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Veja como a guerra afeta as exportações do Pará

Bauxita tem impacto da paralisação da produção no país ucraniano e, ainda, o agronegócio é afetado pelas dificuldades de importação de insumos da Rússia

Natália Mello

invasão russa na Ucrânia completa dois meses neste domingo (24) e, ao afetar todo o mercado internacional, respinga também na economia paraense no que se refere à exportação de commodities. Segundo o Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Pará (CIN/Fiepa), a bauxita calcinada vem sofrendo o impacto da paralisação das atividades de produção industrial no país ucraniano, e fechou o mês de março de 2022 com uma variação negativa de 9,48%.

Commodity é um termo que se refere a produtos básicos globais não industrializados, como soja e minério. As commodities são matérias-primas semelhantes, independentemente do país que produziu. Por isso, o preço desses produtos é determinado pela oferta e procura internacional e, assim, as commodities podem ser negociados na bolsa de valores.

A bauxita calcinada é o produto paraense mais comprado pela Ucrânia atualmente, segundo a coordenadora do CIN, Cassandra Lobato. “O principal comprador desse produto do Pará é a Irlanda. A exportação paraense da bauxita somou US$ 31,7 milhões em março deste ano, em comparação aos US$ 35 milhões no mesmo período do ano anterior. Então, a gente já começa a ver aí um decréscimo por parte da bauxita e já pode apontar como um dos produtos que sofrem o impacto da guerra da Ucrânia”, explicou.

Pimenta

Cassandra lembra que outros produtos somam valor superior a US$ 21 milhões exportados do Pará para Ucrânia em 2021: a pimenta e querosene de avião. Apesar desse impacto, a especialista afirma que os resultados na balança comercial não são tão graves se comparados às consequências negativas de uma possível ruptura com relações com a Rússia no que se refere especialmente às importações, já que o país figura como o principal fornecedor de produtos como cloreto de potássio, de hidrogênio (amônio), adubos que são fertilizantes e ureia.

“Então, a Rússia se posiciona como chave ao fornecimento de insumos que permitem o sucesso do agronegócio paraense e brasileiro. Por isso, a importância de a gente manter essas trocas comerciais para que se consiga cada vez mais consolidar as nossas commodities agrícolas, isso é muito importante para o agronegócio nacional e paraense. É estrategicamente necessário se manter uma postura”, analisou Cassandra Lobato.

A coordenadora do CIN reforçou ainda que a retração das negociações brasileiras com a Rússia é uma das consequências possíveis e futuras desse cenário de incertezas próprio de uma guerra, pela intenção de o Brasil se alinhar ao comportamento dos países dos blocos econômicos aos quais faz parte. “Por isso é importante manter a neutralidade diante do conflito, como forma de blindar o agronegócio brasileiro, e isso é especialmente importante em relação às commodities agrícolas e à importação de fertilizantes”, afirma Cassandra Lobato, completando que neste momento o País tenta diversificar fornecedores dessa matéria-prima, negociando cargas extras com Canadá e Reino Unido.

Cenário agrícola preocupa pela insegurança alimentar

O diretor da Federação da Agricultura e da Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Missen, levantou outro ponto com relação às consequências da guerra da Ucrânia que afetam diretamente o Pará: a questão alimentar. Com a dificuldade de importação de insumos para a produção agrícola brasileira e paraense, o aumento do trigo e outros obstáculos, como a produção de derivados do milho, forte no território ucraniano, afetam a indústria da alimentação.

“A Ucrânia não é só energia, essa parte do trigo, do pão, é porque alimentava toda a Europa. Eles têm excelentes produtos de milho, frutas, tem uma forte economia agrária, e de uma hora para outra afetou o submercado que compra esses produtos e não tem mais a produção. Até recuperar o país, não só a questão da guerra em si, vai levar tempo. E, nesse cenário, podemos dizer que afeta o Pará, sendo que hoje o mundo é inviável sem o agronegócio brasileiro. Nosso principal concorrente é a Argentina, que está quebrada e não está produzindo como produzia, então o nosso mercado continua aumentando, principalmente para a Ásia”, detalha Missen.

O papel da soja nesse cenário

Guilherme cita a soja, inclusive, como a proteína vegetal utilizada na alimentação de todos os animais monogástricos. “Claro que afetou, não tem como dizer que não afetou. É de lá que trazemos o potássio e o fósforo, insumos para adubo que servem para produção de soja, para o plantio em geral, para a produção de pasto, para a produção de pecuária, de crescer esse rebanho animal, e assim chegar comida no prato do brasileiro. O que percebemos é que talvez mude para sermos independentes e comecemos a produzir o potássio aqui, porque precisamos é de segurança alimentar e essa guerra afeta diretamente a alimentação”, pontua.

O representante da Faepa acredita que o agronegócio, atualmente, se faz mais forte que um ciclo apenas de produção, como anteriormente foi o da borracha, o da madeira. A ideia, de acordo com ele, é diversificar ainda mais a economia rural e fortalece-la enquanto matriz econômica.

“Hoje, a soja já chega a 52% dos nossos valores de exportação. Por quê? Porque ela vale muito dinheiro, é uma proteína nobre, tem óleos que saem dela e tem um ciclo muito rápido. O produtor produz a soja e nas áreas pode produzir o milho, e esse produto agrícola passou a ter renda no Baixo Amazonas – Santarém –, no sul do Pará – Santana do Araguaia e Paragominas. São polos que movimentam a economia da região. Hoje, os grandes PIBs brasileiros são de áreas rurais. Antes, a cidade que crescia era a que tinha uma economia pública, uma prefeitura que contratava bastante. Hoje, não, é a cidade que tem uma economia agrícola”, concluiu.

O diretor presidente do Sindicato das Indústrias Minerais do Pará (Simineral), Guido Germani, afirma que em termos de volume (toneladas), ainda não houve impactos para a exportação de commodities minerais paraenses, mas ressalta que alumínio e níquel subiram de preço, visto que a Rússia é um grande produtor. “Acho que o maior impacto por enquanto foi no preço dos combustíveis, impactando no custo das empresas. De forma geral, o dólar mais baixo reduz as receitas dos minérios exportados, mas os atuais patamares da taxa do dólar ainda são atrativos para as exportações”, destaca.

Pará pode se beneficiar com a baixa do dólar

Com a taxa da inflação (Selic) em dois dígitos, commodities em alta, sanções econômicas aplicadas à Rússia e, assim, a saída de investimentos do país e do leste europeu rumo a outros mercados emergentes, o dólar, que no ano passado chegou a custar perto de R$ 5,80, agora é negociado agora abaixo dos R$ 5, tendo chegado a valer menos que R$ 4,70. Esse é o pior cenário da moeda em relação ao real desde março de 2020.

“Essa baixa do dólar é um bom momento para a atração de investimentos internacionais e o Pará sem dúvida nenhuma pode se beneficiar com a fuga desse capital estrangeiro, que começa a ver outros mercados como alvos e principalmente o mercado emergente. Dessa forma, ele (capital) consegue se proteger de algumas dessas incertezas que a guerra traz. É um ano muito favorável para as commodities e, de alguma forma, o Brasil se beneficia disso, e o Pará por consequência, já que são grandes exportadores de commodities, principalmente agrícolas e minerais, Brasil e Pará, respectivamente”, detalha Cassandra Lobato.

A especialista lembra que não só o dólar, mas o euro também foi afetado pela guerra, e muitos investidores que tinham trocado a moeda europeia pelo dólar, o que demonstra o quanto a moeda ainda rege os negócios e os investimentos no mundo. “O dólar representou, em 2021, 70% das reservas globais. Então, a gente tem uma variação hoje – o dólar estava R$ 4,62 no dia 20 de abril –  e acredito que pode cair um pouco mais. Tudo muito devido às incertezas do capital estrangeiro”, finaliza.

Guerra Ucrânia x Rússia
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