Construção civil cresce no Norte e ganha impulso com habitação e COP 30
Presidente do FNNIC destaca avanço do “Minha Casa, Minha Vida”, impacto das obras em Belém e desafios como custos regionais e qualificação da mão de obra
A indústria da construção civil vive um momento de expansão no Brasil, com destaque para as regiões Norte e Nordeste, que lideraram o crescimento recente impulsionado pelo programa “Minha Casa, Minha Vida". Em entrevista ao Grupo Liberal, Marcos Holanda, presidente do Fórum Norte-Nordeste da Indústria da Construção Civil (FNNIC), o Norte registrou aumento de 101% na contratação de imóveis entre 2022 e 2025, refletindo políticas habitacionais mais inclusivas e maior acesso da população de baixa renda ao crédito.
Em Belém, os investimentos ligados à COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) reforçam o cenário de otimismo e aquecimento do setor, com impacto direto na geração de empregos e novos empreendimentos. Apesar dos avanços, o dirigente aponta desafios como a necessidade de adaptar custos da construção às realidades regionais, ampliar a qualificação profissional e garantir políticas públicas que mantenham o ritmo de crescimento no período pós-evento.
Qual o cenário atual da indústria da construção no Brasil e, especialmente, na região Norte?
Marcos Holanda: Estou muito otimista com tudo o que está acontecendo e com a realidade que a gente tinha. Só para a gente ter uma referência, de 2022 a 2025, nós aumentamos (nossa participação) no Minha Casa Minha Vida em 58%. Isso representa, estrategicamente, um dos melhores caminhos para o Norte e para o Nordeste.
Quem mais evoluiu, quem mais teve espaço, quem mais evoluiu nesses três anos, entre 2022 e 2025, foi o Norte e o Nordeste. Só para a gente ter uma noção, o Norte cresceu 101% dos imóveis do Minha Casa Minha Vida. O nordeste cresceu 87% no mesmo período.
De que forma os investimentos e obras realizadas em Belém, por causa da COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) impactaram o setor da construção civil na região?
Estive aqui alguns anos atrás e agora eu fiquei surpreso com a proposta de Belém. Também procuro conversar com as pessoas e o otimismo que a gente vê em sentido nas pessoas que moram aqui, que frequentam aqui em Belém e no Pará. Então, é um ambiente de muito otimismo e de muita esperança.
O Pará, com essa COP 30 e com esses resultados, a gente tem a certeza absoluta e a convicção de que a situação do setor da indústria da construção, que alavanca os processos de construção no país, nas cidades e nos estados, está evoluindo.
Passado esse período de grandes obras devido à COP 30, como o senhor avalia o momento pós-COP para a construção civil em Belém e na Amazônia?
Avalio que a gente tem que estar atento. Eu tive a informação de que 39 mil unidades habitacionais nesse último ano foram contratadas aqui do “Minha Casa, Minha Vida”, foram contratadas pelo pessoal da Caixa Econômica Federal com as empresas locais. Isso me engrandece muito. Evidentemente que o Brasil, como é um país continental, tem as suas deficiências enormes.
Os conflitos na região Norte são muito grandes. As necessidades também são muito grandes. A gente tem a Amazônia, que é uma peça fundamental nesse jogo de desenvolvimento, e a gente precisa criar alternativas.
Quais são hoje, na sua opinião, os principais desafios enfrentados pela indústria da construção no Norte do país?
Acho que o grande problema é a questão das modificações dos preços. Por exemplo, temos a construção do preço do Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil).
Você não pode empregar um preço do Sinapi, que é a construção de preço unitário de cada elemento que faz parte da construção, no Pará, como se fosse em Pernambuco, no Marajó, como se fosse em Maceió.
Então, assim, já há um entendimento, e a gente já está construindo essa discussão, inclusive a gente vai estar com o vice-presidente de governo da Caixa Econômica Federal, que nos assuntos importantes vai ser essa discussão.
É importante que a gente perceba que o Brasil são vários Brasis. Para que esses vários Brasis sejam contemplados, é preciso que a gente analise e estude cada local e faça um trabalho para que isso aconteça de forma competente.
E aí o Ministério (das Cidades) teve essa capacidade nesses três últimos anos - de perceber essas diferenças e construir uma nova política habitacional, principalmente voltada aos que mais precisam, para que esses empreendimentos tivessem realmente resultado.
São aqueles R$ 100 bilhões dos 10 últimos anos, de 2022 para trás, que voltaram para as outras regiões por falta de incentivo e de apoio estratégico para que essas unidades habitacionais pudessem acontecer.
Esses R$ 100 bilhões eu estou me referindo não a investimentos federais. Existia um investimento. Eu estou me referindo à incapacidade do programa viabilizar a pessoa de baixa renda, que tem dois salários mínimos, que hoje os subsídios acontecem através da contemplação do governo federal até R$ 65 mil.
Tivemos um trabalho muito interessante, extraordinário, que foi a viabilização das emendas orçamentárias, complementando a renda do mutuário. Hoje também há uma contribuição também das prefeituras e do governo do Estado.
Então, quando você pega o somatório desses valores que podem chegar a R$ 110 mil, o mutuário não vai pagar, não vai ter que dar mais sinal de valor para a compra da unidade. Ele vai ter simplesmente que cumprir com a sua prestação, coisa que ele já faz no aluguel. Ele vai pagar a sua prestação da unidade habitacional, que é dele.
Isso criou essa riqueza extraordinária e essa facilidade. Com isso, com essas mudanças, evidentemente, um trabalho extraordinário, fantástico, do Ministério das Cidades, junto com a Caixa Econômica Federal, que alcançou esses grandes resultados.
Como o atual cenário econômico do Brasil influencia diretamente o desempenho do setor da construção civil?
É uma relação muito importante e muito linear. Se o país está dando emprego, se o país está se desenvolvendo, está crescendo, se o país cria alternativas de credibilidade com relação a essa movimentação do processo imobiliário, do desenvolvimento dos empreendimentos do setor da indústria da construção, leva o empresário a tocar a sua empresa e fazer com que as coisas aconteçam e avançar.
Agora, o empresário é sempre uma pessoa extremamente otimista. Nós não podemos ser pessimistas. Eu acho que o empresário é extremamente otimista. Porque temos empresas desde 1989 e atravessamos altos e baixos e momentos bons e ruins.
Por exemplo, com relação ao “Minha Casa, Minha Vida”, a gente sabe que hoje existe recurso garantido para os empreendimentos que estão sendo elaborados e construídos. Isso é uma garantia extremamente importante para aqueles que estão fazendo os empreendimentos do “Minha Casa, Minha Vida.”
Falando do “Minha Casa, Minha Vida”, esses programas habitacionais ainda são o motor importante para o setor? Na sua opinião, qual o impacto deles na região amazônica?
Isso é extraordinário, pela carência das infraestruturas e carência da habitação popular. Se você olhar, por exemplo, historicamente, era um sonho basicamente impossível. A nossa colaboradora, que está conosco há 30 anos, um exemplo particular, lá na nossa casa, comprou a casa própria dela. Era uma coisa que a gente nunca, jamais a gente podia perceber que ia acontecer. Eu acho que isso realmente é uma coisa muito importante.
Agora, a carência é muito grande, porque você está entregando 2 milhões de moradias, está comemorando 2 milhões de moradias agora, este ano, como um projeto extraordinário, que foi desenvolvido pelo governo federal. Mas a gente já está discutindo a questão de se atingir os 3 milhões de unidades.
O Brasil é muito grande e as necessidades são muito grandes. Acho que para você ter um povo criativo, inteligente, é preciso que haja os desafios. O Brasil é maravilhoso. Tem coisas espetaculares. não temos problemas maiores como o tufão. A gente tem água. A gente tem Amazônia. Isso é muito importante. Acho que é fundamental.
Tem um detalhe que a gente escuta e que a gente está muito preocupado - que é a questão do investimento nas pessoas. Eu acho que a gente precisa resgatar de forma muito mais firme a criança.
Hoje há dificuldade para contratar mão de obra qualificada na construção civil, especialmente aqui no Pará?
Acabamos de fazer um evento no Piauí, em Teresina, e assinamos um convênio com o ministro Wellington Dias, que era uma coisa extremamente importante. Hoje, quem recebe o “Bolsa Família” tem dois anos para trabalhar com carteira assinada sem perder o benefício.
Porque um dos grandes problemas que a gente vinha enfrentando era que a gente não podia contratar o funcionário do Bolsa Família. Evidentemente, com esse boom imobiliário, inclusive com esse negócio de baixa renda, só para você ter uma ideia, 39 mil unidades foram contratadas neste ano pela Caixa Econômica, pelo ministério aqui no Pará.
Assinamos o convênio. Esse convênio está em vigor, e é importante que a gente divulgue isso, porque muitas vezes as pessoas não sabem, mas o trabalhador pode ter carteira assinada e trabalhar durante dois anos. Isso quer dizer que ele vai ter a oportunidade de trabalhar no empreendimento e concluir esse empreendimento sem ter a necessidade de perder o seu Bolsa Família.
Há propostas em discussão no Congresso que preocupam ou que são defendidas pelo setor da construção civil neste momento? Se sim, quais seriam essas propostas?
Não vivemos só de brilhos também. Existem dificuldades. A gente acha que há uma necessidade do Congresso, em geral, olhar para as pessoas, olhar para as necessidades. Então, acho que demora muito para se discutir e viabilizar as necessidades, que são muitas, são imensas, e muitas vezes se discutem assuntos, questões que não são do interesse da população, e ela não é consultada. Acho que é uma coisa que muitas vezes não se preocupa.
Por exemplo, essa questão da mão de obra era uma coisa que tinha que ser discutida e ter sido ampliada. Essa questão de quem tem a Bolsa Família não poder ser contratado com carteira assinada. Confesso que a pessoa receber um Bolsa Família para um momento brasileiro é justificável, mas é preciso que a pessoa também tenha a condição de trabalhar e ter a sua carteira assinada
O que faz gerar insegurança no Brasil e no empresário? É você contratar uma pessoa e você não ter condição de amanhã ter ela com a carteira assinada. Isso é uma coisa preocupante e isso é uma coisa que precisa se debater.
A questão da escala 6x1 deve ser discutida também. Temos que ver até que ponto essa mudança vai ou não prejudicar o setor. Então, precisa ver se isso realmente vai ser bom ou não para o povo brasileiro, para a sociedade, porque tem toda uma questão de resultado financeiro, de contribuição financeira, de resgate de valores que muitas vezes podem ficar no meio do caminho.
A gente sabe ainda que a questão da mão de obra precisa ser treinada. Porque a grande jogada é você treinar as pessoas para que elas possam ganhar mais, para que elas possam produzir com mais velocidade. Isso é fundamental.
Muitas vezes, você tem, por exemplo, uma universidade em grande escala, mas você não tem um professor com capacidade de dar aula. Isso é um problema. Se o professor ganha mal, se o professor não tem aquelas exigências técnicas que a profissão naquele momento exige, isso vai levar a um resultado pífio no futuro.
É muito importante discutir essas questões estruturantes para você poder ter um Brasil com mais oportunidade, porque o que me cansa é você falar do Brasil do futuro. Você até pode falar do Brasil do futuro, mas eu não me dou esse direito. O foco tem que ser o Brasil do presente. O Brasil do presente, o Brasil da criança, o Brasil da pessoa que tem acesso às informações, a uma boa escola.
Fui aluno público, me informei em escola pública, estudei em universidade pública, ensinei em universidade pública. Há de convir que hoje não é fácil você fazer um concurso, um vestibular em uma universidade de alto nível se você for um aluno público. A gente tem que reconhecer essa realidade.
O sucesso de outros países, de outras cidades que a gente vê fora do Brasil, acontece no investimento na criança e na capacidade da cultura e do desenvolvimento da tecnologia.
Qual sua opinião sobre o uso da IA (Inteligência Artificial) na construção civil? Já há o uso? Como está esse processo?
Eu sou muito a favor da tecnologia. A tecnologia é extremamente interessante. As pessoas que trabalham, que produzem no setor da indústria da construção precisam cada dia mais serem treinadas para poder ter capacidade de produzir mais com gasto de menos energia, usando a sua capacidade técnica e qualidade das obras.
Na construção civil, a IA hoje é um instrumento de consulta. É extremamente importante. Estava conversando com um palestrante nosso e estávamos falando sobre uma palestra que vai ter sobre os centros urbanos, que a gente acha, por exemplo, que os centros urbanos precisam ser revitalizados. Uma palestrante disse pra mim que estava consultando a IA vendo uma série de informações dos centros urbanos.
Há 40 anos, se eu quisesse uma informação, eu ia gastar e ia pagar caro. Hoje, se você puder pegar uma (ferramenta) IA, pegar uma internet e souber fazer a pesquisa, isso vem na sua mão de graça. Existe o lado negativo e o lado positivo. A gente tem que fazer o positivo. As pessoas precisam ser preparadas para isso.
Se hoje um salário de um funcionário da indústria da construção é R$ 4.000, R$ 3.000, amanhã pode passar a ser R$ 10.000, se ele tiver a capacidade de instrumentalizar as obras. Hoje tem mais tecnologia. Tema mais capacidade de produção.
Você faz uma casa hoje em dois, três dias com muita velocidade. Antigamente, não se fazia. É isso que a gente tem que estar preocupado. Preocupado em fazer parte desse sistema evolutivo. A IA é uma dessas coisas.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA