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Crise econômica no vizinho: inflação na Argentina já é a segunda do mundo

Com alto índice de reprovação, governo de governo Alberto Fernández enfrenta crise econômica, política e social

Eduardo Laviano

Com 40% dos habitantes vivendo na linha pobreza e um índice anual de inflação que chega a 60%, a Argentina tem retornado às manchetes. Para se ter ideia, o carro mais barato do país, o Fiat Mobi, custa o equivalente a R$95 mil, 75% a mais do que um ano atrás. "A Argentina é um país bastante especial porque parece que enfrenta crises mesmo quando não está em uma. Hoje, é um dos países que mais está crescendo economicamente e está gerando mais empregos na região, segundo dados oficiais, e ainda assim, parece que é o fim do mundo", avalia o cientista político Matías Bianchi, que dirige o think-tank Asuntos del Sur.

Segundo o argentino, geram-se gargalos econômicos entre booms exportadores que resultam em expansão do consumo e escassez de dólares no país. Soma-se a isso a crise política, que quase nunca dá trégua. Atualmente, duas coalizões estão esfaceladas enquanto disputam o poder: o kirchnerismo, que levou o presidente Alberto Fernández ao comando do país em 2019, começa a abandonar o barco em alguns setores do governo e a ser preterido em outros. A oposição, que tem ganhado força no Congresso, vê o partido Juntos por El Cambio rachado entre o ex-presidente neoliberal Mauricio Macri e o prefeito de Buenos Aires, Horácio Rodrigues Larreta. Com tantos desentendimentos públicos e mudanças em cargos, o país sofre para aprovar medidas de recuperação.

"Alberto Fernández era um presidente que inspirava pouca esperança em boa parte da população, pois vinha com os sapatos emprestados do kirchnerismo, já que a ex-presidente [Cristina Fernandez Kirchner, que presidiu os argentinos entre 2007 e 2015] o indicou ao fechar um acordo com ele, ou seja, ele chegou sem volume político próprio. Mas ganhou muito capital por conta da resposta à pandemia. Na realidade, a média de aceitação dos presidentes é muito baixa em toda a América Latina", conta ele, ao comentar a aprovação do atual presidente, abaixo dos 30%.

Também cientista político, o argentino Alexander Güvenel conta que o triunfo da centro-esquerda nas eleições de 2019 provocou uma fuga de capital grande, o que se refletiu na disparada da taxa de câmbio, uma pedra que há muitos anos aperta o sapatos dos argentinos. Ele conta que o governo Macri conseguiu estabilizar algumas tendências negativas da economia mas não foi capaz de convertê-las. Em 2018, o governo começava a derreter em popularidade. Alberto Fernandez agora enfrenta o mesmo revés. "A Argentina é um país de crises recorrentes e como você pode ver, cíclicas. Cristina Kirchner, principalmente no segundo governo, implantou ações como os obstáculos cambiais, o controle do comércio exterior e congelamento de preços - medidas que não funcionaram. Se supunha que aconteceria tudo novamente, o que na verdade até ocorre, apesar do presidente Alberto Fernández se mover na direção oposta", conta ele, ao apontar os dissensos nas visões econômicas da atual vice-presidente Cristina e do presidente Alberto como centro do impasse.

"Em princípio alguns acreditavam que poderia ser um governo moderado economicamente, mas a verdade é que nós, que analisamos do ponto de vista político a coalizão armada, sabíamos que isso não poderia resultar em uma boa operação. E foi o que aconteceu", diz.

Ele afirma que a matemática é terrível para Fernández porque nem os kirchneristas e nem os moderados estão satisfeitos com a gestão dele. Para ele, faltou sensatez da parte do presidente no sentido de tornar a Argentina mais aberta para os negócios com o resto do mundo. "Lembremos que as importações em muitos setores foram contidas e esse freio obviamente significa que a economia perde dinâmica, perde crescimento e, ao mesmo tempo, faz com que faltem todos os bens de consumo necessários, de peças de automóveis a produtos têxteis, porque obviamente não há insumos e a importação de produtos acabados não é permitida", avalia.

Güvenel entende que falta modernidade para a visão econômica dos governantes e que ainda há muito populismo em torno do que ele chama de "medidas mágicas" e da propaganda forte do kirchnerismo em cima da bonança econômica na virada para o século XXI, por conta do boom das commodities, que também proporcionou forte desenvolvimento econômico e social no Brasil. Segundo ele, o país fecha os olhos para práticas bem sucedidas ao redor do mundo. "Não aproveitaram a alta dos preços das commodities. Tudo isso foi desperdiçado hoje em dia. Os superávits fiscais foram pulverizados em busca de medidas populistas que obviamente foram diminuindo toda aquela prosperidade econômica e transformando uma bonança em crise, gerando a expansão do estado e dos gastos públicos e uma série de questões que o governo de Mauricio Macri tentou resolver, mas não explicou para a população de forma correta", opina ele sobre a política do ex-presidente que ficou conhecida como gradualismo.

Bianchi e Guvenel concordam que a pandemia de covid-19 impactou muito a Argentina, por conta da rigidez das medidas de restrição. Nesta época, a resposta enérgica de Alberto Fernandez fez a popularidade do mandatário disparar acima dos 70%, mas expandiram os gastos públicos e reduziram a produtividade. Teria sido a oportunidade para Fernandez se descolar do kirchnerismo e se tornar mais independente de Cristina, ressalta Güvenel, o que não ocorreu. "E agora temos uma tempestade perfeita, porque a guerra na Ucrânia sobe o preço das commodities e afeta nossa inflação também, pois somos também importadores de commodities. Também somos importadores de energia, o que complica ainda mais o déficit", diz Bianchi. "Mas a atual guerra tem muito pouco a ver com a inflação argentina", diz Alexander. 

Até mesmo a cooperação com o Brasil, historicamente o principal parceiro econômico, se deteriorou. Para Alexander, as diferentes posições políticas e econômicas entre o atual presidente argentino e Jair Bolsonaro, do Brasil, se tornaram mais relevantes que o usual. Segundo ele, mais por parte da Argentina do que do Brasil. Na opinião dele, o Itamaraty tem um corpo profissional que trabalha de maneira inflexível quando o assunto é o bom relacionamento com todas as nações, independente de quem seja a figura central do governo do Brasil. O mesmo não acontece no país vizinho. "Ainda que hoje o embaixador argentino no Brasil [Daniel Scioli] seja um personagem diplomático por excelência, que quer promover a entrada de produtos argentinos lá, a verdade é que a política geral é de fechamento em relação ao comércio", diz. Em 2012, a China superou o Brasil e passou a ser o principal parceiro comercial da Argentina, dando fim a uma hegemonia histórica. "A cooperação com o Brasil é bastante estrutural do ponto de vista econômico e por isso as negociações são sólidas. O vínculo político se deteriorou, mas suspeito que isso irá se retomar no caso de Lula [voltar a] ser presidente", diz Matías Bianchi.

O músico Nehuen Herrera faz parte do grupo de jovens da geração Z que se vê pouco esperançoso diante da realidade do próprio país. Ele conta que é questionado com frequência por amigos estrangeiros sobre as recorrentes crises no país. Na opinião do argentino, há diminuição constante no poder compra, a informalidade do mercado de trabalho, o clientelismo destinado a setores da sociedade alinhados ao governo e a corrupção fazem muitos compatriotas da idade dele abandonarem o país. "Uma pessoa com diploma universitário na Argentina ganha, em dólar, o mesmo que um garçom na Europa. Há a diferença das condições de trabalho. Temos que trabalhar vários anos em uma empresa para conseguir mais de sete dias de férias. Na Europa basta um ano de trabalho para ter 20 dias de férias. Há muito desemprego, pois não é fácil conseguir um bom trabalho. Isso leva muitos jovens a trabalharem pelo menos alguns anos no exterior para juntar dinheiro e ter uma vida melhor", conta.

Ao conversar com amigos estrangeiros, Herrera também faz questão de ressaltar que pouco importa se os governos estão mais a esquerda ou mais a direita, já que as mesmas práticas são reproduzidas com vestimentas diferentes. "Temos um nível alto de corrupção. A Justiça não é tão independente e as pessoas não creem nos políticos. Tivemos o governo Cristina com muitas intervenções em dados oficiais e acusações de obras públicas superfaturadas para beneficiar amigos. No governo Macri, vimos o carry trade que explodiu o preço do dólar para atender interesses internacionais", lamenta. Mas nem tudo é tristeza, segundo Nehuen: "É importante dizer que existem coisas boas para a juventude como a cultura da família e dos amigos que é muito latino-americana, bem como bom trato e amizade entre as pessoas. E o que há de melhor, apesar das crises, é a educação. A educação é pública e gratuita. No nível nível universitário, a educação aqui segue muito bem avaliada internacionalmente e também é gratuita. É um ponto positivo que sobreviveu as crises dos últimos anos", aponta.

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