Conheça o artesão de Ananindeua que cria instrumentos com matéria prima da floresta

Músico e artesão, o morador do bairro das Águas Brancas está ficando requisitado dentro e fora do estado pela característica singular com que cria seus instrumentos

Igor Wilson

A floresta não tem som. Tem sons. Milhares e dos mais diversos tipos. Foi a partir desta percepção que Waldiney Machado começou sua estrada até a criação da marca Batuque da Mata, há 15 anos. Músico e artesão, o morador do bairro das Águas Brancas, em Ananindeua está ficando requisitado dentro e fora do estado pela característica singular com que cria seus instrumentos. 

image Waldiney Machado começou sua estrada até a criação da marca Batuque da Mata, há 15 anos (Filipe Bispo/ O Liberal)

Waldiney faz seus instrumentos musicais com matéria prima oferecida pela própria floresta. Tucumã, cuité, ouriço de castanha do Pará ou de cerú, embaúba, jatobá, sapucaia, sapucaína, sororoca, tauarí, côco seco. Para a maioria das pessoas são objetos desconhecidos, mas para o artesão são a base da produção de maracas, chocalhos, kalimbas, atabaques, djambés, ganzás, reco-reco, pandeiros, wassamba e outros tipos das dezenas de instrumentos presentes no catálogo do Batuque da Mata

image Matéria prima vira arte (Filipe Bispo/ O Liberal)

A cadeia produtiva criada pelo músico está conectada a preservação da floresta de uma ponta a outra. Waldiney trabalha fazendo parcerias com comunidades ribeirinhas e quilombolas por todo o estado. Quando uma árvore dá algum fruto que possa ser utilizado para a confecção de instrumentos musicais, alguém da comunidade liga ou manda mensagem para Waldiney, que dá um jeito de ir buscar tudo. 

“A extração da matéria prima é um ponto muito importante porque tudo que usamos nos instrumentos vem da floresta. Então, se não tiver floresta, não tem como obter o material. Não tem como produzir os instrumentos. É preciso que a mata esteja de pé. Então eu trabalho fazendo parcerias com algumas comunidades, a maioria delas são comunidades quilombolas, muitas da região do Baixo Amazonas. É uma cadeia em torno da preservação e isso chama atenção das pessoas que se preocupam com isso”, diz o músico. 

BATUQUE TÁ ON, MAS NO TEMPO DA NATUREZA 

A pandemia transformou o negócio de Waldiney. Assim como aconteceu com milhares de empreendedores, o percussionista precisou aprender mais sobre as vendas no mundo online. Antes das portas do mundo fecharem, os produtos do Batuque da Mata eram vendidos aos domingos na Praça da República. A marca ficou conhecida ganhou popularidade com o público, mas após as vendas online a procura disparou. O resultado foi melhor do que a previsão mais otimista de Waldiney. 

image Materiais retirados da floresta viram instrumentos musicais (Filipe Bispo/ O Liberal)

“A crise dos dois anos pandêmicos exigiu que a gente se reinventasse, então foi o que eu fiz. Deixei a barraca na Praça da República, mas em compensação eu tive a oportunidade de divulgar meu trabalho na internet e agora eu estou trabalhando só por encomendas. A maioria dos pedidos atualmente são de outros estados, de sul a sudeste, no nordeste e aqui na região também”, diz Waldiney, ao mesmo tempo em que mostra com orgulho a caixa com 20 instrumentos, que irá enviar para uma escola em São Paulo. 

O crescimento das encomendas a medida que a marca ia ficando conhecida fez o artesão perceber que não poderia atender a toda demanda. E por um motivo simples: o número de instrumentos criados depende diretamente do tempo da natureza. Se produz com o que ela dá a cada ciclo e nem sempre é possível atender a todos os pedidos ao mesmo tempo.  

“As pessoas dizem que o Batuque na Mata precisa ser mais ativo nas redes. Eu não tenho Instagram, quase não utilizo a página do Facebook. Sei que essas redes são essenciais para venda, mas nós trabalhamos de forma mais restrita na produção, justamente porque temos uma quantidade de material limitada. Temos uma matéria prima dada pela floresta e precisamos trabalhar com essa quantidade. Encomendas não faltam, mas alguns precisam esperar um pouco o tempo da natureza”, explica o músico. 

LONGA ESTRADA, LONGA ESCOLA 

O tempo foi o principal amigo de Waldiney durante seu percurso até a ideia do Batuque na Mata tomar corpo. Na adolescência, em meados da década de 1990, o paraense formou uma banda de rock com amigos. Tocava bateria. O instrumento foi seu primeiro contato com o universo da percussão, uma relação que seria para sempre. 

“A nossa banda tocava aqueles clássicos da nossa adolescência. Foi passando o tempo e depois tive um novo tipo de contato com a música, já com com outro olhar, olhando mais para a música regional. O carimbó e sua riqueza musical me pegaram. Ficava observando os instrumentos de percussão daquelas músicas, estudava-os. Isso abriu caminho pra mais tarde ir pesquisando estes instrumentos e seu modo de produção”, conta o artista. 

image Dedicação e consciência ambiental para a criação dos instrumentos (Filipe Bispo/ O Liberal)

A partir desse contato com a musicalidade regional e com os instrumentos que o morador de Ananindeua despertou o desejo não apenas de inserir aquela vastidão de sons em seu trabalho musical, mas também de fabricar e ter seus próprios instrumentos. “Essa transição foi por volta de 1997, 1998, por aí”, lembra. De lá para cá o artista criou seu trabalho autoral e sua marca, que aos poucos foi ficando prestigiada com a própria classe musical do estado. 

Desde então, Waldiney tem passado boa parte dos dias em seu ateliê, um espaço coberto em seu verde quintal. Ali começa a criação do “som”, como ele diz em tom de brincadeira. Prateleiras com sementes, ouriços, madeiras reaproveitadas, armações de tambores penduradas pelo alto. De feição risonha e tranquila, Waldiney termina de tocar um tambor recém feito, lembrando que precisa terminar uma caixa que irá enviar em breve para São Paulo. Ouvindo os passarinhos e o chacoalhar das árvores do quintal de sua casa, levanta para seguir a missão. 

image Instrumentos trazem a energia da natureza (Filipe Bispo/ O Liberal)

INSTRUMENTOS DO BATUQUE DA MATA 

- Mini curimbó 

Materiais: madeira reaproveitada, rabo de tatu (fio de nylon), pele de carneiro. 

- Pandeiro 

Materiais: madeira de compensado, pele de carneiro e pino de madeira pau Darco, fio de nylon com cera de abelha e platinelas. 

- Reco-reco 

Materiais: taboca e baqueta de pau Darco 

- Tambor chocalho 

Materiais: coco seco, pele de carneiro, semente de tentro, fio de nylon com cera de abelha e pau Darco. 

- Castanha Bloco 

Ouriço de castanha do Pará, lacre e pau Darco. 

- Wassamba 

Madeira reaproveitável, tampas de ouriço de castanha do Pará e madeira de lacre. 

- Cabuletê 

Bambu, madeira de lacre, madeira de pau Darco, fio de nylon com cera de abelha e sementes de açaí 

- Chocalho de serú (árvore nativa da floresta amazônica, produz seus frutos em ouriços. Seus frutos alimentam vários animais) 

Ouriço de serú, pele de carneiro, fio de nylon com cera de abelha e miçangas 

- Maraca 

Cuité, fio de algodão com cera de abelha, madeira de lacre e miçangas 

- Adja (pica pau) 

Sementes de tucumã-açu, madeira de lacre e de pau Darco, 

-  Kokiriko 

Madeira reaproveitada, madeira de lacre, fio de nylon com cera de abelha e miçangas  

- Ganzá 

Embaúba,  madeira de compensado, miçangas, fio de algodão com cera de abelhas. 

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