Casarão histórico da Academia Paraense de Letras é alvo de furtos e vandalismo em Belém
Prédio teve portas e janelas arrombadas, vidros quebrados e livros e documentos históricos danificados
O casarão histórico que abriga a Academia Paraense de Letras (APL), no bairro da Campina, em Belém, foi alvo de invasões e furtos em um curto intervalo de tempo. A primeira ocorreu na madrugada do último domingo (16/8) e só foi descoberta na segunda-feira (17), quando os funcionários chegaram para iniciar o expediente. Na noite de terça-feira (18/8), o imóvel voltou a ser invadido. Além dos objetos levados, os criminosos causaram danos à estrutura do prédio e destruíram parte de materiais que integram o acervo da instituição.
Segundo Ivanildo Alves, presidente da Academia Paraense de Letras, a primeira invasão provocou um prejuízo material estimado entre R$ 25 mil e R$ 30 mil. Entre os objetos furtados estão utensílios usados nas sessões e no funcionamento interno.
“Os ladrões subtraíram quase tudo de valor que a gente tinha aqui. Levaram fogão, botijão de gás, levaram louças nossas que são utilizadas no nosso chá, que é uma tradição nas academias de letras. Eles levaram todos os nossos utensílios, assim como televisão, projetor, aparelhos de som e microfones”, relatou.
Acervo
O presidente afirma que, além do prejuízo financeiro, o maior impacto está relacionado aos danos provocados ao patrimônio histórico e cultural da instituição. Segundo ele, materiais que não foram levados acabaram destruídos pelos invasores.
“Me parece que a gente não estava só interessado em furtar. Eles danificaram vários objetos. O que eles não puderam levar, eles quebraram. Eles deliberadamente extraviaram documentos nossos, rasgaram livros históricos”, lamentou Ivanildo.
Entre os materiais atingidos estão livros históricos, documentos de contabilidade, registros de sessões e outros arquivos da Academia Paraense de Letras. A instituição ainda realiza um levantamento para identificar tudo o que foi levado ou destruído.
“A biblioteca está em reforma e nós estamos levantando as obras que foram destruídas ou que desapareceram nas invasões. Livros históricos que nós temos aqui eles destruíram”, disse.
Transtornos
A sequência de invasões também afetou diretamente a programação cultural da Academia. Uma sessão em homenagem a Portugal, que teria como homenageado o poeta Fernando Pessoa e estava marcada para terça-feira (18), precisou ser cancelada.
“Nós tivemos que suspender a sessão em homenagem a Portugal. Já estava tudo marcado. Nós tivemos que desmarcar porque não temos mais condições físicas de desenvolver a atividade”, explicou Ivanildo Alves.
De acordo com o presidente, as atividades da instituição deverão permanecer paralisadas por pelo menos duas semanas, enquanto são avaliados os danos e tomadas providências para recompor a estrutura.
“Nós tivemos que paralisar atividades da Academia Paraense de Letras por conta desse furto, por conta desse crime. E aqui, a insegurança é muito grande”, declarou.
Problemas
A situação também preocupa a instituição por causa da proximidade da Feira do Livro. Segundo Ivanildo, cerca de 40 escritores costumam utilizar a Academia como ponto de apoio para levar livros até o evento, onde as obras são disponibilizadas para venda e sessões de autógrafos.
“Nós temos uma produção cultural muito grande. Os escritores normalmente trazem os livros para cá e, daqui, a gente leva de carro para a Feira do Livro, para colocar nas nossas estantes, para venda e noite de autógrafos. Com a insegurança, não tem como a gente canalizar. Vamos ter que orientar os escritores a mandar direto para lá”, afirmou.
Segurança
O presidente da APL também relatou que a instituição já adotou medidas para tentar dificultar o acesso dos invasores. O entorno do imóvel conta com arame farpado e concertina, além de dois cães. Mesmo assim, os criminosos conseguem entrar pelo teto.
“Nós fizemos de tudo, um aparato físico para tentar controlar a entrada deles aqui. Ao redor parece uma penitenciária, com arame farpado, com concertina de penitenciária, e ainda assim eles adentram. Nós temos dois cães. Eles nunca adentram por baixo, eles entram pelo teto, por cima dos cães”, explicou.
Segundo Ivanildo, a entrada utilizada pelos criminosos já foi identificada. O acesso ocorre por um imóvel desocupado localizado ao lado da Academia, de onde os invasores conseguem alcançar o muro e chegar às partes superiores do casarão.
“Normalmente eles vêm no final de semana e fazem o furto. A entrada deles é pela casa vazia. Eles vêm por lá e sobem pelo muro, colocam tipo uma tábua e sobem para as janelas do teto, porque embaixo os cachorros atacam”, relatou.
O presidente afirma que a Academia já solicitou à Prefeitura de Belém a cessão do imóvel vizinho para instalar uma biblioteca. Enquanto a situação não é resolvida, o espaço permanece desocupado e, segundo ele, acaba sendo utilizado como rota de acesso pelos criminosos.
Seis invasões em seis anos
Ivanildo Alves afirma que os episódios de invasão são recorrentes. Segundo ele, foram seis furtos registrados na Academia Paraense de Letras nos últimos seis anos, sendo três somente em 2026. “Eu estou no terceiro mandato na Academia Paraense de Letras e, ao longo desses seis anos, é recorrente eles entrarem aqui”, afirmou.
O presidente também criticou a falta de uma resposta efetiva para impedir novos crimes na região. Segundo ele, após as ocorrências, as rondas policiais são intensificadas por alguns dias, mas posteriormente deixam de ocorrer com a mesma frequência.
“Nós não temos nenhuma resposta efetiva, repressiva do Estado, no sentido de localizar os criminosos. Ainda que eles não localizassem nossos bens, mas pelo menos prendessem os criminosos. Nós, aqui da Cidade Velha, sofremos muito com insegurança”, declarou.
Para evitar novos prejuízos após a recomposição do patrimônio, o presidente da Academia diz que poderá ser necessário retirar equipamentos e objetos do casarão e levá-los para outro local.
“Depois que a gente recompor nosso patrimônio, eu terei que levar para minha casa, casa do presidente, para evitar que eles entrem aqui de novo e levem tudo. Pois isso inviabiliza até a nossa atividade”, disse.
Além da perda de equipamentos e utensílios, a preocupação da Academia Paraense de Letras é preservar documentos, livros e outros materiais que possuem valor histórico e cultural e que podem não ser recuperados ou substituídos.
Posicionamento
Em nota, a Polícia Civil informou que a Seccional do Comércio apura dois furtos registrados na Academia Paraense de Letras, conforme dois Boletins de Ocorrência.
"Perícias foram solicitadas e já foi realizada a coleta de impressões digitais no local para auxiliar nas investigações. As equipes trabalham para identificar os envolvidos e esclarecer os fatos", comunicou.
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