Calendário da saúde de março alerta para câncer de colo de útero, colorretal e endometriose; conheça
As cores lilás, amarelo e azul-marinho simbolizam datas importantes para a conscientização e prevenção de doenças
Lilás, amarelo e azul-marinho. No mês de março, o calendário da área da saúde é ‘tingido’ pelas três cores, que simbolizam datas importantes para a conscientização e prevenção de doenças. O lilás representa a prevenção do câncer de colo de útero. Já o amarelo simboliza a endometriose, doença ginecológica crônica que acomete principalmente mulheres de 25 a 49 anos. Por fim, o azul-marinho chama a atenção para o câncer colorretal.
Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa), do Governo do Pará, o estado registrou, em 2023, 958 casos de câncer do colo do útero. Em 2024, foram contabilizados 938 casos; em 2025, 627 casos; e, até 15 de fevereiro de 2026, há registro de 14 casos. O câncer do colo do útero está fortemente associado à infecção pelo papilomavírus humano (HPV).
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Segundo o biomédico Rodrigo Vellasco, coordenador do Laboratório de Papilomavírus e Retrovírus do Instituto Evandro Chagas, o HPV é um tipo de vírus capaz de infectar determinadas regiões do corpo humano e causar alterações, como processos tumorais e até mesmo câncer. O vírus tem preferências por regiões como a pele e mucosas, denominadas epitélios de revestimento.
A transmissão ocorre a partir do contato com tecidos infectados, como nos contatos entre mucosas na relação sexual. “O HPV é o agente causal do câncer de colo do útero por ter um potencial de alterar as células infectadas. Após a infecção, o vírus passa a regular alguns processos dentro da célula infectada e altera seu funcionamento e defesa, com isso, as células passam a se reproduzir de forma descontrolada e esse processo dá origem aos tumores que podem culminar nos tumores malignos, como os de colo uterino”, explica Rodrigo Vellasco.
Em Belém, conforme dados do Painel-Oncologia (SISCAN/SIA/SIH), foram 135 casos de câncer de colo de útero em 2023, 130 em 2024, e 103 em 2023. A maior incidência concentra-se entre 40 e 59 anos, com média etária estimada entre 45 e 55 anos. Quanto aos óbitos em decorrência do quadro, conforme o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), foram 86 mortes em 2023, 76 em 2024, e 71 em 2025.
A infecção por HPV é curável, já que os vírus não circulam na corrente sanguínea e a infecção fica normalmente restrita ao tecido infectado. O tratamento ocorre de forma tópica, nos locais infectados, através da remoção do tecido contaminado, ou pelo uso de medicamentos tópicos no local da infecção.
“Inicialmente, após a infecção, os sintomas são inexistentes ou discretos, como alteração na secreção genital em cor, odor, viscosidade, pequenos sangramentos espontâneos ou após as relações sexuais, dor nas relações, entre outros”, explica Rodrigo Vellasco. Na maioria das vezes, os sintomas estão ausentes por um período que pode levar anos, tempo esse em que o vírus atua silenciosamente para alterar a célula infectada e causar danos irreversíveis.
O tempo até o aparecimento das lesões é grande, o que favorece a progressão junto com fatores que aumentam o risco de surgimento, como tabagismo, etilismo, o próprio envelhecimento das células, desregulações hormonais e, com isso, o diagnóstico tardio dessas alterações pode evidenciar estágios mais avançados das lesões, até o desenvolvimento do câncer do colo uterino.
Prevenção e tratamento do câncer de colo de útero
As principais estratégias de prevenção para a infecção por HPV e o câncer de colo do útero são a vacinação de meninos e meninas de 9 a 19 anos, disponível na rede pública do SUS, e também o teste molecular para o DNA de HPV, que substituiu o exame preventivo. O uso de preservativos de barreira também previne as infecções por HPV. “O exame está disponível para as faixas etárias definidas pelas novas diretrizes e está sendo disponibilizado de forma gradual nas Unidades Básicas de Saúde do Estado”, informa o biomédico.
“Os maiores desafios para nossa realidade regional são as ações de disseminação de educação em saúde, que possam levar informação sobre as novas formas de prevenção disponíveis para a população, onde essas formas de prevenção estão disponíveis e de que forma a prevenção pode evitar a infecção e o aparecimento dos casos de câncer de colo do útero. O novo diagnóstico para o DNA de HPV traz uma perspectiva de mudança desse cenário, mas precisa ser efetivamente entendido pela população como ferramenta eficaz nesse processo de prevenção”, destaca.
Veja como prevenir o câncer de colo de útero
- Vacinar os meninos e meninas de 9 a 19 anos
- Reduzir o número de parceiros sexuais
- Realizar os testes para o DNA de HPV na idade recomendada
- Utilizar preservativo nas relações sexuais
- Manter hábitos de vida saudável que possam elevar a imunidade contra infecções
- Fonte: Rodrigo Vellasco, biomédico e coordenador do Laboratório de Papilomavírus e Retrovírus do Instituto Evandro Chagas.
Endometriose
“A endometriose nada mais é que o endométrio, que são células do revestimento de dentro da cavidade do útero que se implantam para fora dele. Existem muitas teorias para que isso aconteça, desde causas imunológicas, hormonais, histórico familiar, mas a mais aceita é que essas células chegam nos tecidos de fora através do que a gente chama de menstruação retrógrada”, explica Ana Paula Fonseca, médica ginecologista e obstetra. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), conforme o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), o Pará registrou 446 internações em 2023 por endometriose, 649 em 2024 e 689 internações por essa doença em 2025.
Na menstruação retrógrada, no momento de contração do útero, as células regurgitam, ao invés de saírem pelo canal vaginal. Com isso, algumas células se deslocam no sentido contrário e acabam se implantando em outros órgãos. Alguns fatores favorecem o surgimento da endometriose, como o maior tempo de exposição aos hormônios — a situação é vista principalmente em meninas que menstruam cedo.
“Causas imunológicas, pacientes com fluxos muito intensos, tudo isso pode acabar favorecendo de alguma maneira. De fato, não há relação com a pílula anticoncepcional. Ela não causa endometriose, pelo contrário, muitas vezes ele precisa ser utilizado, inclusive, na questão do tratamento”, diz.
Existem nomes diferentes para cada tipo de endometriose, como a adenomiose, que é quando o endométrio se localiza fora da cavidade. Já o endométrio que se implanta nos ovários recebe o nome de endometrioma. “Existem endométrios que são mais superficiais, mais profundos, dependendo da espessura do endométrio, mas de fato, a diferença básica entre eles pode ser não só na sua localização, mas na sua extensão”, afirma a médica ginecologista.
O diagnóstico costuma levar entre 8 a 10 anos. A médica Ana Paula explica que a demora acontece pois muitas pacientes ‘normalizam’ a dor, e acreditam que é normal ter cólicas intensas. Como a endometriose é uma doença inflamatória crônica, é preciso realizar uma mudança no estilo de vida para o tratamento.
“Muitas vezes é importante iniciar um método de suplementação com antioxidantes que ajudam nesse nível inflamatório, fazer tratamentos hormonais para bloquear esse ciclo menstrual, garantindo não só a melhora da qualidade de vida, mas, inclusive, a melhora do prognóstico da doença, podendo até chegar a um tratamento cirúrgico em alguns casos quando necessário”, avalia.
No Pará, o primeiro atendimento para a doença é na Unidade Básica de Saúde, de onde a paciente pode ser encaminhada para os serviços especializados via Sistema de Regulação. Em Belém, o atendimento de urgência ginecológica é oferecido pelo Hospital da Mulher do Pará. Quando há indicação cirúrgica, o procedimento é regulado ao Estado via SER (Sistema Estadual de Regulação).
Veja como prevenir a endometriose
- Mantenha uma alimentação saudável, com menos industrializados e processados
- Realizar atividade física regularmente, para ajudar na liberação hormonal, diminuindo o nível do estresse oxidativo e o risco de inflamação no corpo
- Ter uma qualidade de sono adequada, para reduzir o estresse e o risco de inflamação
- Não normalize a dor. A dor que interfere na rotina e no dia-a-dia merece avaliação e rastreio
- Faça exames ginecológicos regularmente
Fonte: Ana Paula Fonseca, médica ginecologista e obstetra
Câncer colorretal
O câncer colorretal ocorre quando tumores malignos atingem intestino delgado ou o intestino grosso (cólon). Pode atingir tanto homens quanto mulheres, sendo um dos tumores mais frequentes no Brasil — segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), no ano de 2022, a estimativa de novos casos foi de 45.630, sendo 21.970 homens e 23.660 mulheres.
No Pará, segundo dados da Sespa, foram registrados 496 casos em 2023, 420 em 2024 e 343 em 2025. Até 15 de fevereiro de 2026, não há registro de casos da doença no Estado. “Os fatores de risco que mais influenciam o surgimento de casos esporádicos de câncer intestinal são: idade acima de 45 anos; dieta com alto teor de gordura; dieta com excesso de carnes vermelhas; dieta com baixo teor de cálcio; obesidade; sedentarismo e tabagismo”, explica a médica coloproctologista Luély Ribeiro, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP).
Ao apresentar sintomas como sangramento nas fezes, anemia, fraqueza e cansaço, o paciente deve procurar auxílio médico para investigar a origem. Outros sintomas, como dor abdominal recorrente, alteração do ritmo intestinal e diarreia alternada com intestino preso também podem indicar câncer colorretal, sendo necessário o acompanhamento médico para o diagnóstico.
“Nos exames de rotina anuais, pode ser pesquisado o sangue oculto nas fezes. Caso este exame seja positivo, o paciente precisará fazer o exame de colonoscopia, pois é o exame considerado padrão ouro para o diagnóstico da doença”, diz a médica. O pedido para a colonoscopia ocorre apenas se houver sinais de alarme que podem ser sinalizados durante a consulta com o médico especialista. Se não houver sinais ou sintomas de alarme, a recomendação atual é que o exame seja feito a cada 10 anos.
Há aumento do risco do desenvolvimento do tipo de tumor em pacientes que não praticam exercícios físicos regulares, ou que fazem a ingestão em excesso de carnes vermelhas, embutidos e enlatados, além de aumento do risco em pacientes tabagistas. Segundo Luély Ribeiro, na região Norte, o hábito de ingerir excesso de carne vermelha, bem como carnes de caça com alto teor de gordura, podem favorecer o desenvolvimento desse tipo de tumor.
“O principal desafio é que toda a população, tanto homens como mulheres, após os 45 anos realizem o exame de colonoscopia, pois é a principal forma de detecção precoce desse tipo de tumor. E no caso de casos iniciais, as taxas de cura são altas”, destaca Luély Ribeiro.
Veja como prevenir o câncer colorretal
- Prática regular de exercícios físicos
- Alimentação rica em fibras e cálcio
- Não fumar
- Evitar ingerir alimentos enlatados e/ou embutidos
- Evitar o sobrepeso e a obesidade
Fonte: Luély Ribeiro, médica coloproctologista e membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP).
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades
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