Negócio de mulher negra: empreendedoras valorizam a ancestralidade e o próprio estilo de vida

Empresárias inspiram liderança em segmentos distintos que enaltecem as raízes

Ize Sena | Especial para O Liberal
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Quem acredita que o acarajé é um quitute encontrado apenas em solo baiano, no nordeste do Brasil, está enganado. Na Praça da República, centro de Belém, um tabuleiro com essa e outras iguarias chama a atenção. É lá que a empreendedora Mãe Juci D’Oyá encontra, desde 2017, não somente uma fonte de renda, mas uma forma de manter viva a ancestralidade, por meio do afro cardápio.

“Aquele lugar tem grande importância. Segundo historiadores, era o cemitério de negros escravizados por ser o lugar mais distante do centro da cidade. Como o acarajé é alimento ancestral, faço questão de estar ali junto da memória dos meus antepassados”, revela Mãe Juci D’Oyá.

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Mas nem sempre foi assim na vida da empreendedora. Há seis anos, por exemplo, o local de trabalho era outro. Um ambiente formal, distante da grandiosidade da filha de Iansã. Então, ela foi além. Iniciada no Candomblé, trocou o dia a dia de funcionária pública para vender a receita tradicional da Bahia e ajudar na obrigação da religião de matriz africana. “Me apaixonei pelo ofício de Baiana de Acarajé ainda em 2017 e fui me profissionalizar na área. Fui para Salvador, me filiei à Associação Nacional das Baianas de Acarajé e me tornei a primeira Baiana de Acarajé Legal do Estado do Pará”, conta com orgulho.

image Mãe Juci D’Oyá valoriza o afro cardápio ao vender o famoso acarajé na Praça da República, em Belém (Larissa Bessa)

Com as mudanças também vieram algumas dificuldades, entre elas, a não aceitação do acarajé, além da crítica sobre a aposta no empreendedorismo negro. “Minha vida mudou como um giro de 360°. Eu saí de uma assessoria parlamentar para ser vendedora ambulante. Muitas pessoas me criticaram, porém muitas me deram força e suporte para poder superar as dificuldades iniciais”, recorda.

Hoje, Mãe Juci D’Oyá é exemplo de liderança para outras mulheres negras. Ela também as motiva, por meio de palestras sobre o mercado de trabalho, economia e geração de renda. A inspiração para tornar essas mulheres livres e independentes é ancestral.

“Ao longo da história do Brasil, mulheres negras vêm empreendendo. Tenho como ancestrais mulheres que viviam nas senzalas e que compraram suas alforria vendendo acarajé. Mulheres que iam para o Pelourinho no fim do dia, montavam seus tabuleiros de quitutes e com isso compravam suas liberdades. Nossas histórias são de lutas e conquistas. Sou filha da Vitória, de Dandara dos Palmares, de Zélias, Aqualtune, Luiza Mahin, e de tantas outras que nos antecederam e que garantiram que hoje nós pudéssemos ser livres”, afirma.

Visibilidade

A empreendedora Nara Fernandes também inspira outras mulheres. Ela é proprietária do primeiro espaço de Afroterapia do Norte do país. Negócio que surgiu para atender também às inquietudes da própria Nara, observadas ainda na infância.

“Todas as vezes que mamãe me levava ao salão para cortar o cabelo eu já ia chorando, pois sabia que cortavam demais, cortavam torto e tentavam me convencer de que se eu alisasse o cabelo ficaria mais delicada e bonita”, conta.

Aquela criança cresceu e encontrou na pluralidade da universidade pública a força para lutar por respeito e representatividade. Com o dinheiro do estágio, Nara fez um curso sobre cabelos, que ela frequentava às escondidas. Não demorou muito para começar a fazer atendimentos a domicílio.

A empresária diz que pensou em desistir do empreendimento, porque algumas pessoas não entendiam o propósito. “Cheguei a ouvir que pessoas negras só procuravam salão pra fazer química, que eu iria falir antes mesmo de começar. E isso era muito frustrante”, revela.

No entanto, ela sempre buscou a motivação de valorizar as pessoas com a essência capilar. Chegou até mesmo a emprestar dinheiro para comprar produtos e atender na casa de clientes. A experiência ficou marcada na memória. “Desde aquele dia, quando recebi um abraço recheado de lágrimas, sabia que era essa minha missão como profissional”, afirma.

Hoje, como legítimo representante do empreendedorismo negro, o salão tem profissionais especializados, formado por mulheres, em sua maioria negras, da periferia de Belém. A atividade, acredita Nara, inspira outras mulheres a acreditarem no seu potencial. “A estética negra merece ter visibilidade e nossa profissional merece respeito no mercado da beleza”, finaliza.
 

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