena chama a atenção para o abandono afetivo, que ocorre quando a mulher é deixada pelo companheiro após receber o diagnóstico. “Quantas mulheres adoecem muito mais por terem passad pelo abandono afetivo do que com a própria doença?! A gente precisa trabalhar muito nessa questão”, destaca.

Cuidados pessoais
Carlena não é a primeira pessoa da família a ter câncer de mama. A bisavó paterna também recebeu o diagnóstico, mas não resistiu. No caso da pedagoga, a doença não é genética, mas proveniente de fatores hormonais.
“Eu fiz um teste genético para saber se era hereditário e deu negativo. Na minha genética, não tem a questão do câncer de mama. O que eu tive foi uma disfunção hormonal”, detalha.
Carlena passou por sessões de quimioterapia e radioterapia, além de três cirurgias nas mamas — para retirada e ajustes. No momento, ela trata a doença com bloqueadores hormonais e, a cada três meses, repete exames de sangue. Ela acredita que ter fé na ciência é importante.
Mais prevenção, mais saúde
A médica mastologista Camila Loureiro, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Pará (SBM-PA), explica que toda mulher, a partir dos 40 anos, deve fazer mamografia das duas mamas uma vez ao ano, segundo recomendação do órgão. Além disso, a consulta com especialista é necessária. Os mastologistas são responsáveis pelo diagnóstico, tratamento e preveção de doenças nos seios de mulheres e homens.
“A mamografia é o exame mais eficaz para rastreamento do câncer de mama. Ou seja, é um exame que deve ser feito sem que a mulher tenha nenhum sintoma. A mamografia é capaz de encontrar lesões muito pequenas, que não são identificadas no autoexame e nem mesmo pelo médico, no exame clínico”, fala.
Camila ressalta que mulheres com histórico familiar de câncer devem começar o rastreamento com mamografia mais cedo: “Pesquisas comprovam que ela é capaz de reduzir a mortalidade por câncer de mama, já que é muito eficaz para que consigamos o diagnóstico no início da doença, o que é fundamental para que a paciente tenha grandes chances de cura.”
Além da mamografia, ultrassonografia das mamas também é indicado, dependendo da idade, densidade das mamas e outros fatores avaliados pelo especialista, segundo a mastologista.
Atenção aos sinais
O sinal mais comum de câncer de mama é o nódolo, que pode surgir no seio ou na axila. Entretanto, Camila destaca que esse não é o único indicativo. Vermelhidão ou retração na pele, inclusive no mamilo, é um indício.
“Pode sair uma secreção pelo mamilo ou a pele da mama pode ficar com a aparência de uma casca de laranja, por exemplo. O importante é que a mulher procure logo atendimento médico se perceber alterações nas mamas”, fala.
O Ministério da Saúde esclarece que a atenção aos nódulos varia conforme a idade. A busca imediata por um especialista deve ocorrer em casos de mulheres acima de 50 anos, independente do tempo em que surgiu no corpo, e acima de 30 anos, se o nódulo persistir por mais de um ciclo menstrual. Caso haja crescimento e seja endurecido e fixo, a ida ao médico deve ser em qualquer idade.
O órgão também aponta como sinais a saída de secreção com sangue de um único mamilo, mudança no formato do mamilo e aumento progessivo da mama com edemas. As informações são parte do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Câncer de Mama.
Em casos de mulheres mais jovens — abaixo dos 30 anos — e com histórico familiar de câncer, a médica ressalta que conversar sobre a doença com o ginecologista é fundamental, mesmo sem acompanhamento com mastologista. Além disso, toda mulher, independente da faixa etária, deve conhecer as doenças presentes na família.
“Fora isso, é importante que a mulher conheça e observe o próprio corpo. Surgindo uma alteração importante, deve procurar assistência médica. Dessa maneira ela terá boas chances de descobrir o câncer de mama no começo”, conta.
Fatores de risco
Camila Loureiro afirma que os fatores de risco do câncer de mama estão bem definidos pela ciência. O primeiro deles é a idade, visto que a maioria dos casos acontece em mulheres acima dos 50 anos, mesmo com a redução da faixa etária. A herança genética, atualmente, corresponde a, no máximo, 10% das ocorrências.
“Existem fatores hormonais e endócrinos importantes e também os chamados fatores modificáveis, para os quais precisamos dar muita atenção. Obesidade, sedentarismo e consumo de álcool são os principais”, diz.
Para o combate do câncer, a mastologista recomenda a prática regular de atividades físicas e alimentação equilibrada, além de redução ou abandono do consumo de bebidas alcoólicas. “Uma mulher que adota um estilo de vida saudável diminui muito os riscos de ter a doença”, fala.
Eficácia do diagnóstico precoce
Pacientes que descobrem o câncer de mama precocemente possuem mais de 90% de chances de cura, dependendo da biologia tumoral e do tratamento, segundo a mastologista. Nos casos em que a doença é descoberta em estado avançado, o tratam,ento é mais difícil, custoso e necessita de cirurgias mais extensas, com maior possibilidade de sequelas.
“Tumores maiores têm maior chance de já terem enviado células da doença para outros órgãos, o que é chamado de câncer de mama metastático. Nesse caso, o objetivo dos tratamentos ofertados atualmentente deixa de ser a cura e passa a ser o controle da doença pelo maior tempo possível, proporcionando à paciente a vida mais plena e confortável possível”, diz.
Camila é esperançosa com a evolução da ciência: “Nos últimos anos, porém, observamos o surgimento de drogas mais modernas, já liberadas para uso no Brasil, que podem deixar as pacientes metastastáticas sem doença detectável aos exames por períodos muito superiores aos tratamentos até então instituídos. Ainda é cedo para falar em cura do câncer de mama metastático, mas essa pode ser uma possibilidade futura em alguns cenários e para alguns subtipos específicos.”
A campanha Outubro Rosa é uma salvadora de vidas, de acordo com a mastologista. Ela nota que conversas sobre o câncer de mama, medidas de prevenção e detecção precoce proporcionam esclarecimentos acerca da doença e da vida após o diagnóstico, mitigando o medo e a vergonha de muitas mulheres.
“É importante destacar, também, que o cuidado não pode se restringir ao mês de outubro. As mulheres precisam adotar um estilo de vida saudável, alimentação balanceada, exercícios físicos regulares, controle de peso e cuidados com sua saúde de forma regular e contínua”, conclui.
Cenário no Pará
A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa), em nota enviada à Redação Integrada de O Liberal, aponta que o estado registrou 949 casos de câncer de mama em 2025, sendo 933 em mulheres e 16 em homens. Até julho de 2026, 379 pessoas foram diagnosticadas, sendo 373 mulheres seis homens.
“Sobre as faixas etárias, a Sespa informa que em 2025 as idades mais afetadas pela doença foram as seguintes: 46 anos (39), 55 anos (31), 56 anos (33), 51 anos (31) e 54 anos (27). Em 2026, as idades mais afetadas são as mesmas do ano anterior: 46 anos (13), 55 anos (14), 56 anos (10), 51 anos (08) e 54 anos (12)”, esclarece.
Para diagnóstico e tratamento da doença, o estado, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), possui 87 mamógrados em uso. As mamografias podem ser realizadas para diagnóstico ou rastreamento da doença. Até o momento, em 2026, ações itinerantes da Sespa realizaram mais de 8 mil exames, por meio de Carretas da Saúde.
Se a busca for por um diagnóstico definitivo, feito com biópsia, há 18 serviços ambulatoriais de média complexidade, que incluem consulta com mastologista e exame histopatológico. “Uma vez confirmado o diagnóstico de câncer de mama, existem 08 hospitais (serviços de alta complexidade) para o tratamento, variando entre cirurgia, quimioterapia e radioterapia, com alguns deles ofertando as três modalidades de tratamento”, ressalta.
As unidades hospitalares são: Hospital Ophir Loyola (HOL) e Hospital Universitário João Barros Barreto, em Belém; Hospital Regional de Castanhal; Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), em Santarém; Hospital Regional de Tucuruí; e Hospital Regional do Sudeste do Pará “Doutor Geraldo Veloso”, em Marabá.
“Para orientar os municípios e os serviços de um modo geral sobre a vaga correta de cadastramento das pacientes para o diagnóstico e tratamento do câncer, inclusive o câncer de mama, a Coordenação Estadual de Atenção Oncológica elaborou o Protocolo de Acesso de Média e Alta complexidade em Oncologia, informando os critérios para agendamento em cada vaga e serviço disponível por região de saúde”, destaca.
Câncer de mama em Belém
Em Belém, Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) também realiza atividades durante todo o ano, independente da campanha. Serviços para prevenção e diagnóstico precoce — como consultas, avaliações clínicas, orientações sobre sinais e sintomas e encaminhamento a especialistas — são feitos na Atenção Primária à Saúde (APS).
“A APS funciona como porta de entrada da rede de saúde, contribuindo para a identificação precoce de alterações e para o encaminhamento das usuárias para investigação diagnóstica e tratamento, quando necessário”, aponta.
Com o início do Outubro Rosa, as ações são intensificadas com educação em saúde, sensibilização e mobilização para prevenção e diagnóstico precoce. A secretaria orienta que, em caso de alteração na mama e suspeita, a mulher deve buscar atendimento na Unidade de Saúde mais próxima. No local, há acolhimento, avaliação e, se necessário, encaminhamento para mamografia e demais procedimentos investigatórios.
“Nos casos de confirmação diagnóstica, a usuária é encaminhada para a continuidade do cuidado na Atenção Especializada, incluindo a Unidade de Referência Especializada em Saúde da Mulher (URE Mulher), no âmbito municipal. Conforme a necessidade e o fluxo assistencial, também podem ser realizados encaminhamentos, por meio da regulação estadual, para serviços de referência, como Hospital da Mulher, UREMIA e Santa Casa”, diz.
No ano de 2025, em Belém, foram realizadas 18.678 mamografias bilaterais para rastreamento de câncer, segundo dados do Ministério da Saúde, por meio do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS). Em 2026, até o mês de julho, ocorreram 10.219 exames.
Mitos e verdades
O médico oncologista Luís Eduardo Werneck, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC), explica mitos e verdades relacionados ao câncer de mama.
Usar sutiã, passar desodorante e usar prótese se silicone pode causar câncer de mama?
“Sutiã não causa câncer de mama. Não tem a ver bojo, aro, horas por dia de uso, idade que começou a usar, se dorme com sutiã e se não dorme. Desodorantes também não causam. Prótese de silicone também não causa, ela até dificulta a achar o câncer, mas não causa.”
Todo câncer de mama é herança genética?
“Todo mundo acha que ‘se a mamãe teve câncer de mama, eu vou ter’. Só 5% dos casos são hereditários. E, em casos de herança familiar, 15%. Ou seja, não é sentença.”
Amamentação ajuda a combater o câncer de mama?
“A amamentação protege porque a mulher vai ter menos ovulações, menos exposição da mama ao estrogênio. Amamentar facilita o amadurecimento da mama. Ao final da amamentação existe uma renovação de células, ou seja, a mama elimina as células ruins que podem surgir e podem se transformar em câncer.”
