Trabalhadores rurais chegam a Belém para lembrar Massacre de Eldorado dos Carajás

Produtores estão na capital desde domingo e realizam feira e atividades culturais na Praça Floriano Peixoto, em São Brás

Cleide Magalhães

O massacre de Eldorado de Carajás completa 23 anos nesta quarta-feira (17) e já é marcado por manifestações e atividades de trabalhadores rurais na praça Floriano Peixoto, no bairro de São Brás, em Belém, e na curva do "S", onde o massacre ocorreu, às margens da PA-150, no sul do Estado. O episódio resultou na morte de 23 trabalhadores rurais sem terra e mais de 100 pessoas mutiladas pela ação da Polícia Militar.

Desde a tarde de domingo (14), dezenas de trabalhadores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) começaram a chegar em Belém, vindos de cerca de 40 acampamentos e assentamentos do MST localizados nas regiões nordeste e sudeste do estado. A mobilização faz parte também da Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária, que ocorre em todas as capitais do Brasil. A expectativa da coordenação do movimento é totalizar pelo menos mil camponeses acampados na Praça Floriano Peixoto, em São Brás, sem data para retornar. No lugar acontecem também atividades culturais feitas por artistas amigos do MST em Belém.

A vinda dos agricultores está ligada à data em que ocorreu o Massacre de Eldorado dos Carajás (Igor Mota)

Em paralelo à ação em Belém, deste o último dia 10 até quarta (17), cerca de 500 jovens dos estados do Pará, Tocantins e Maranhão realizam o 14º Acampamento Pedagógico da Juventude, na curva do "S", onde o crime aconteceu. Nele, fazem atividades culturais, de formação, debates, estudos e oficinas. Todos esses dias, das 17h às 17h21, eles fecham a rodovia PA-150 para apresentações culturais e místicas para, de forma simbólica, rememorarem e protestarem o dia do assassinato.

Reivindicações

A vinda do movimento a Belém, explica Raimundo Nonato Filho, um dos coordenadores do MST, se dá em repúdio ao massacre e pela reforma agrária. “Ainda hoje sentimos indignação pelo massacre, que é a síntese da ausência de uma política que venha melhorar a qualidade de vida das famílias que moram no campo. A gente transforma esse sentimento em perspectivas e lutas para novas conquistas. Isso aqui é a expressão de uma conquista. Viemos para Belém fazer as nossas lutas reivindicatórias e de denúncias contra os massacres e assassinatos no campo. Além da ausência de uma reforma agrária e agrícola séria, que venha beneficiar a qualidade de vida das pessoas assentadas”, afirmou Raimundo.

Além disso, o coordenador do MST disse que o movimento objetiva solicitar junto aos órgãos públicos, com o Governo do Estado, reuniões para cobrar ações para o fim dos assassinatos no campo e a política de efetivação da reforma agrária, como o fim da isenção das terras griladas. “Precisamos de políticas agrícolas, de crédito, de assistência técnica e de comercialização, e pavimentação de estradas. Essas são questões que praticamente inexistem no nosso Estado e queremos pedir comprometimento para que o campo não seja essa penosidade (sic) para os mais pobres”, afirmou Raimundo.

A expectativa do movimento é a confirmação de uma agenda na manhã desta terça (16), com o governador do Estado, Helder Barbalho.

Para o presidente da Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH), Marco Apolo, a mobilização do MST é uma oportunidade para exigir o fim da impunidade do campo, que alimenta a violência. “Pelo massacre de Eldorado de Carajás cumprem pena somente o major Oliveira e o coronel Pantoja. Quem ordenou o crime e vários participantes da execução ficaram impunes. Esses assassinatos mais recentes que têm ocorrido, como as chacinas de seis pessoas em Baião, não são fatos isolados e estão diretamente ligados a Eldorado, porque quando há falta de justiça garantida pelo Estado a gente percebe que a violência só faz aumentar”, frisou Apolo.

Os trabalhadores estão realizando uma feira de produto na Praça Floriano Peixoto (Igor Mota)

Feira

O movimento trouxe também para a praça Floriano Peixoto a 5ª Feira Regional da Reforma Agrária Popular Mamed Gomes, na qual estão à venda diversos produtos produzidos na agricultura familiar e sem agrotóxicos em dez acampamentos e assentamentos do MST, localizados na região nordeste do Pará, onde há cerca de 2,5 mil famílias. Alguns dos produtos são frutas, hortaliças, doces, licores, farinha, ovos, temperos, galinha caipira, etc. Além de artesanato, sementes e mudas de plantas.

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