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Vídeos sobre demissão viralizam nas redes sociais; especialistas alertam para os riscos

Recrutadores avaliam que a forma como o desligamento é compartilhado pode influenciar futuras oportunidades profissionais

Thaline Silva*
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Os chamados “vlogs de demissão” têm ganhado espaço nas redes sociais e transformado um momento delicado da vida profissional em conteúdo viral. No TikTok, vídeos que mostram a rotina de trabalhadores no dia do desligamento acumulam milhões de visualizações e atraem comentários de identificação, apoio e curiosidade do público. A tendência, no entanto, levanta debates sobre os limites da exposição nas redes sociais e os impactos que esse tipo de publicação pode ter na vida profissional e jurídica dos ex-funcionários.

O advogado trabalhista André Serrão afirma que o trabalhador tem direito de comentar a própria demissão, mas ressalta que a liberdade de expressão possui limites previstos na legislação brasileira. “No Brasil, a Constituição assegura a liberdade de expressão, então é possível falar sobre a demissão. Contudo, essa liberdade de expressão encontra limites, de modo que não é lícito praticar difamação, calúnias ou injúrias, que são condutas consideradas crimes”, explica.

Segundo ele, publicações ofensivas ou pejorativas podem gerar consequências judiciais. “Uma empresa pode ajuizar uma reclamação trabalhista contra o empregado solicitando indenização por eventuais danos morais ou materiais que venha a sofrer por conta de uma postagem”, afirma.

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Exposição pode gerar consequências jurídicas

De acordo com Serrão, os cuidados devem começar ainda durante o período de aviso prévio. Ele explica que uma publicação feita nesse intervalo pode alterar a forma de desligamento. “Se a empresa der o aviso prévio, e no decorrer do aviso prévio for postado um relato inverídico, difamatório, injurioso ou caluniador, a empresa pode converter a dispensa imotivada em demissão por justa causa”, diz.

Mesmo após o encerramento do vínculo empregatício, o trabalhador ainda pode responder judicialmente por conteúdos publicados sobre a antiga empresa. Segundo o advogado, a empresa pode acionar o ex-funcionário dentro do prazo prescricional de dois anos após o desligamento.

Para ele, o ideal é evitar publicações feitas no calor do momento. “O trabalhador precisa avaliar bem, aguardar até estar mais calmo, e decidir se vai postar algo. Se a decisão for no sentido de postar, ele deve ter a cautela de falar objetivamente sobre o ocorrido, sem ofensas ou qualquer outro tipo de comentário puramente pejorativo”, orienta.

Serrão também destaca que recrutadores costumam analisar as redes sociais dos candidatos durante processos seletivos. “Ele deve lembrar ainda que quando for tentar um próximo emprego, as equipes de seleção costumam pesquisar as redes sociais”, completa.

Recrutadores avaliam comportamento digital

A psicóloga clínica e organizacional Rebeca Barbosa afirma que a exposição nas redes sociais passou a fazer parte da avaliação profissional em processos seletivos. “Os ‘vlogs de demissão’ têm influenciado a avaliação de candidatos porque recrutadores passaram a observar não apenas a experiência profissional, mas também o comportamento digital”, afirma.

Segundo ela, os vídeos podem transmitir diferentes percepções dependendo da forma como são produzidos. “Quando um profissional publica um vídeo sobre seu desligamento, isso pode transmitir transparência e autenticidade, mas também pode levantar dúvidas sobre discrição, maturidade emocional e postura diante de conflitos”, explica.

Rebeca destaca que as empresas observam principalmente o equilíbrio entre autenticidade e profissionalismo. “A autenticidade é valorizada quando demonstra verdade, maturidade e inteligência emocional. Porém, se o conteúdo parecer exposição excessiva, ataque pessoal ou falta de controle emocional, a percepção pode mudar para falta de profissionalismo”, afirma.

A psicóloga também alerta que determinados conteúdos podem prejudicar a imagem profissional do trabalhador. Segundo ela, isso acontece “quando expõe conflitos internos da empresa, ataques pessoais a gestores, quebra de sigilo ou um tom excessivamente emocional e impulsivo”.

Para Rebeca, existe uma maneira mais segura de abordar o tema nas redes sociais. “Tudo é a forma que se fala. A ideia é transformar a experiência em reflexão de carreira, e não em desabafo público”, diz.

Ela também avalia que as redes sociais se tornaram uma extensão da imagem profissional dos trabalhadores. “Hoje o profissional não é avaliado apenas pelo currículo, mas também pela sua presença digital. Plataformas como LinkedIn, Instagram e TikTok ajudam a mostrar posicionamento, conhecimento, comunicação e reputação”, afirma. “A marca pessoal hoje funciona como uma extensão da identidade profissional”, conclui.

*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia

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