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ACOLHIMENTO

Acolhimento e assistência universitária reescrevem o futuro no interior do Pará

Atual gestão da UFPA investe em políticas de assistência estudantil para evitar a evasão em cursos de nível superior no interior do Estado

Felipe Melo - Especial para O Liberal

8 de novembro de 2026 às 08:30

A imagem mostra estudantes no RU de Bragança, primeiro Restaurante Universitário da UFPA fora de Belém

A imagem mostra estudantes no RU de Bragança, primeiro Restaurante Universitário da UFPA fora de Belém ( Foto: Foto: Heloisa Torres | Ascom UFPA )

Houve um tempo, não muito distante, em que conquistar uma vaga na universidade pública no interior do Pará era apenas metade de uma travessia desafiadora. A outra metade, que era permanecer nela, cobrava um preço alto demais que se traduzia na insegurança alimentar velada nas salas de aula, na instabilidade da moradia estudantil e no abandono precoce dos estudos. Para a juventude que sai das vilas, dos rios e das periferias do Pará, o diploma não era somente uma escolha acadêmica, mas um exercício diário de persistência e superação.

Nas últimas semanas, no entanto, essa realidade começou a se transformar de forma estrutural. Com a entrega do primeiro Restaurante Universitário de atendimento pleno no interior, em Bragança, e a inauguração da Casa de Estudantes Universitários, em Salinópolis, a Universidade Federal do Pará (UFPA), sob a gestão do atual reitor, professor Gilmar Pereira da Silva, deu passos decisivos para consolidar sua política de permanência e inclusão. As entregas transformam a assistência estudantil de apoio pontual a uma estratégia consistente de acolhimento e dignidade acadêmica.

Para entender a verdadeira dimensão dessas conquistas, é preciso olhar para além das estruturas físicas e olhar as trajetórias que dão vida às estatísticas. Em Bragança, no polo da Região do Caeté, a história da transformação passa pela vivência de Nathaly Louyse, de 23 anos. Atual presidente do Centro Acadêmico de Letras - Português Jorge Ramos e estudante do 7º semestre, Nathaly carrega na memória o incentivo que a trouxe até aqui.

Ainda criança, brincando de escolinha com os amigos nas ruas de Nova Olinda, uma vila no município de Augusto Corrêa, ela ouvia da avó, hoje falecida, a certeza de que um dia veria a neta formada como uma grande professora. A lembrança transformou-se em motivação contínua. Em 2022, Nathaly dedicou-se a um cursinho popular e, no início de 2023, alcançou a aprovação na UFPA.

Em Bragança, a história da transformação passa pela vivência de Nathaly Louyse, de 23 anos
Em Bragança, a história da transformação passa pela vivência de Nathaly Louyse, de 23 anos (Foto: Acervo pessoal)

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Sonho realizado

"Ver o meu nome na lista dos aprovados foi um choque, algo inacreditável para mim. Parecia que eu estava sonhando", recorda a estudante. Ela se mudou para Bragança uma semana antes do início das aulas, decidida a aproveitar cada oportunidade oferecida pela universidade pública. Contudo, a rotina acadêmica rapidamente exigiu intensa dedicação.

Ao assumir a presidência do Centro Acadêmico e colaborar com os movimentos representativos do campus, Nathaly vivenciou o desafio rotineiro dos estudantes que precisam conciliar aulas, projetos e subsistência. Atuando no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) no período da tarde e cursando as disciplinas pela manhã, a margem de tempo para o deslocamento e para uma alimentação adequada era extremamente reduzida.

"Muitas vezes não dá tempo de ir em casa almoçar. E essa não é só a minha realidade. Digo também pelos meus colegas que residem no interior distante de Bragança e precisam pegar transporte para chegar, muitas vezes sem comer direito", relata Nathaly Louyse. A realidade vivenciada no campus dialoga com os dados levantados pela Pró-Reitoria de Assistência e Acessibilidade Estudantil (PROAES). Diagnósticos da instituição indicam que cerca de 70% dos estudantes da UFPA enfrentam algum nível de insegurança alimentar, e um terço vivencia situações mais severas de vulnerabilidade socioeconômica.

A foto mostra o reitor da UFPA, Gilmar Pereira
A foto mostra o reitor da UFPA, Gilmar Pereira (Foto: Heloisa Torres | Ascom UFPA)

Refeições balanceadas

É nesse contexto que a garantia diária de refeições balanceadas assume um papel pedagógico decisivo na retenção dos discentes. "Discentes nessa condição têm até três vezes mais risco de evasão", alerta o pró-reitor de Assistência e Acessibilidade Estudantil, professor Ronaldo Araújo. "Inaugurar um restaurante universitário cumpre um papel social, mas tem, sobretudo, uma função acadêmica muito clara de retenção e garantia de diplomação."

Com capacidade para ofertar até 310 refeições diárias no almoço ao custo simbólico de R$ 1 para a maioria dos alunos e gratuidade total para os de extrema vulnerabilidade, o RU de Bragança - o primeiro Restaurante Universitário da UFPA fora de Belém - consolida-se como um ponto central de convivência. A estrutura conta com acompanhamento de nutricionistas, opções vegetarianas, ambiente climatizado e integra um complexo que inclui o novo Núcleo de Assistência e Inclusão Estudantil (NAI), equipado com tecnologias assistivas para pessoas com deficiência visual e salas de autorregulação para discentes neurodivergentes, além da Sala de Apoio à Amamentação.

"O RU evita a evasão de alunos que não teriam recursos para se manter estudando longe de casa ou em rotinas de tempo integral", reforça Nathaly Louyse. "Saber que agora temos refeições preparadas com cuidado, um espaço de acolhimento onde podemos sentar, conversar e trocar conhecimentos durante o almoço, garante as condições fundamentais para que possamos concluir nossos cursos", completa.

Lucas Almeida, de 28 anos, natural de Vigia de Nazaré: ele superou um primeiro ano de muitas readequações pessoais e financeiras
Lucas Almeida, de 28 anos, natural de Vigia de Nazaré: ele superou um primeiro ano de muitas readequações pessoais e financeiras (Foto: Acervo pessoal)

Moradia digna e estabilidade no ambiente universitário

A 100 quilômetros dali, no município de Salinópolis, o desafio da permanência universitária relacionava-se à dinâmica imobiliária local. Para os estudantes que se mudavam para a cidade litorânea em busca do ensino superior público, a manutenção do aluguel enfrentava oscilações nos períodos de alta temporada turística, quando a demanda por imóveis sazonais costumava encarecer os custos de moradia.

Lucas Almeida, de 28 anos, discente do curso de Matemática da turma de 2025 e natural de Vigia de Nazaré, conhece os desafios desse percurso. Movido pelo desejo de se tornar professor e motivado pela referência do curso no campus, Lucas superou um primeiro ano de muitas readequações pessoais e financeiras. "Meu primeiro ano foi de muita resiliência. Passei dificuldades, tinha que andar quilômetros para ir e voltar da faculdade, e muitas vezes precisava escolher entre o valor do deslocamento ou o do lanche", relata o estudante. O apoio da comunidade acadêmica foi determinante para a continuidade dos seus estudos. "Com o apoio de pessoas incríveis que encontrei no caminho, as coisas começaram a fluir e fortaleceu em mim a vontade de continuar.", diz.

A inauguração da Casa de Estudantes Universitários de Salinópolis surge como uma solução definitiva para garantir estabilidade habitacional aos discentes. Instalada em parceria com o Hotel Praiabela, a estrutura oferece sete quartos em formato de suíte para até 26 residentes, incluindo uma unidade adaptada para pessoas com deficiência, sala de estudos, cozinha equipada, lavanderia coletiva e espaço reservado para professores visitantes. O processo seletivo priorizou critérios afirmativos, acolhendo jovens oriundos de municípios como Quatipuru, Maracanã, Santa Isabel do Pará, Vigia e Chaves, no Marajó, englobando estudantes indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, populações tradicionais e pessoas trans.

Para Lucas, a conquista representa segurança e planejamento para os anos de formação. "A Casa do Estudante representa muito mais do que um lugar para morar. Ela representa uma oportunidade, um recomeço e a esperança de realizar um sonho", destaca. "Saber que podemos contar com um espaço seguro e estruturado torna a caminhada mais leve. Vejo a casa como uma ponte entre a realidade que vivo hoje e o futuro que desejo conquistar", disse.

O impacto positivo do suporte residencial na trajetória acadêmica é destacado pela gestão da assistência estudantil. "A assistência estudantil é mais do que uma ação social. É uma política acadêmica", enfatiza o pró-reitor Ronaldo Araújo, observando que a estabilidade habitacional reflete diretamente no rendimento escolar dos discentes e na redução expressiva dos índices de evasão.

Compromisso institucional com a Amazônia

As entregas das novas estruturas refletem o diálogo contínuo e a colaboração entre a comunidade estudantil e a administração da universidade. A convergência de esforços permitiu mapear com precisão as necessidades prioritárias dos campi do interior e viabilizar os investimentos necessários. Para a gestão superior da UFPA, a expansão dessas estruturas reafirma a missão da instituição de promover o desenvolvimento social e a inclusão educacional na Região Amazônica. O reitor da universidade, professor Gilmar Pereira da Silva, destacou que a consolidação da assistência estudantil é o caminho para assegurar oportunidades iguais e garantir que os talentos regionais encontrem condições plenas para se desenvolver.

"É por meio da educação pública, inclusiva e de qualidade que transformamos vidas e oferecemos perspectivas reais para os nossos jovens. Com isso, os filhos da classe trabalhadora têm mais oportunidades de estudar", afirma o reitor. "Nós temos uma universidade diferenciada, com muitos estudantes pobres, negros, quilombolas e indígenas que precisam de um lugar para morar e se alimentar para desenvolver seus talentos. O nosso compromisso à frente da gestão institucional é garantir que todos os estudantes, independentemente de sua origem, tenham acesso à saúde, à alimentação e às condições necessárias para concluir seus cursos.", completa.

O reitor reforçou ainda a responsabilidade social do ensino público no cenário nacional. "A universidade cumpre o seu papel social quando estende suas mãos para garantir a permanência e a dignidade do seu corpo discente. Esse país não se desenvolve se a gente não tiver uma educação de qualidade." Ao integrar a oferta de refeições acessíveis em Bragança à moradia universitária em Salinópolis, a UFPA consolida uma política abrangente de assistência no interior do Pará. A iniciativa demonstra que o fortalecimento do ensino superior se realiza por meio de investimentos concretos na infraestrutura de suporte aos alunos. Para discentes como Nathaly Louyse e Lucas Almeida, o acesso ao ambiente acadêmico passa a ser acompanhado da certeza de um percurso universitário seguro, acolhedor e focado na realização profissional.