Áreas verdes transformam clima e qualidade de vida na Grande Belém

Moradores do Conjunto Satélite e da Avenida João Paulo II, na capital, e do Conjunto Júlia Seffer, em Ananindeua, relatam que viver próximo a áreas verdes faz diferença no clima, na saúde e no bem-estar

Fernando Assunção (Especial para O Liberal)
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Em meio ao crescimento urbano e à verticalização de diferentes regiões da Região Metropolitana de Belém, moradores do Conjunto Satélite e da Avenida João Paulo II, na capital, e do Conjunto Júlia Seffer, em Ananindeua, relatam que viver próximo a áreas verdes faz diferença no clima, na saúde e no bem-estar. A reportagem percorreu ruas arborizadas, pequenos bosques em zonas residenciais e trechos cercados por mata para entender, na prática, como a presença da vegetação impacta o cotidiano.

No Satélite, uma área de mata com cerca de 64 mil metros quadrados resiste ao avanço imobiliário e é vista pelos moradores como um patrimônio ambiental. Já no Júlia Seffer, os espaços verdes ajudam a amenizar o calor característico. Na João Paulo II, a proximidade com o Parque do Utinga influencia a ventilação e a sensação térmica nas residências do entorno. Nesses cenários, bicicletas são mais comuns do que carros e as casas de até dois andares substituem os grandes prédios comuns no centro urbano.

image Nesses cenários, bicicletas são mais comuns do que carros e as casas de até dois andares substituem os grandes prédios comuns no centro urbano. (Ivan Duarte/O Liberal)

Satélite: ‘Essa mata é tudo para a gente’

Moradora do Satélite há 40 anos, a dona de casa Simone Meguins não hesita ao falar da importância da área de mata próxima ao conjunto. “Essa mata é tudo para a gente. Ela dá o frescor, a tranquilidade, aquela paz”, afirma. Para ela, o impacto é sentido principalmente na temperatura. “Se desmatar isso aí, vai ser um caos. Vai ser muito quente, devido aos prédios que pretendem fazer”.

Simone relata que percebe nitidamente a diferença quando sai do local em direção ao centro de Belém. “Aqui o clima é muito mais gostoso, aquele friozinho. Quando eu vou para o centro, é totalmente diferente. Um monte de torres, de edifícios, construções, e é muito mais quente”, compara. Segundo ela, no Satélite é possível dormir com mais conforto, muitas vezes sem necessidade de ar-condicionado.

Além da temperatura, a tranquilidade é outro fator destacado. “Aqui é uma paz. Não tem aquela fumaça, aquela agitação do centro”, diz. Ela também menciona o “cheirinho de mata”, especialmente no fim da tarde, durante as caminhadas que costuma fazer nas proximidades. “É muito bom. Dá uma sensação de natureza mesmo, de preservação”.

image Moradora do Satélite há 40 anos, a dona de casa Simone Meiguins não hesita ao falar da importância da área de mata próxima ao conjunto. (Ivan Duarte/O Liberal)

O autônomo e liderança comunitária Jorge Pompeu, um dos fundadores do Satélite, reforça que a mata tem papel estratégico. “Essa mata é de grande importância para nós moradores. Lá embaixo tem aquífero, a água que a gente usa no dia a dia”, explica. Jorge afirma que o conjunto não sofre com enchentes. “O solo absorve a água da chuva. Até o vento morre por aqui”, diz. Para ele, a preservação é resultado da mobilização popular. “Já tentaram invadir. Os moradores se uniram, fizeram grupo, lutaram para não haver desmatamento”.

A expectativa da comunidade é transformar a área em parque ambiental. “Nós temos projeto para ser uma área ambiental, com limpeza e manutenção. Seria benéfico para toda a comunidade”, afirma. Para Jorge, Belém ainda precisa investir mais em arborização. “Precisamos reflorestar mais a nossa cidade".

image O autônomo e liderança comunitária Jorge Pompeu, um dos fundadores do Satélite, reforça que a mata tem papel estratégico para o bairro. (Ivan Duarte/O Liberal)

Júlia Seffer: ar mais fresco e liberdade para crianças

No Conjunto Júlia Seffer, a presença de bosques e áreas verdes também influencia a rotina. A babá Eliane Duarte, que mora no conjunto há dois meses, relata a mudança após sair de uma região menos arborizada. “O diferencial foi o ar. É ventilado, fresco, puro. Minha filha tem liberdade para brincar em áreas mais verdes”, conta.

Ela afirma que sente o impacto ao se deslocar para áreas mais centrais. “É muito mais abafado, o ar é mais pesado. A gente percebe a poluição dos carros e das motos”, diz. Para Eliane, o benefício vai além do conforto térmico. “Traz benefícios para todas as idades, tanto social quanto para a saúde”.

Eliane também observa efeitos diretos na saúde de crianças. Ela trabalha com um menino asmático que melhorou após a família se mudar para uma área com mais verde. “Ele vivia gripado, sentia falta de ar. Depois que mudou, a saúde dele mudou drasticamente”, relata. Para ela, a região metropolitana ainda carece de mais espaços como o Júlia Seffer.

image A babá Eliane Duarte, que mora no conjunto há dois meses, relata a mudança após sair de uma região menos arborizada. (Ivan Duarte/O Liberal)

O escritor francês Marc Bonaventure, residente há 10 anos no Júlia Seffer, destaca a diferença climática do conjunto em comparação com outras regiões da Grande Belém. “O clima é muito mais agradável. Quando chove, é uma boa chuva, e depois os espaços verdes equilibram”, afirma.

Ciclista, ele valoriza a infraestrutura e a arborização. “A gente se sente mais à vontade para circular. Os bosques dão equilíbrio mental, psicológico”, diz. Marc compara a sensação térmica com bairros mais adensados. “Se você vai para o Marco ou Maracacuera, é muito mais quente. Aqui é muito mais agradável”.

Para ele, a cidade precisa replicar o modelo em outras regiões. “Árvores são muito importantes. Deveria ter muito mais. Estamos na Amazônia, então precisamos valorizar isso”, afirma. 

image O escritor francês Marc Bonaventure, residente há 10 anos no Júlia Seffer, destaca a diferença climática do conjunto em comparação com outras regiões da Grande Belém. (Ivan Duarte/O Liberal)

Especialista alerta para riscos da perda de áreas verdes

Em uma região marcada pelo calor intenso, alta umidade e chuvas volumosas ao longo do ano, a arborização urbana não é apenas paisagem e se torna uma necessidade estrutural. Para o biólogo André Ribeiro, as árvores funcionam como uma verdadeira “infraestrutura ecológica” para cidades como Belém e Ananindeua. 

“Em cidades amazônicas, a vegetação regula o clima, protege o solo, melhora a qualidade do ar e contribui diretamente para o abastecimento hídrico. Árvores são infraestrutura. São tão importantes quanto ruas e redes de energia. Sem elas, a cidade adoece”, resume o biólogo.

Segundo o especialista, bairros com maior cobertura vegetal apresentam temperaturas até 5°C mais baixas do que áreas densamente urbanizadas e impermeabilizadas. Áreas como Curió-Utinga e partes do Satélite, que ainda mantêm fragmentos florestais, influenciam diretamente o microclima local. “Esses espaços mantêm a umidade do ar, reduzem a temperatura, diminuem a velocidade dos ventos e melhoram a qualidade ambiental como um todo”, explica Ribeiro.

Além do conforto térmico, as áreas verdes têm papel central na drenagem da cidade. O solo coberto por vegetação absorve mais água da chuva do que superfícies asfaltadas. As raízes aumentam a porosidade do solo, favorecem a infiltração e reduzem o escoamento superficial.

“Bosques urbanos bem conservados podem diminuir a sobrecarga do sistema de drenagem e reduzir alagamentos em períodos de chuvas intensas”, destaca.

image Em uma região marcada pelo calor intenso, alta umidade e chuvas volumosas ao longo do ano, a arborização urbana não é apenas paisagem e se torna uma necessidade estrutural. (Ivan Duarte/O Liberal)

Expansão urbana e riscos ambientais

Entre os principais desafios para preservar essas áreas estão a expansão imobiliária, ocupações irregulares e a falta de fiscalização contínua. Caso esses territórios sejam reduzidos, os impactos podem ser amplos, como aumento da temperatura média, intensificação de alagamentos, perda de biodiversidade e comprometimento do abastecimento hídrico.

O especialista aponta a criação de bosques urbanos comunitários como alternativa viável para localidades que ainda possuem áreas de mata, como Satélite e Júlia Seffer. “A iniciativa poderia preservar o microclima, fortalecer a educação ambiental e impedir ocupações desordenadas”, conclui Ribeiro.

Posicionamento

Em nota, a Prefeitura de Ananindeua informou que, no que se refere à região do Júlia Seffer, especialmente quanto aos bosques Uirapuru e Marajoara, são realizadas constantes ações de manutenção pela Secretaria de Serviços Urbanos, em conjunto com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, incluindo podas de árvores, além de atividades de educação ambiental e plantio de mudas.

No comunicado, a Prefeitura diz, ainda, que o município de Ananindeua sancionou a Lei Municipal nº 3.420/2024, que institui o Mosaico de Unidades de Conservação, garantindo a proteção de 50% do território municipal, o equivalente a aproximadamente 9,5 mil hectares de áreas verdes. Ananindeus abriga cerca de um terço das áreas verdes da Grande Belém.

"A gestão municipal implementou instrumentos modernos como Compensação Ambiental, Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e um Fundo REDD+ exclusivo, assegurando sustentabilidade financeira às ações ambientais. Além disso, foi iniciado o Planejamento Climático Participativo, que subsidiará a construção do Plano Municipal de Adaptação às Mudanças Climáticas”, detalha a nota.

As iniciativas contribuem para a regulação climática regional.

A Prefeitura de Belém também foi procurada para se manifestar sobre o monitoramento e fiscalização sobre as zonas verdes, projetos de revitalização e ampliação das áreas arborizadas, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

 

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