Lúpus pode atingir qualquer parte do corpo e diagnóstico precoce melhora o tratamento

O Dia Mundial do Lúpus, neste domingo, 10 de maio, reforça a importância da conscientização sobre a doença que é um processo de inflamação crônica

Ayla Ferreira*

Doença autoimune crônica que pode afetar múltiplos órgãos e tecidos, como pele, rins e cérebro, por exemplo, o lúpus exige atenção aos sintomas e diagnóstico precoce para evitar complicações e garantir melhor qualidade de vida aos pacientes. Segundo a médica reumatologista Izabel Morhy, de Belém, a identificação rápida da doença e o início do tratamento fazem diferença direta no prognóstico e na resposta do organismo. 

O Dia Mundial do Lúpus, neste domingo, 10 de maio, reforça a importância da conscientização e educação sobre o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Além de poder atacar várias partes do corpo, em casos mais severos, com a falta de tratamento adequado, a doença pode levar à morte.

Mas o que é lupus?

O lúpus é um processo de inflamação crônica, sem causa definida, que pode afetar qualquer parte do corpo humano — desde a pele até os órgãos internos, todos podem ser acometidos por esse processo de inflamação. O tipo mais comum é o sistêmico, onde todo o corpo do paciente é afetado pela inflamação, que pode comprometer diversos órgãos ou sistemas. A doença não é contagiosa e seu diagnóstico é feito pelo médico reumatologista.

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“Existem formas de lúpus que são exclusivamente na pele, o chamado lúpus discoide. Ele se manifesta exclusivamente na pele sem nunca vir a se sistematizar. Ele tem um tratamento diferenciado do LES e um prognóstico muito bom, porque se bem tratado desde o início, a pessoa não chega até a doença sistêmica e vai conviver muito bem com as lesões, que tem uma gama enorme de opções terapêuticas”, explica a médica reumatologista Izabel Morhy, de Belém.

Há também o lúpus induzido por drogas, que ocorre pois algumas substâncias de drogas e/ou medicamentos induzem o quadro. É considerado uma forma de LES, mas seu diferencial é ser reversível. Ao suspender a medicação e/ou droga, a doença deixa de se manifestar. Uma forma rara da doença afeta os filhos recém-nascidos de mulheres que têm lúpus. As crianças manifestam sintomas como erupções na pele, problemas no fígado ou baixa contagem de células sanguíneas, que tendem a sumir de forma natural com os meses. 

A médica reumatologista destaca que são formas distintas de manifestação da doença, mas todas compartilham o mesmo processo, que é inflamatório. “É uma inflamação crônica, cujos fatores de risco são: exposição solar excessiva, sem proteção; uso de algumas drogas; estresse; e alimentação com muito produto industrializado, que são alimentos que podem alterar o sistema imunológico. Então diversos fatores podem ser atribuídos como indutores, embora já haja predisposição genética para essa doença autoimune”, diz.

Os principais sintomas do lúpus dependem de cada caso, variando conforme o local mais afetado. Na pele, por exemplo, podem surgir manchas roxas superficiais. No rins, podem surgir infecções recorrentes, com insuficiência renal. No coração, pode surgir a cardite, uma inflamação das diversas estruturas do coração.

No lúpus, a sintomatologia se parece com outras patologias, sendo comum a febre e a perda de peso. O tempo até o diagnóstico varia de semanas a meses, pois as manifestações variam para cada caso.

Vivências

Cerca de 150 mil a 300 mil pessoas convivem com o lúpus no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). A servidora pública federal Etienne Elise, de 53 anos, é uma delas. Ela percebeu os primeiros sintomas aos 17 anos de idade, com inflamação nos ligamentos dos dedos das mãos. Em pouco tempo, ela passou a sentir dor em vários outros ligamentos, como nos braços, pernas, pés e maxilar.

image Servidora pública federal Etienne Elise (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

“Fui a vários médicos: ortopedistas, clínicos gerais, otorrinos, até a dentistas, para tentar descobrir a causa, fiz diversos exames, e nada aparecia”, relembra. Foi ao marcar consulta com uma reumatologista que veio a suspeita de lúpus, porém, na época, foi tratada como artrite reumatoide. No caso de Etienne, ela não apresentava sintomas típicos do lúpus, como manchas na pele e queda de cabelo, o que tornou a conclusão sobre o diagnóstico mais difícil.

Até os 33 anos, a servidora viveu com a doença controlada, com apenas alguns eventos de inchaço nos ligamentos de vez em quando, por conta de esforço ou outras ocasiões específicas. No entanto, foi nessa idade que veio uma das crises mais fortes, desencadeada por um momento de turbulência emocional decorrente de situações no ambiente de trabalho. Etienne conviveu com fortes dores abdominais, mas com nenhuma causa aparente, e chegou a fazer uma cirurgia para a retirada da vesícula, que estava inflamada.

“Em São Paulo, houve uma junta médica com diversos especialistas no hospital, e chegaram à conclusão de que poderia ser a Síndrome de Budd-chiari, que está relacionada à Síndrome do Anticorpo-Antifosfolípede (SAF). Foi quando fiz exames direcionados para descobrir essas síndromes e deram resultados positivos. Um médico que me acompanha até hoje também descobriu que tudo estava também relacionado ao Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)”, diz.

O acompanhamento multiprofissional, com médico reumatologista e uma psicóloga, bem como a própria fé na religião espírita, a ajudaram a lidar com o quadro. Desde então, a servidora faz uso de antimalárico e anticoagulante de forma preventiva, conforme orientação médica, e hoje possui qualidade de vida, com 16 anos de doença inativa. 

“Eu fui buscar um tratamento completo do corpo, do meu psiquismo e da minha alma, e tenho feito isso há 30 anos. Ganhei uma estabilidade emocional, um autoconhecimento maior, uma fé maior diante das circunstâncias da vida, me fortaleceu para eu entender a transitoriedade da da existência, dos próprios problemas”, compartilha.

Em uma das internações, decorrentes do lúpus, Etienne esteve ao lado de uma paciente também diagnosticada com o quadro, que sentia deprimida por ter a doença. Na época, a servidora ainda não possuía o diagnóstico e conta que estava “entre a vida e a morte”.

“Fiz exames para tudo que é tipo de doença, para tentar um tratamento assertivo e ninguém conseguia achar resposta. E eu disse para ela [a outra paciente], que ela tinha muita sorte só de já ter o diagnóstico, porque apesar de o lúpus ter sim momentos muito difíceis quando a gente está com a doença ativa numa crise, é uma doença que tem tratamento”, reforça.

Para Etienne, o mais importante é ter o diagnóstico. “A ciência está avançando cada vez mais. É para ter confiança, fazer esse tratamento mesmo acreditando que vai dar certo, ter disciplina, buscar bons profissionais. E é importante também ter um acompanhamento terapêutico, isso ajuda muito no tratamento e também é importante ter uma fé para quem puder, e para quem acreditar. Muita crença de que o melhor estar por vir”, pontua.

Tratamento

O diagnóstico de lúpus se inicia com a exclusão de infecções, a partir dos exames de sangue para a busca de doenças autoimunes. “O tratamento depende da área mais afetada no organismo, de modo geral, nós começamos com os anti-maláricos. No caso da pele, o tratamento varia conforme o tipo de lesão que vai aparecer”, informa Izabel.

Atualmente, existem tratamentos com imunobiológicos para o processo inflamatório. Todos os medicamentos utilizados no tratamento, inclusive os corticoides, visam deter o processo de inflamação. Apesar de ainda não existir uma cura definitiva para a doença, todos os tratamentos são de longo prazo, com acompanhamento por toda a vida, possibilitando uma melhor qualidade de vida ao paciente.

Para a médica reumatologista, é preciso reforçar o fator educativo sobre a doença para a sociedade. “Isso é fundamental, porque muitas vezes o paciente já dá um toque. Na consulta, ele pode contar que tem histórico de doença autoimune na família, como lúpus e artrite reumatóide. Já dá um direcionamento para você investigar e definir o diagnóstico o mais precoce possível. Quanto mais cedo você tem um diagnóstico e inicia o tratamento, melhor é o prognóstico”, afirma. 

As mulheres são mais afetadas pelo lúpus, mas a doença também pode acometer homens. Seja criança, jovem ou idoso, qualquer faixa etária está suscetível ao surgimento da doença. “Hoje em dia os pacientes costumam responder bem ao tratamento, em pouco tempo, e convivem bem com a doença. O fator educativo é muito importante neste Dia Mundial do Lúpus”, conclui.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades

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